“Concluí esta etapa profissional que não correu como gostaria. Treinar o Real Madrid foi uma grande honra e responsabilidade. Agradeço ao clube, aos jogadores e, sobretudo, aos adeptos pela confiança e apoio. Saio com respeito, gratidão e com o orgulho de ter feito o melhor possível.”
Oito meses depois, a bomba rebentou logo em janeiro: Xabi Alonso despedido do Real Madrid
Em condições normais, esta seria uma mensagem deixada por Xabi Alonso após uma era de seis ou sete anos no Santiago Bernabéu. Porque era a next big thing dos bancos europeus depois de duas épocas que ficaram na história com o Bayer Leverkusen onde faltou apenas um título internacional. Porque era alguém que tinha perfeita consciência de tudo o que envolve um clube da dimensão dos merengues. Porque era uma figura há muito desejada pelos próprios responsáveis do clube a começar pelo próprio presidente, Florentino Pérez. Afinal, acabou por ser uma mensagem após seis/sete meses de comando do Real Madrid. Tudo porque o que era nunca chegou a ser – a nível de liderança, a nível de resultados e a nível de promessas não cumpridas.
É preciso recuar a 2018/19 para se encontrar uma temporada com mudança técnica no conjunto da capital espanhola a meio da época. É preciso recuar também a 2018/19 para se perceber como são tomadas decisões de risco por Florentino Pérez. Nesse verão, na antecâmara do Campeonato do Mundo da Rússia, o presidente dos merengues ganhou um problema com a saída do tricampeão europeu Zinedine Zidane e estava a ser alvo de forte pressão em torno do sucessor. Tanta que, ao contrário do que estava inicialmente apalavrado, lá deixou cair o nome do técnico escolhido: Julen Lopetegui. Ação contínua, Luis Rubiales, líder da Federação, decidiu rescindir de imediato com o selecionador por sentir-se “traído” e colocar Fernando Hierro como treinador interino nessa fase final do Mundial. Todos ficaram a perder, com Real Madrid incluído: essa escolha não correu bem, Santiago Solari entrou como substituto no final de outubro, Zidane foi “repescado” em março porque nada parecia correr bem. Sob pressão, o caminho de Florentino foi sempre o mesmo.
Zidane ficou até 2021, altura em que foi feita uma passagem tranquila para Carlo Ancelotti. Em 2025, esse era o cenário pretendido por todas as partes num cenário atípico em que Xabi Alonso fez toda a temporada no comando do Bayer Leverkusen mas acabou a dirigir o Real Madrid nos EUA em junho e julho, durante o Mundial de Clubes. Ganhou a fase de grupos com Al Hilal, Pachuca e Salzburgo, eliminou depois Juventus e B. Dortmund, caiu com estrondo nas meias-finais diante do campeão europeu PSG. Podia ter sido apenas um mau dia, foi o primeiro de vários dias maus. E se até ao final de setembro os merengues, mesmo com lesões à mistura, ganharam tudo o que havia para ganhar, a partir daí tudo foi desmoronando até à queda.
▲ Xabi Alonso regressou a Madrid, agora como técnico, após ganhar Campeonato, Taça e Supertaça pelo Bayer Leverkusen
Getty Images
Em apenas 232 dias, os traços quase de sebastianismo que construíam a aura de Xabi Alonso foram sofrendo sucessivas erosões até se esfumarem por completo. Mais do que o fim precoce de um projeto a médio/longo prazo, o Real Madrid assumiu também que está longe do rival Barcelona. E essa é uma ferida aberta.
Os primeiros sinais de que algo podia não estar bem chegaram com a primeira derrota da época, no dérbi no Metropolitano frente ao Atlético. Mais do que o pesado desaire por 5-2, aquilo que mais impacto causou foi a forma como a equipa não conseguiu respeitar os seus princípios de jogo. Não pressionou campo inteiro como tinha vindo a fazer, não foi tão reativo à perda, não manteve a solidez defensiva (consentindo mais golos em 90 minutos do que nos 630 anteriores). No entanto, a goleada no Cazaquistão frente ao Kairat com o festival do golo de Kylian Mbappé, os triunfos na Liga e a vitória na receção à Juventus recolocou a equipa na linha antes do clássico com o Barcelona. Aí, Xabi Alonso ganhou o jogo mas começou a perder o balneário.
