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A ditadura de Zalazar contra a equipa que ficou sem governo (a crónica do Benfica-Sp. Braga)

Este artigo tem mais de 6 meses

Jogo de Liga é diferente de jogo de Taça da Liga? Por norma sim, aqui não. E, na coroação de Zalazar entre erros a fio dos centrais do Benfica, só a capacidade minhota de segurar vantagem mudou (1-3).

Rodrigo Zalazar assistiu para o primeiro golo de Pau Víctor, marcou o 2-0 e foi o MVP do triunfo do Sp. Braga frente ao Benfica
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▲Rodrigo Zalazar assistiu para o primeiro golo de Pau Víctor, marcou o 2-0 e foi o MVP do triunfo do Sp. Braga frente ao Benfica

Gualter Fatia

▲Rodrigo Zalazar assistiu para o primeiro golo de Pau Víctor, marcou o 2-0 e foi o MVP do triunfo do Sp. Braga frente ao Benfica

Gualter Fatia

Havia pontos de contacto entre as situações de Sporting e Benfica em alguns parâmetros, o Benfica queria a todo o custo fugir dos resultados como ponto de contacto. Entre ausências por lesão e limitações físicas que condicionam depois as escolhas (com esse exemplo paradigmático de Aursnes, que Mourinho assumiu estar a benzer-se quando o médio entrou no último quarto de hora na receção ao Estoril), os encarnados tinham um reencontro marcado com o Sp. Braga dez dias depois do empate na Pedreira para a Primeira Liga e dentro de um contexto mais apertado a nível de problemas. Também à semelhança do que tem dito e feito o homólogo Rui Borges, José Mourinho preferia encontrar soluções em vez de lamentar problemas. E era por isso que, de forma assumida, garantia que não havia margem para grandes rotações perante a importância do jogo.

Benfica-Sp. Braga. Águias procuram décima final da Taça da Liga, minhotos querem promover inédito dérbi na decisão

“Há sempre necessidade de… Não diria de reinventar, mas de adaptar. Principalmente porque nos vão faltar opções em termos de rotatividade, em termos de um segundo jogador para cada posição. Vamos ter de fazer um bocadinho de exercício… Se não há António Silva e se há o Tomás [Araújo] e o Otamendi, o terceiro virá de baixo, neste caso o Gonçalo Oliveira. E por aí fora. Ontem [com o FC Porto B] a equipa B foi claramente prejudicada pelas necessidades da equipa A. Dentro deste tipo de colaboração, nasce a proteção aos problemas de lesões que temos neste momento. Se formos progressivamente recuperando em vez de perder mais ativos, tentamos reequilibrar as coisas. É um mês com tantos jogos… Às vezes um jogador está lesionado duas semanas e não joga dois jogos, neste caso não joga seis. Não é fácil mas vamos embora”, apontava o técnico dos encarnados, na antecâmara de encontros que eram, sem exceção, todos “decisivos”.

“Estamos numa situação em que ainda nos conseguimos equilibrar. Dar o exemplo do Gonçalo Oliveira: estará no banco mas está ali à porta. Podia dar mais exemplos. Sem o Enzo, o Prioste está à porta. Com Dahl, a porta está fechada para o José Neto entrar. Se eventualmente abrisse, ele está perto da porta. Temos vindo a abordar os problemas sempre da mesma maneira. De recordar o drama da lesão do Lukebakio. Abordámos as coisas no sentido de ‘Ok, sabemos o jogador que é, a importância que tem’. Estávamos a tentar desenvolver a equipa numa ou outra direção. Internamente, algumas lágrimas. Mas tentámos sempre passar a ideia de que íamos encontrar soluções. Gestão? Não temos condições para isso, são jogos que não dão muito espaço a pensar em rotatividade. Vamos com tudo até onde der. Não temos condições para fazer muita rotatividade, não há jogadores suficientes, não há duplos ou réplicas”, referira antes de uma partida onde não poderia contar com Enzo Barrenechea, Lukebakio, Bruma, Samuel Soares e Bah além de João Veloso, Nuno Félix e Wynder. Boa notícia? Apesar de todos os cuidados a que ainda obriga, Aursnes podia ser opção inicial.

