Pode um treinador acabado de chegar fazer um treino, ter uma conferência, fazer um jogo e ficar de imediato numa posição a prazo? Em condições normais, este seria um cenário impensável – a não ser que tivesse sido apresentado como técnico interino, algo que não aconteceu. No entanto, é neste contexto que Álvaro Arbeloa se encontra no Real Madrid, o clube com mais troféus europeus, o clube que para muitos é o maior do mundo mas o clube que, como diz a imprensa espanhola, se transformou numa “máquina de perder títulos”.
Arbeloa nasceu, cresceu e “acabou” em 90 minutos. Com algumas poupanças pelo meio depois da viagem até à Arábia Saudita para a Supertaça de Espanha, o Real Madrid via na Taça do Rei uma oportunidade de fazer um reset à conturbada semana que teve como principais pontos a derrota com o Barcelona e o despedimento de Xabi Alonso. Mais: jogava com uma formação da Segunda Liga, o que dava vantagem nesse objetivo de atingir os quartos da competição. No final, sobrou uma das maiores derrotas em termos históricos com um filme digno de lei de Murphy que ficou sentenciado no quarto minuto do período de compensação.
Com Courtois (que costuma dar o lugar a Lunin na Taça), Tchouameni, Álvaro Carreras, Jude Bellingham e Rodrygo de fora das opções em relação à última equipa inicial de Xabi Alonso, e com Camavinga a começar no banco, Arbeloa deu oportunidade a segundas linhas que já deram boas respostas este ano como Fran Garcia, Arda Güler ou Mastantuono. Ao intervalo estava empatado a um, com o canhoto argentino a marcar nos descontos, nos últimos dez minutos perdia por 2-1. A surpresa (ou escândalo) estava à vista mas Güler conseguiu encontrar Gonzalo García para o empate aos 90+1′, num cenário que levava tudo para decisão no prolongamento. Foi nesse momento que se viu na perfeição o momento que os merengues atravessam: num lance que parecia inofensivo depois de uma bola na profundidade, Jefté teve um remate contra Carvajal, recuperou a posse sem pressão e atirou em arco como se fosse um treino para o 3-2 aos 90+4′.
Simplesmente gol do JEFTÉ do Albacete aos 49 MINUTOS DO SEGUNDO TEMPO para ELIMINAR o REAL MADRID DA COPA DO REY
FUTEBOL.
— DataFut (@DataFutebol) January 14, 2026
Os jogadores do Real Madrid ficaram parados sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, Arbeloa já nada podia fazer para ficar na história como uma das piores estreias no comando do conjunto da capital espanhola. Ao mesmo tempo, no Twitch da Kings League, o antigo internacional e defesa do Barcelona, Gerard Piqué, que foi companheiro de seleção do agora técnico dos merengues, ironizava com o sucedido. “Boa estreia, 3-2”, comentou. As fissuras dos tempos mais bélicos entre o Barça de Pep Guardiola e o Real de José Mourinho não foram esquecidos apesar de ter passado mais de uma década. Até nos pormenores se percebe que, apesar das propostas de jogo “modernas”, Arbeloa ainda é muito ligado ao técnico português.
Oito meses depois, a bomba rebentou logo em janeiro: Xabi Alonso despedido do Real Madrid
Não foi o único comentário de elementos dos blaugrana após o descalabro do rival mas, nesta fase, o choque entronca sobretudo no plano interno. Mais: existe a perceção de que Arbeloa pode ser o menos culpado de tudo o que tem acontecido em contraponto com o papel dos jogadores, olhados como os principais culpados para mais um projeto falhado. A conquista da Liga ainda está em aberto tendo em conta a desvantagem de apenas quatro pontos para o líder Barcelona, na Champions depende de si para entrar de forma direta nos oitavos da competição mas os dois troféus que caíram em quatro dias são episódios de uma época que há muito não ia bem entre triunfos que surgiam como meros paliativos para algo que estava condenado.