A vencer por 2-1 ao intervalo, e num encontro em que conseguiu ser dominador e amarrar o Barcelona a um colete de forças que secava toda a criatividade do meio-campo para a frente, Xabi Alonso quis dar um outro músculo ao meio-campo nos últimos 20 minutos e trocou Vinícius Jr. por Carvajal puxando Fede Valverde para a sua posição de origem. A reação do brasileiro não foi a melhor. Longe disso. Protestou, verbalizou a insatisfação, não escondeu a revolta com a opção mesmo sabendo que tinha todos os olhares focados em si. Os cinco pontos de avanço com que o Real Madrid acabou a décima jornada da Liga traziam um presente envenenado que ninguém soube lidar da melhor forma em termos internos: a Direção não sancionou essa atitude do avançado, o treinador voltou a dar-lhe a titularidade no encontro seguinte com o Valencia (onde até falhou uma grande penalidade), o brasileiro não percebeu o que se passara, o plantel via na novela um sinal de fraqueza que foi potenciando outros focos de contestação. Era o início do fim num dia de “festa”, com uma quebra no balneário que nunca chegou propriamente a ser reparada por nenhuma parte.
▲ Substituição de Vinícius Jr. no clássico com o Barcelona, com reação de desagrado do brasileira, foi uma "derrota" dentro da vitória que reforçou então a liderança da Liga
OSCAR DEL POZO
A derrota na viagem a Anfield para defrontar um fragilizado Liverpool, naquele que era também o regresso a uma casa onde se sagrou campeão europeu em 2005 numa das finais mais épicas da Liga dos Campeões, deu início à pior série da temporada, com apenas duas vitórias até meio de dezembro entre três empates e outros tantos desaires. Nessa fase, tudo se alinhou para trazer para um plano principal as dificuldades que o Real Madrid enfrentava há muito mas que os resultados tinham tendência a secundarizar ou camuflar.
???????? NO HAY relación entre Xabi Alonso y Vinicius
????????️ VINICIUS le dijo a su representante la última semana de verano que se QUERÍA IR si Alonso no lo consideraba IMPRESCINDIBLE
❌ Si la situación se mantiene, NO renovará
????️ Informa @toniogarcia85 en #ElLarguero ???? pic.twitter.com/T1slavZdbz
— El Larguero (@ellarguero) October 27, 2025
Por um lado, e numa fase onde era necessária essa liderança em campo, Xabi Alonso esteve sempre refém da falta de um Xabi Alonso no centro do terreno. Kroos já tinha saído, Luka Modric também saiu (contra a vontade do treinador, que pediu a renovação do médio croata do AC Milan por mais um ano), nenhuma contratação conseguiu colmatar esse vazio apesar dessa possibilidade única de garantir Zubimendi antes de rumar ao Arsenal. Se Alexander-Arnold, Dean Huijsen e Álvaro Carreras foram mais valias para a defesa, se Franco Mastantuono permitiu fazer uma antecipação ao inevitável ataque dos grandes clubes da Europa ao canhoto argentino do River Plate, esse vazio de uma referência posicional no meio-campo teve impacto na forma de abordar as partidas quando mais era preciso até pelas constantes deslocações de Fede Valverde e Tchouameni para outras zonas do terreno mediante as necessidades da equipa entre lesões.
Por outro, a questão física. O nome de Antonio Pintus, antigo preparador físico com Zinedine Zidane e Carlo Ancelotti que foi colocado como uma espécie de supervisor com a entrada em cena de Xabi Alonso e toda a restante equipa técnica, era há algumas semanas falado em Valdebebas como a solução imediata para travar a onda de lesões e quebras físicas no plantel. Segundo a imprensa espanhola, por mais de uma vez foi colocada essa possibilidade ao treinador por parte dos responsáveis sem que tivesse existido uma resposta afirmativa. “Não fazemos um planeamento a pensar em picos ou altos e baixos, pensamos em estar ótimos durante toda a temporada. A questão das lesões faz com que as cargas sejam diferentes e que alguns jogadores estejam mais stressados com esse aspeto. O Pintus faz parte, existe uma colaboração muito boa”, comentara Xabi Alonso em Jedá, durante a Final Four da Supertaça da Espanha. No entanto, esse era outro dos grandes problemas, também pela exigência física que a ideia de jogo do técnico acabava por comportar.
▲ Antonio Pintus era muito "pedido" na equipa principal pela onda de lesões que afetava a equipa mas só regressou aos trabalhos no relvado... com Arbeloa no comando
Eurasia Sport Images
Por fim, o impacto de alguns momentos que acabaram por não ser levados como deveriam. A derrota com o Celta de Vigo no Santiago Bernabéu, com Fran Garcia, Álvaro Carreras e Endrick (que estava no banco) a serem expulsos no decorrer da segunda parte e com os adeptos à beira de um ataque de nervos pela falta de rendimento e pelas decisões de arbitragem, foi um exemplo paradigmático dos momentos limite que não tiveram intervenção de qualquer dos responsáveis, fosse Xabi Alonso, fosse a Direção, fosse Florentino Pérez. Aos poucos, os jogadores foram “desligando” do técnico, cresceu a saturação na relação e a quebra de minutos de jovens como Arda Güler ou Mastantuono também causou estranheza. A forma como o Real Madrid perdeu com o Manchester City, num desaire com números que Courtois evitou que “disparassem”, colocou o cenário de saída como uma mera questão de tempo e nem a série seguinte de vitórias apagou isso.
