Certamente que os fãs norte-americanos da Fórmula 1 acolheram a notícia de que teriam a Cadillac e a Ford a competir na disciplina máxima do desporto automóvel em 2026 com um misto de orgulho e uma vontade louca de (finalmente) ver os “seus” construtores medir forças contra as grandes equipas de F1, como a Ferrari, Mercedes, Red Bull ou McLaren. Mas, até agora e a cerca de dois meses do arranque do campeonato, que se disputará de 8 de Março a 6 de Dezembro, não foram os motores que roncaram mais alto, mas sim as acusações e farpas que a Cadillac e a Ford têm atirado uma à outra.
A troca de galhardetes entre os dois construtores norte-americanos arrancou com a Cadillac a classificar a parceria da Ford com a Red Bull como uma mera operação de Marketing. A isto a Ford respondeu acusando a Cadillac, a equipa de F1 da General Motors (GM), de utilizar motores Ferrari e não os seus próprios, com a GM a anunciar que a partir de 2028 abandonará os motores italianos, trocando-os pelo seus.
Consciente de que o orçamento da GM para esta sua incursão pela F1 é muito superior ao da sua rival Ford, Dan Towriss, o CEO da TWG Motorsports, dona da equipa Cadillac F1 Team, afirmou que dos dois projectos de F1, “um é um acordo de marketing com pouco impacto”, referindo-se à Ford, enquanto “a GM é proprietária da equipa e está envolvida na engenharia desde o primeiro dia”. A resposta da oval azul surgiu pela voz do chairman Bill Ford, que declarou ter-se “fartado de rir” com as acusações da GM. “O contrário é que é verdade”, atirou, “pois eles não usam motores próprios e nem sei se há empregados da GM na equipa de competição”. E a esgrima argumentativa continuou com o chairman a realçar que a Ford podia ter “pago para afixar o logótipo no carro da Red Bull, mas a opção recaiu em criar a Red Bull Ford Powertrains, uma verdadeira parceria técnica que complementa o esforço audacioso da Red Bull para desenvolver a sua própria power unit”, ou seja, o conjunto formado pelo motor a combustão (o 1.6 V6 turbo), motor eléctrico e bateria. De recordar que, em 2026, os F1 vêem a potência do motor 1.6V6 turbo ser reduzida de 857 cv (630 kW) para 544 cv (400 kW), enquanto a MGU-H desaparece (a unidade que produzia energia a partir dos gases de escape) e a MGU-K (que regenera energia durante as travagens) incrementa a potência de 163 cv (120 kW) para 476 cv (350 kW), mantendo o total ligeiramente acima de 1000 cv, apesar da obrigatoriedade de utilizar gasolina sustentável.
A Cadillac entra este ano na F1 com o Cadillac Formula 1 Team, apoiada num forte investimento da GM, grupo em que está inserida. O motor é adquirido à Ferrari, na esperança de que a unidade motriz para 2026 seja mais competitiva do que a produzida pelos italianos desde 2014. A base da equipa é a Andretti Racing, que concebeu o chassi, com a grande contribuição da Cadillac para este projecto a consistir no… cheque.
Pelo seu lado, a Ford entra na F1 como fornecedora do motor à (provavelmente) melhor equipa da grelha, a Red Bull. Sucede que o 1.6 V6 da equipa é concebido e fabricado pela Red Bull Powertrains (RBPT) desde 2022, após a Honda se ter retirado como fornecedora da unidade motriz, mantendo contudo a marca japonesa como parceiro técnico, sobretudo na parte híbrida e de regeneração de energia. O CEO da Ford, Jim Farley, avançou que há quatro engenheiros seus na sede da Red Bull F1 Racing, em Milton Keynes, a trabalhar com os habituais mais de 50 colegas da RBPT, pelo que dificilmente a Ford pode dar um contributo significativo em termos tecnológicos. Mas o mesmo não acontece com o patrocínio pois, de acordo com a imprensa dos EUA, o construtor está a pagar “centenas de milhões” para ser um dos patrocinadores principais e parceiro técnico da Red Bull.
A edição de 2026 da F1 será dura e extensa, com os 24 grandes prémios a serem disputados por 11 teams (mais um que em 2025) a partilhar entre si cinco motores distintos, também aqui mais uma unidade motriz do que no ano anterior. Para complicar ainda mais a situação, este é também o ano em que se estreia uma nova regulamentação para os motores híbridos de F1, que substitui as motorizações que conhecemos desde 2014.