O Porto vai receber, entre 24 e 30 de junho do próximo ano, um novo grande evento literário de dimensão internacional. Chama-se BABELL e é idealizado e produzido pela Fundação Livraria Lello, com o apoio da Câmara Municipal do Porto, ocupando o espaço público da cidade com conversas, exposições, concertos e intervenções artísticas centradas na palavra e na literatura.

“Queremos reposicionar o Porto enquanto cidade literária”, afirma Rui Couceiro, antigo editor, agora comissário do evento, ao Observador. Explica que BABELL é um investimento cultural no território, sem retorno financeiro para a Fundação, que tem como objetivo dinamizar o espaço público e envolver todo o ecossistema do livro, incluindo livrarias e alfarrabistas da cidade.

O evento vai trazer ao Porto alguns dos maiores nomes da literatura e do pensamento contemporâneo, entre os quais o filósofo Byung-Chul Han e os escritores Salman Rushdie, Margaret Atwood e Olga Tokarczuk, além de autores portugueses. A programação completa deverá ser revelada em fevereiro e contará com “dezenas de sessões, exposições e concertos”.

“Vamos montar grandes plateias nas praças e ruas da cidade para assistir a conversas com escritores, manifestações e intervenções poéticas, exposições, concertos e uma série de outras iniciativas sempre ligadas com a palavra”, adianta Couceiro. “A literatura e os livros são o fio condutor de todo o evento, que se chama Babel numa alusão subvertida ao mito da Torre de Babel, que de alguma forma afastava os povos através da incapacidade de se entenderem. Nós vamos fazer o contrário. Achamos que a variedade linguística é a riqueza”.

O livro como “moeda de troca”

Rui Couceiro, frequentador e participante em eventos literários há mais de duas décadas, diz que se tem dedicado “ao estudo destes festivais em Portugal” — é publico que abandonou uma tese de doutoramento sobre o tema para escrever o seu primeiro romance. “O estudo que fiz demonstrava — ou iniciava a demonstrar, porque, na verdade, não terminei essa tese — que as pessoas não compravam mais livros por estarem nos festivais literários, nem passavam a frequentar livrarias”, revela ao Observador. Essa constatação preliminar esteve na origem da vontade de fazer diferente neste projeto, confessa. Uma ideia que ganhou forma quando foi convidado pela administração da Livraria Lello a comissariar o evento, aproveitando a visão do administrador Pedro Pinto de transformar o livro numa espécie de “moeda de troca” nas experiências culturais.

Será uma das marcas distintivas do BABELL: o modelo de acesso. A maioria das sessões será gratuita, mas o acesso aos lugares sentados nas grandes plateias — algumas com capacidade para cerca de dois mil lugares — estará ligado à compra de livros nas livrarias da cidade. “Quem quiser um lugar sentado tem de se dirigir a uma das cerca de 60 livrarias ou alfarrabistas do Porto e comprar um livro. Pode ser um livro de 50 cêntimos. Esse livro dará acesso a uma senha que depois é trocada online pelo bilhete da sessão”, elucida o comissário.

A ideia, diz, é simples e deliberada: “O que vamos fazer é obrigar as pessoas a entrar nas livrarias da cidade e a comprar livros. Quem quiser participar tem de comprar livros.” Rui Couceiro sublinha que o evento não está centrado na Livraria Lello: “Não é um evento focado na Livraria Lello, é focado em todas as outras livrarias e alfarrabistas da cidade”.

O primeiro dia do festival, que coincide com o dia de São João, festa popular e feriado municipal na Invicta, será excecionalmente fora do Porto. Terá lugar em Leça do Balio, no concelho de Matosinhos, junto à sede da Fundação Livraria Lello, com a inauguração do Jardim do Pensamento, um projeto do arquiteto Álvaro Siza Vieira, que desenvolveu 14 esculturas para aqueles quatro hectares, e do arquiteto Sidónio Pardal. O jardim será “apadrinhado enquanto jardim filosófico” pelo filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, que fará a conferência de abertura do evento.

Orçamento está por revelar, mas “fará deste evento claramente o maior deste tipo em Portugal”, diz comissário

Questionado pelo Observador, Rui Couceiro diz que o orçamento do BABELL ainda não está fechado, devido à confirmação em curso de vários nomes internacionais. “É um orçamento grande que fará deste evento claramente o maior deste tipo em Portugal”, afirma, sublinhando que o investimento cultural é “fundamental para o desenvolvimento do território”. Também não adianta a verba do apoio da Câmara Municipal do Porto por não estar fechada, justifica.

Na leitura do comissário, o Porto tem uma herança literária que importa recuperar. “O Porto é por natureza e por caráter uma cidade literária. Aqui nasceram e viveram muitos dos grandes escritores portugueses, mas acredito que, com as transformações dos últimos 25 anos, essa identidade se perdeu um pouco. Queremos reposicionar o Porto enquanto cidade literária e investir no nosso território.”

Para já, ainda não é certo que o evento tenha periodicidade. “Acreditamos que o investimento na área da cultura é a melhor forma de contribuir para o desenvolvimento do território”, começa por responder. “Se isto se repetir nos anos seguintes, será extraordinário. Mas neste momento, estamos focados em colocar de pé uma iniciativa que pretendemos que seja o melhor e o maior evento literário jamais feito em Portugal.”