Aquela reunião de urgência no Santiago Bernabéu entre Florentino Pérez, José Ángel Sánchez e Juni Calafat que terminou com a decisão de manter a confiança em Xabi Alonso era apenas um adiar de algo que estava de vez quebrado perante a desconfiança reinante entre todos os intervenientes. A quebra, essa, chegou após a derrota na final da Supertaça de Espanha, na Arábia Saudita, com o Barcelona. Os catalães foram superiores em todos os capítulos do encontro, deixando outro sinal de que eram os favoritos à conquista da Liga numa realidade acima dos quatro pontos de avanço, mas houve outro episódio que fez precipitar tudo.
Quando Xabi Alonso, que se mostrara bem mais tenso na zona técnica frente ao Atl. Madrid e ao Barça do que nos encontros anteriores, pediu aos jogadores para fazerem o habitual pasillo aos vencedores da prova, Kylian Mbappé revelou-se contra e deu sinal aos companheiros para não terem a mesma atitude do que os adversários uns minutos antes, visivelmente agastado pela derrota e por lances de maior tensão nos minutos finais da partida. O plantel seguiu o avançado francês e não o treinador, o treinador sabia a partir desse momento que só tinha um caminho a seguir. Se a ideia de Florentino Pérez passava por avançar logo para uma mudança técnica, o próprio Xabi Alonso não revelou grande resistência assumindo o fim de linha.
???? Xabi Alonso’s authority completely undermined by Kylian Mbappé last night. ????
He wanted the team to form a guard of honour for Barcelona, Mbappé refused and the players listened to Mbappé. ????
He had no choice but to leave after that. ???? pic.twitter.com/HXdHTLxAN7
— Transfer News Live (@DeadlineDayLive) January 12, 2026
“Sinto um misto de emoções. Por um lado, a deceção de não ter conseguido ganhar este título. Por outro, o orgulho pela forma como a equipa deu a cara desde o primeiro ao último minuto. Não estamos contentes com o resultado mas acredito que podemos retirar coisas positivas. Ainda falta muito para jogar esta temporada”, comentou no final do encontro. No entanto, não eram mais do que palavras. E se alguns ainda tentavam olhar para uma perspetiva positiva da capacidade em equilibrar o duelo com o rival, Florentino Pérez fez imperar aquilo que tem sido um dos mandamentos da sua liderança: no Real Madrid não há vitórias morais ou derrotas com honra, há vitórias e derrotas. E esta foi “a” derrota que fez cair tudo, apesar desse “mútuo acordo” invocado no anúncio da rescisão de contrato que não terá sido assim tão “mútuo”.
▲ Derrota na final da Supertaça de Espanha frente ao Barcelona foi a última gota num copo que estava há muito a transbordar na Direção liderada por Florentino Pérez
Jose Breton
Uns minutos depois, a forma célere como foi confirmado o sucessor mostrou que era algo que estava já a ser ponderado: Álvaro Arbeloa, antigo companheiro e amigo de Xabi Alonso, subiu da equipa B à formação principal e foi de imediato chamado para o treino seguinte, ganhando uma oportunidade pela qual o ex-capitão Raúl González esperou anos a fio antes de sair no último verão. Após fazer cinco anos da formação e subir agora ao Castilla, o antigo lateral direito terá a oportunidade que o próprio Xabi Alonso já tinha visto de forma premonitória para implementar uma ideia de jogo assente em três pressupostos: prioridade à posse, qualidade de jogo com bola e reação à perda. Referências assumidas? O conceito tático de Rafa Benítez, a mobilidade de Pellegrini, a organização defensiva de Ancelotti e a liderança de… José Mourinho.
Já Xabi Alonso deverá agora entrar num período de reflexão, tendo em conta o tombo que deu no percurso profissional depois da passagem pelo Bayer Leverkusen onde montou a equipa revelação das últimas duas épocas com a conquista do Campeonato (o primeiro na história), da Taça e da Supertaça da Alemanha com a valorização de uma ideia de jogo ofensiva assente numa linha de três atrás que soltava os laterais para fazerem todo o corredor e dava asas à criatividade de elementos como Florian Wirtz, Jerémie Frimpong ou Álex Grimaldo para fazerem a diferença. Em Madrid, o projeto que idealizara acabou em 232 dias. Pelas lesões, pelas ausências, pela incapacidade de chegar a reforços cirúrgicos, pela falta de liderança. E esse foi mesmo o calcanhar de Aquiles de Xabi Alonso para que tudo começasse a ruir no Santiago Bernabéu.