Uma vitória por seis de Portugal frente à Roménia onde a margem acabou por não refletir na totalidade esse domínio completo do conjunto nacional, um triunfo por 12 da Dinamarca diante da Macedónia do Norte onde a margem também acabou por refletir na totalidade esse domínio completo da formação escandinava. O Campeonato da Europa de andebol começou com a lei do mais forte a imperar no grupo B, algo transversal a outros grupos mas com uma exceção na Alemanha, que baralhou as contas da poule A após perder frente à Sérvia antes de defrontar a Espanha. Este domingo, tudo podia ficar resolvido, com a Seleção a defrontar os macedónios depois da dupla vitória conseguida na qualificação para o Europeu de 2024 para confirmar esse ascendente teórico que poderia carimbar de imediato a passagem à segunda fase da prova.

Dois recordes, um susto e a goleada natural: Portugal vence Roménia no arranque do Europeu de andebol

“Em praticamente todas as bolas que recuperámos fizemos transição ofensiva, sempre. Foi um objetivo e uma forma de jogar que estabelecemos desde início, sobretudo quando nos vimos a ganhar por nove golos. Jogaram os 16 atletas, quatro que nunca tinham jogado fases finais, e estamos felizes. É um princípio de algo que pode vir a acontecer ou não, mas tenho boas sensações. O Pedro [Tonicher] esteve muito bem no Torneio Internacional de Espanha e acho que algum dia pode ter alguma oportunidade. Os guarda-redes mais experientes precisam de saber que contamos com eles a 100% e não podemos andar aqui a fazer muitas mudanças em cada jogo. Sabem que contamos com eles”, comentara Paulo Jorge Pereira, treinador principal de Portugal, depois da vitória frente à Roménia onde a Seleção conseguiu um recorde de golos em nove participações em Campeonatos da Europa não só ao intervalo (23) mas também no final do jogo (40).

“Penso que o jogo chave é o próximo com a Macedónia do Norte. Não por ser o próximo,mas por ser o que nos pode carimbar a passagem à main round. É um jogo muito difícil e a Macedónia preparou-se muito bem. É uma equipa experiente, muito combativa e que vai dar tudo contra nós. Sabemos que somos uma Seleção em crescendo e vamos melhorando de jogo para jogo em todas as competições. Preparámos muito bem este Europeu e temos ambições muito altas. Somos uma equipa que dá gosto ver jogar, com um andebol muito atrativo, fluido, muito rápido e moderno”, lançara agora o ponta Diogo Branquinho. “Nas nossas últimas competições Portugal tem vindo a mostrar muita qualidade e é considerado favorito muitas das vezes. Já olham para Portugal de outra forma e, contra a Macedónia do Norte, vamos entrar claramente como favoritos”, acrescentara o guarda-redes Gustavo Capdeville a propósito do encontro deste domingo.

Havia também caras conhecidas do outro lado. Se na Roménia estavam vários jogadores que são orientados por Paulo Jorge Pereira no Dínamo de Bucareste, a Macedónia do Norte contava com o experiente Nikola Mitrevski, guarda-redes de 40 anos que passou dois anos pelo Benfica e quatro pelo FC Porto antes de voltar ao seu país. No entanto, as dificuldades foram bem maiores do que contra os romenos, não só por todas as intervenções na baliza mas também pelo poder de fogo do lateral esquerdo Filip Kuzmanovski. E, com isso, Portugal terá de esperar pela última jornada para discutir o apuramento para a main round com as contas fáceis de fazer: terá de pontuar com a Dinamarca ou perder por uma margem inferior à diferença de golos da Macedónia do Norte após o jogo com a Roménia, num cenário que seria complicado de antever.

Com Victor Iturriza de início no processo ofensivo e Salvador Salvador, Miguel Neves e Luís Frade a serem opções na defesa, Portugal até entrou a ganhar numa saída rápida com assistência de Francisco Costa para Iturriza mas foi revelando dificuldades nos minutos iniciais entre o audível apoio dos adeptos macedónios em Herning. Por um lado, a defesa 5:1 que conseguia bloquear os movimentos de Rui Silva e dos irmãos Costa condicionava aquela que é a principal mais valia da Seleção. Por outro, a eficácia de remate da equipa da Macedónia do Norte com recuperação rápida atrás ia impedindo transições rápidas de Portugal. Contudo, e aproveitando a primeira exclusão do jogo, a Seleção recuperou de dois golos de desvantagem (4-2), esteve mesmo na frente nos 15 minutos iniciais (7-6) e viu Nikola Markovski ser expulso por conduta violenta num lance que foi revisto pelo VAR onde apanhou o defesa macedónio apanhou o pescoço de Francisco Costa.

Apesar de nova superioridade numérica, Portugal não conseguia “descolar” no marcador. Houve mérito da Macedónia do Norte, pela forma como condicionou o processo ofensivo nacional, mas houve mais demérito da Seleção, com mais falhas e erros técnicos do que é normal num cenário que nem mesmo com as paragens técnicas de Paulo Jorge Pereira foi invertido. Os minutos finais antes do intervalo tiveram outros “testes”, incluindo situações de 7×6 com Iturriza e Luís Frade como pivôs, terminando com a vantagem de dois golos no descanso (15-13) com seis golos de Filipe Kuzmanovski e quatro do inevitável Francisco Costa.

Paulo Jorge Pereira tinha muito para falar com os jogadores portugueses no balneário e os minutos iniciais tiveram reflexos positivos naquilo que foi a exibição nacional: a defesa melhorou muito, Gustavo Capdeville teve outra eficácia na baliza, o ataque mostrou mais argumentos, Francisco Costa “soltou-se” e um parcial de 4-1 a abrir nos cinco minutos iniciais permitiu que Portugal passasse a ter cinco golos para gerir de outra forma a segunda parte. “Não estamos a perder, estamos a ganhar. Passes arriscados para quê? O que é que estamos a fazer nas saídas rápidas?”, questionava o selecionador numa paragem técnica que visava dar outro controlo emocional à equipa para gerir de outra forma o avanço já com Diogo Valério na baliza (22-17).

A Macedónia do Norte também parou o encontro para retificar comportamentos defensivos, Portugal acusou essas alterações. Num ápice, os macedónios conseguiram reduzir a diferença para apenas dois golos com um parcial de 3-0 (22-20), reabrindo um encontro que parecia próximo de estar encerrado perante o “apagão” nacional sobretudo na defesa. Depois, Gustavo Capdeville voltou à baliza com uma grande defesa, Francisco Costa manteve a eficácia de 100% nos sete metros mas os erros continuaram a suceder-se, a ponto de terem deixado que tudo fosse para os cinco minutos finais com tudo empatado a 26 e com uma decisão com polémica à mistura num lance revertido pelo VAR que valeu um livre de sete metros para o 28-28 e uma exclusão de Luís Frade. Tudo ficou em aberto para o minuto final, em que Martim Costa e Leonel Fernandes não conseguiram bater Martin Tomovski (40% de eficácia) e o encontro acabou mesmo com um empate a 29 com 11 golos de Francisco Costa por Portugal e 15 de Filip Kuzmanovski, que acabou eleito como o MVP.