Se três físicos dos anos sessenta tivessem total razão, o mundo acabaria este ano. A data prevista por Heinz von Foerster, Patricia M. Mora e Lawrence W. Amiot, ancorada na “ciência” por trás das suas equações matemáticas, chegaria no dia 13 de novembro de 2026. Ou seja, a “população mundial cresceria exponencialmente até aproximar-se do infinito” dentro de dez meses.

Publicado na revista Science a 4 de novembro de 1960, o estudo “Doomsday: Friday, 13 November, A.D. 2026” , seguia a linha malthusiana de que o aumento demográfico não é acompanhado pela indústria alimentar (Thomas Robert Malthus dizia que a população poderia crescer em progressão geométrica de 2, 4, 8, 16…, enquanto a produção de alimentos cresceria apenas em progressão aritmética 2, 4, 6, 8… prevendo). Com base numa elaborada fórmula os três físicos preconizavam que o crescimento da população humana atingiria níveis insustentáveis até 2026.

“Os nossos trisnetos não vão passar fome. Eles vão ser apertados até à morte”, dizia Von Foerster, citado pela revista Time. Caso a população mundial não se autodestruísse através de uma guerra nuclear ou outra catástrofe, e supondo que tendências como o desenvolvimento da indústria alimentar permanecessem persistentes, “a sobrepopulação não deixará espaço livre e, então, as pessoas morrerão por falta dele”, defendia o físico, recorda o jornal espanhol ABC.

Na verdade, mais do que uma teoria que previa a extinção da humanidade num dia de inverno, os autores pretendiam alertar para o facto de que qualquer população que cresça a um ritmo acelerado está a caminho de um problema grave. E que era preciso agir para o evitar. Até porque, frisava o físico alemão, “não há necessidade de esperar até que um mecanismo externo influencie a atividade humana”, uma vez que “o próprio homem pode mesmo assumir o controlo do seu destino”. O também especialista em cibernética apontava para a necessidade de medidas de controlo da natalidade para manter a população mundial no nível desejado, como a tributação pesada sobre famílias com mais de dois filhos. (Curiosamente, Von Foerster era pai de três filhos).

O artigo foi alvo de “duras críticas”, lembrou Stuart Umplby em 1987, referido pelo ABC. Marvin Shinbrot, professor de física na Universidade de Stanford, escreveu mesmo na Science, que, se o estudo tivesse “algum efeito”, seria entre os “tolos”.

A verdade é que a fórmula matemática de previsão dos três cientistas da Universidade de Illinois, nos EUA, dependia de algumas variáveis, como a taxa de natalidade ou o estado da indústria alimentar, por exemplo, e os autores do estudo consideravam duas perspetivas, a dos otimistas e a dos pessimistas, como o Observador recordou há dois anos num fact-check.

“Os otimistas acreditam na tese de que não importa o quão rápido a população está a crescer, a tecnologia alimentar e as indústrias vão facilmente manter o mesmo ritmo do que o crescimento da população”, diziam, enquanto os “pessimistas preferem pintar o futuro da Humanidade não de forma tão cor de rosa”, considerando que a ciência não acompanharia o crescimento da população.

Os anos mostraram que a equação era “muito conservadora”, afirmava já o bioquímico espanhol Santiago Grisolía ao ABC no final da década de 1980. A fórmula previa que em 1975 a população ultrapassaria os 3.500 milhões de pessoas, muito próxima da realidade (3.970), mas já falhava na década seguinte. Nos anos oitenta chegou aos 4.400 milhões de habitantes, bem acima dos 3.970 resultantes da equação.

Fact Check. Especialista da Universidade de Harvard prevê que o fim do mundo aconteça em 2026?

Apesar das preocupações com o crescimento populacional, aliadas ao envelhecimento da população nos Estados Unidos da América (EUA) e na Europa, a população mundial continuou a aumentar até atingir os 8 mil milhões de pessoas em 2023, de acordo com dados do Departamento de Censos dos EUA. No entanto, recorda a Time, nos países mais desenvolvidos, a tecnologia de produção de alimentos tem estado à frente do crescimento populacional. Nos EUA, por exemplo há excedente agrícola e não fome. Já nos países menos desenvolvidos, onde a pressão populacional é dramática, o cenário apocalíptico pode ser adiado algum tempo se a tecnologia for melhorada.

Aliás, segundo a Revisão de 2024 das Perspetivas da População Mundial feita pelas Nações Unidas, espera-se atingir o pico de 10,3 mil milhões de pessoas neste século, em 2084. (No mesmo documento, Portugal figura entre os 63 Estados que atingiram o auge demográfico, junto a países como a China, a Alemanha, o Japão e a Rússia). Mas depois a curva desce. Em 2100, a população será 6% menor do que se projetava há uma década. Razão? Prevê-se uma descida da natalidade em alguns grandes países, como a China, por exemplo. Ou seja, duas das variáveis, a produção alimentar e a natalidade não se mantiveram como na equação de 1960 nem as previsões até ao fim do século apontam nesse sentido. Assim, ainda não será neste ano, na sexta-feira, 13 de novembro, que o mundo acabará por haver mais pessoas do que alimentos, ou mais pessoas do que espaço habitável.

Texto editado por Dulce Neto