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"Situação complexa" de corretora de vinhos de luxo deixa centenas de lesados em Portugal e milhões de euros sem rasto

Este artigo tem mais de 6 meses

Aviso das autoridades britânicas lançou o alerta: Oeno Group estará em sérias dificuldades, com dívidas e sem gestão. Terá cerca de 600 clientes em Portugal que podem ter perdido todo o investimento.

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picture alliance via Getty Image

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No verão era notícia por ter lançado um fundo de investimento em “vinho fino” e whisky. Previa angariar 20 milhões de euros na fase inicial e o investimento mínimo era de 50 mil euros. Esta segunda-feira, o Oeno Group, uma empresa com sede em Londres especializada em investimentos em vinho de luxo e com centenas de clientes em Portugal, deixou de ter atividade.

Quem entra no site da empresa encontra agora um aviso público da City of London Corporation, a autoridade municipal londrina, a dar conta que a empresa “cessou recentemente a sua atividade” e está em curso “uma situação complexa”. Aos investidores é deixado o aviso: podem ter perdido tudo. O mesmo aviso está publicado no site da autoridade londrina.

Os escritórios da empresa em Londres fecharam no final de novembro. A liderança do Oeno Group é uma incógnita. O CEO é Michael Doerr, que se afirma como fundador da empresa em brochuras oficiais, mas nos registos comerciais são outros os nomes que surgem como fundadores. Em 2015, a Oenofuture Limited foi fundada pelo italiano Daniel Eros Carnio e por Xiaowei Huang, cidadão chinês. O nome de Doerr só surge nos mesmos registos em 2018, quando a Doerr Group Limited entrou no capital do grupo.

De acordo com a nota da autoridade londrina, Doerr resignou ao cargo a 3 de junho de 2025, apesar de só ter sido dada nota oficial a 4 de novembro à Companies House, a entidade pública responsável pelo registo de empresas no Reino Unido.

Na mesma data foi indicado um novo CEO, Marshal Willis Deutsch. Mas segundo o aviso desta segunda-feira, não se sabe quem está atualmente à frente da empresa. O Oeno Group “ainda existe como entidade legal mas não tem controlo de gestão”. Terá “dívidas consideráveis”, segundo as autoridades, e “provavelmente precisa de ser colocada sob administração judicial”.

Portugal era terceiro mercado da Oeno. Maior cliente tinha 1,6 milhões investidos

O Oeno Group chegou a Portugal em 2021, mas só abriu um escritório próprio, em Oeiras, em abril de 2024. Tem presença física, além de Reino Unido e Portugal, em Espanha, Itália, Estados Unidos e Austrália. Ao Público, em novembro de 2024, os responsáveis diziam ter em Portugal o terceiro mercado mais importante. Esperavam fechar esse ano com quase 120 milhões de euros em ativos sob gestão e receitas superiores a 20 milhões.

O grupo, que na prática funcionava como uma corretora de vinhos e whiskys, apresentava-se como “líder global no setor de investimento em vinho fino” e em 2024, por altura da abertura em Portugal, dizia, ao Jornal Económico, ter no país cerca de 600 investidores com mais de cinco milhões de euros investidos, e um valor médio por carteira entre 15 e 20 mil euros. O mínimo para entrar era de cinco mil euros. O maior cliente do responsável pelo negócio em Portugal, Tiago Stattmiller, tinha 1,6 milhões investidos, segundo disse ao Público. Prometiam um retorno de 10% a 15% de valorização média anual e cobravam 10% sobre os lucros à saída. E recomendavam aos clientes manter o investimento num vinho ou whisky durante pelo menos cinco anos. Ao que o Observador apurou, a empresa terá enviado um email aos investidores na semana passada a demarcar-se da situação. Desde então, os emails foram desativados, tornando impossível aos investidores contactar a corretora.

No fundo lançado em junho, aconselhavam um investimento mínimo de 100 mil euros. A gestão do fundo seria feita por uma entidade credenciada na CMVM – a FundBox. Na manhã desta terça-feira, já depois da publicação desta notícia, a CMVM esclareceu ao Observador que a “entidade Oeno Group não é uma entidade sujeita à supervisão da CMVM” e que o fundo de investimento “OENO Fine Wine & Whisky Fund, Fundo de Investimento Alternativo Fechado em Ativos não Financeiros” encontra-se “autorizado pela CMVM, não tendo contudo iniciado atividade”. O regulador “acompanha a situação no âmbito das suas competências legais e atua sempre que tal se revele necessário para a proteção dos investidores e para o regular funcionamento do mercado.”

O que aconteceu nos últimos meses não se sabe. De acordo com a nota pública emitida esta segunda-feira, a situação atual permitirá que “um administrador de insolvência independente avaliasse os negócios da empresa e determinasse o curso de ação apropriado para os credores”. Mas “nesta fase, não está claro se há algum credor disposto a iniciar esse processo, mas estão a ser feitos esforços para identificar alguém”.

Certas parecem as perdas para os investidores. “Se investiu dinheiro na compra de vinho ou whisky da Oenofuture Limited na última década, deve estar ciente de que poderá acabar por perder parte ou a totalidade do seu dinheiro”.

As autoridades acreditam “apenas uma pequena percentagem do vinho dos clientes – talvez 20% – está depositada em contas individuais às quais os clientes são capazes de aceder”. O restante estará depositado “numa conta controlada pela Oenofuture Limited”. No último mês, “foram feitos esforços nos bastidores para transferir o máximo possível de vinho da Oenofuture Limited para contas individuais de clientes, mas esta tem sido uma tarefa gigantesca e apenas uma quantidade relativamente pequena de vinho foi transferida”.

A City of London Corporation adianta ainda que, segundo pesquisas em fontes abertas, o registo de revenda de álcool da Oeno foi cancelado em outubro. E revela que o HM Revenue and Customs, o equivalente à Autoridade Tributária britânica, entrou no verão com um pedido de falência contra “um indivíduo chamado Michael Peter Doerr”, o fundador do Oeno Group, “mas o estado desse processo é desconhecido”.

As autoridades recomendam aos investidores que tenham comprado vinho ou whisky através do Oeno Group que contactem a polícia britânica, caso considerem que possam ter sido vítimas de fraude.

E avisam ainda que caso os investidores sejam contactados “por alguém que diga que pode recuperar o seu dinheiro, vinho ou whisky mediante o pagamento de uma taxa, isso provavelmente será o que se chama de «fraude de recuperação»”, pelo que o conselho das autoridades “é não pagar nada a ninguém”.

A City of London Corporation aconselha os investidores a tentar “localizar exatamente” o vinho ou whisly que compraram, “utilizando toda a documentação que tiver e contactando os armazéns alfandegários referidos nessa documentação”. Isto porque, supostamente, “o vinho ou o uísque estarão armazenados numa conta em seu nome e não sob o controlo da Oenofuture Limited”.

(Notícia atualizada às 10h15 de terça-feira, 23 de dezembro, com resposta da CMVM.)

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