Em paralelo, existia outro “desafio” extra na meia-final da Taça da Liga – Allianz Cup: fazer uma espécie de tira-teimas com os minhotos depois de um empate onde o Sp. Braga foi melhor (ou muito melhor) do que o Benfica na primeira parte antes de o Benfica ser melhor (ou muito melhor) do que o Sp. Braga no segundo tempo. “Às vezes as vossas perceções de fora não são coisas que os treinadores quiseram que acontecesse. Às vezes os jogos vão em direções que os treinadores não querem. Não acredito que o Sp. Braga, a ganhar 2-1, tenha voltado a dizer ‘Agora vamos só defender’. Mas, quem visse a segunda parte, poderia pensar que o Sp. Braga vinha para defender o resultado. Não acredito que seja verdade. Conhecendo o Sp. Braga e o seu processo de formação, não acredito que pense ‘Vamos aguentar até ao minuto 90 que depois há penáltis e é uma lotaria’. Tem tudo para ser um bom jogo, tal como o de Braga”, frisara sobre o reencontro.

Foi mesmo, quase tirado a papel químico mas com o Sp. Braga a conseguir aguentar-se na fase fulcral da partida para capitalizar aquilo que tinha conseguido construir antes. José Mourinho falou muito na crença na matemática para tentar ainda ser campeão e na crença em ser a única equipa nacional sem derrotas internas. Foi uma questão de tempo. Os minhotos, fiéis a um jogo bonito e que facilmente ativa as três unidades da frente, fez o que quis de uma defesa encarnada desastrada que teve em Tomás Araújo a principal unidade com a noite para esquecer e que ainda perdeu Otamendi para o clássico no Dragão para a Taça de Portugal por expulsão. Depois, imperou Zalazar. Jogou, fez jogar, marcou, assistiu e voltou a provar que é demasiado grande para andar nestes palcos tanta é a qualidade que apresenta em todos os momentos do jogo. Com tudo isso, vai mesmo haver dérbi na final – entre V. Guimarães e Sp. Braga e não entre Sporting e Benfica.

Ficha de jogo

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Benfica-Sp. Braga, 1-3

Meia-final da Taça da Liga – Allianz Cup

Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

Benfica: Trubin; Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Dahl; Manu Silva (Prestianni, 46′), Richard Ríos; Aursnes (Ivanovic, 79′), Leandro Barreiro, Sudakov (Sidny Lopes Cabral, 64′) e Pavlidis

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, Schjelderup, José Neto, Gonçalo Oliveira, João Rêgo e Diogo Prioste

Treinador: José Mourinho

Sp. Braga: Hornicek; Lagerbielke, Vítor Carvalho (Paulo Oliveira, 59′), Arrey-Mbi; Dorgeles (Víctor Gómez, 59′), Grillitsch, João Moutinho, Leonardo Lelo; Zalazar (Gabriel Moscardo, 85′), Ricardo Horta (Diego Rodrigues, 90+1′) e Pau Víctor (Fran Navarro, 59′)

Suplentes não utilizados: Tiago Sá, Gorby, Yanis Rocha e Gabri Martínez

Treinador: Carlos Vicens

Golos: Pau Víctor (19′), Zalazar (33′), Pavlidis (64′, g.p.) e Lagerbielke (81′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Otamendi (10′ e 89′), Hornicek (32′), Vítor Carvalho (48′), Prestianni (69′), Lagerbielke (72′) e Fran Navarro (78′); cartão vermelho por acumulação a Otamendi (89′)

Havia essa curiosidade de se perceber que jogo poderia haver em Leiria, tendo em conta essas discrepâncias entre primeira a segunda partes no encontro da Liga. E primeira imagem foi uma “ilusão”: o Benfica estava a 75% da melhor versão apresentada na Pedreira, a fazer prevalecer as zonas de pressão alta sem espaços para que a criatividade de Zalazar e Ricardo Horta não fizesse a diferença e a apostar na química no lado direito entre Dedic e Aursnes para desequilibrar a organização defensiva minhota, ao passo que o Sp. Braga estava a 25% da melhor versão mostrada há dez dias, tentando ter mais posse a construir a partir de trás mas sem chegar às ligações com o setor ofensivo que podiam fazer a diferença. Quase de forma natural, a primeira chance do encontro pertenceu aos encarnados, com o corredor direito de novo a fazer a diferença antes do cruzamento de Dedic para o desvio de Pavlidis na pequena área que foi travado por Hornicek, que ficou com a recarga de Sudakov em boa posição (5′). O aviso inicial estava dado, o filme iria mudar depois.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Benfica-Sp. Braga em vídeo]