Sunday: Lost the Spanish Supercopa final to Barcelona
Monday: Ended contract with Xabi Alonso and replaced him with Álvaro Arbeloa
Wednesday: Eliminated from Copa del Rey by Albacete who is 17th in the second division of Spanish football
What is happening to Real Madrid? ???? pic.twitter.com/v8r8fCrzsi
— ESPN FC (@ESPNFC) January 14, 2026
Os bastidores que foram aparecendo na comunicação social sobre a saída de Xabi Alonso, nomeadamente o dia em que perdeu a calma no balneário e acusou os jogadores pela sua conduta dizendo que não sabia que iria encontrar uma creche no Santiago Bernabéu, ajudam a explicar a era falhada depois de quatro anos com Ancelotti no comando – com essa “imagem” que sobrou do que se passou no relvado em Jedá depois da final da Supertaça de Espanha, com Mbappé a ter mais “autoridade” sobre os jogadores do que Xabi Alonso.
???? Xabi Alonso’s authority completely undermined by Kylian Mbappé last night. ????
He wanted the team to form a guard of honour for Barcelona, Mbappé refused and the players listened to Mbappé. ????
He had no choice but to leave after that. ???? pic.twitter.com/HXdHTLxAN7
— Transfer News Live (@DeadlineDayLive) January 12, 2026
Arbeloa estava há algum tempo sinalizado como possível sucessor do antigo companheiro de equipa no clube e na seleção, numa oportunidade a qual Raúl González quis deixar de esperar no último verão. A prioridade à posse, qualidade de jogo com bola e reação à perda que gostava de ver no jogo das suas equipas e as quatro referências assumidas de Rafa Benítez (pelo conceito tático), Manuel Pellegrini (pela mobilidade), Ancelotti (pela organização defensiva) e José Mourinho (pela liderança) pareciam ter convencido Florentino Pérez a dar essa chance. Na estreia, correu mal. Muito mal. E já se fala de sucessores no final da temporada.
“Não tenho medo do fracasso”, assumira antes da partida com o Albacete. “Se existe algum responsável ou culpado, sou eu. Fui eu que tomei as decisões da equipa inicial, da forma como queríamos jogar, das mexidas que fomos fazendo. Como disse na apresentação, não tenho medo do fracasso. Se alguém quiser classificar esta derrota como um fracasso, entendo perfeitamente. Já fracassei muitas vezes na vida, tive eliminações duras, até piores que esta. Aquilo que fui entendendo é que o fracasso está no caminho do êxito mas não em direções opostas”, disse após a derrota. “Batemos no fundo. Temos de fazer uma autocrítica individual e coletiva. Ainda vamos a tempo de dar a volta esta época. Não estamos no nosso melhor momento, temos de trabalhar muito mais. Não temos estado à altura das expetativas do clube”, resumiu o capitão Carvajal.
???????? Jürgen #Klopp is seriously considering a return as head coach should Real Madrid make a concrete move for the summer, as exclusively revealed.#RealMadrid have always fascinated him. He is happy at Red Bull and has a strong identification with the Red Bull project, but… pic.twitter.com/TDJ7OAiI84
— Florian Plettenberg (@Plettigoal) January 15, 2026
Ainda assim, este sinal terá feito com que Florentino Pérez acelere contactos que já estariam pensados. Não é pela derrota frente ao Albacete que Arbeloa vai cair (a não ser que continue o cataclismo atual…) mas estão a ser ponderados nomes que possam iniciar um novo período no comando do clube. Jürgen Klopp é um sonho antigo que tem andado entre o improvável e o impossível apesar de continuar sem um clube para treinar desde que deixou o Liverpool, tendo assumido funções como diretor global da Red Bull, mas deixou a porta um pouco mais aberta esta semana. Além do alemão, Mauricio Pochettino, que comanda nesta fase os EUA, já foi ponderado noutras ocasiões, Enzo Maresca, que foi campeão mundial pelo Chelsea mas está livre, e o próprio Zinedine Zidane, caso não rume no verão à seleção francesa, são nomes equacionados.