Aproveitando os movimentos de Ricardo Horta e Pau Víctor pelo meio ou de Dorgeles ou Leonardo Lelo pelas laterais, Zalazar começou a andar à procura do espaço para fazer a diferença. Sem bola lia o jogo, com bola ia espalhando magia. Foi assim que, na primeira incursão em posse dos bracarenses no último terço, o médio uruguaio ganhou uma falta perto da linha da área que numa primeira instância ainda foi interpretada (de forma errada) como penálti mas que deixou o banco dos minhotos a pedir vermelho para Otamendi (9′). Foi assim que, depois de Dorgeles ter atraído Dahl, Zalazar caiu na direita, passou tenso para Pau Víctor com Tomás Araújo a falhar a antecipação e o avançado espanhol rematou cruzado sem hipóteses para o 1-0 (19′). Richard Ríos, numa jogada que começou de novo com Leandro Barreiro a cair no espaço atrás de Leonardo Lelo na direita, ainda teve antes um remate forte mas a bola saiu pouco ao lado da baliza (16′).

Se até aos dez minutos o Sp. Braga tinha colocado as percentagens supracitadas a 50/50, a partir daí virou e passou a ser a 75% aquilo que mostrara na primeira parte do jogo do Campeonato. 75% não, 100%. 100% não, 110%. Porquê? Porque Zalazar representa sempre 10% a mais em qualquer equipa, algo que muitos clubes parecem não querer ver (mas será uma questão de tempo) mas que Carlos Vicens percebe da melhor forma. Assim, e dentro de um jogo posicional que foi quase sempre superior ao que fazia o Benfica, o 2-0 acabou por chegar quase de forma natural, com o uruguaio a fazer uma cavalgada fantástica pela direita com Sudakov sempre a tentar sem sucesso acompanhar, a passar por Otamendi que não podia fazer falta porque seria expulso e a rematar cruzado para aumentar a vantagem (33′). Entre assobios que não ajudavam, o Benfica ainda tentou reduzir mas a melhor oportunidade depois disso chegou nos descontos e outra vez para os minhotos, com Ricardo Horta a acertar nas malhas laterais após passe de… Zalazar (45+3′).

José Mourinho tinha de fazer algo ao intervalo perante um jogo que estava a correr ainda pior do que essa primeira parte na Pedreira, lançando Prestianni no lugar de Manu Silva com Aursnes a recuar para 6 e dando o mote para uma atitude competitiva completamente diferente daquela que se tinha visto até ao intervalo. Os erros defensivos sucediam-se, com um cruzamento que aparentemente não iria trazer perigo a valer uma oportunidade flagrante a Pau Víctor travada por Trubin pelo desentendimento entre Tomás Araújo e Dedic (52′), a vontade tinha mudado. Faltava inspiração. Muita inspiração mesmo. E, com um Sp. Braga sem tanta capacidade de esticar o jogo à frente também por alguma quebra física de Zalazar, os minutos iam passando sem esse rasgo… que acabou por chegar por demérito dos minhotos: Paulo Oliveira, que acabara de entrar, teve uma abordagem precipitada num lance com Pavlidis na área, cometeu falta e o avançado grego voltou a não tremer na grande penalidade, enganando Hornicek e reduzindo a desvantagem para 2-1 (64′).

O jogo entrava naquela zona que era mais favorável a Mourinho: um autêntico caos. Partido, às vezes com bola-cá-bola-lá, aberto, com toques anárquicos nos posicionamentos dos jogadores. Fran Navarro teve uma oportunidade flagrante depois de surgir isolado na área dos encarnados com o remate a ser ainda cortado por Tomás Araújo quando se encaminhava para a baliza (65′), Richard Ríos teve uma meia distância fortíssima que Hornicek travou dois tempos (72′) e, numa fase em que João Moutinho conseguiu dar ordem ao jogo em posse, o Sp. Braga chegou mesmo à estocada final, com Tomás Araújo a desviar de forma inadvertida para a própria baliza um livre lateral de Zalazar, Trubin a defender em cima da linha e Lagerbielke a tocar no meio da confusão (81′). Pavlidis ainda teve um desvio de cabeça ao lado (86′) mas o resultado estava feito, havendo apenas tempo para uma expulsão por acumulação de Otamendi… na sequência de protestos (90′).

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