Três anos depois da chegada do primeiro navio da nova frota, a Transtejo pode finalmente contar com as 10 embarcações elétricas que comprou aos estaleiros Godán para a sua operação. Um dos últimos a ficar operacional foi, na verdade, o primeiro a chegar a águas portuguesas — o Cegonha Branca teve uma avaria que demorou dois anos a reparar.
Serviu de pretexto para finalmente celebrar uma renovação de frota que sofreu muitos atrasos e percalços — “por várias razões e ao longo do tempo nunca tivemos os dez navios operacionais”, admitiu o presidente da empresa. Rui Ribeiro Rei não descarta que ainda haja alguns problemas, mas garante que este ano a empresa reduziu em 90% as supressões e está a conseguir cumprir os horários.
Segundo a Transtejo, esta é a maior operação elétrica do mundo com este tipo de navios numa travessia fluvial. Não só pela dimensão de cada um — com capacidade para mais de 500 passageiros — mas também porque o estuário do Tejo apresenta adversidades mais próximas de um mar do que de um rio ou lago. O presidente da Transtejo destaca ainda a rapidez do carregamento, quatro vezes maior do que equipamentos que existem em terra. “É de facto uma operação diferenciadora” a nível mundial e europeu e “por isso tivemos algumas dificuldades”.
Chegaram, mas nem sempre carregam. Navios elétricos da Transtejo ainda estão por inaugurar
O principal obstáculo foram as falhas constantes do sistema de carregamento das baterias dos navios que obrigaram a reconfigurar a solução inicial com o reforço da ligação por banda larga e a instalação de sensores. Foi também necessário fazer um esforço na requalificação dos profissionais da empresa.
Apesar dos progressos e do investimento de 97 milhões de euros financiado com fundos públicos e europeus, a Transtejo ainda não se pode dar ao luxo de dispensar os navios a diesel. Atualmente são dez, tantos quanto os elétricos, e para já ainda são necessários para o reforço da oferta nas rotas já asseguradas e para assegurar as novas ligações como Almada-Algés e o Parque das Nações. O presidente da empresa diz que a Transtejo tem vindo a investir na manutenção desta frota, que tem sido usada também para cobrir eventuais indisponibilidades dos navios elétricos.
Em declarações aos jornalistas, Rui Ribeiro Rei indicou que vai apresentar até ao primeiro trimestre de 2027 uma proposta para tornar a frota totalmente elétrica. Os estudos que estão a ser feitos sobre a procura e a oferta entre as duas margens e na margem sul já permitiram concluir que as novas embarcações a adquirir serão mais pequenas, mais ágeis e com maior velocidade de ponta do que as atuais.
Com capacidade para 540 passageiros, dois salões, espaços exteriores e lugares para passageiros com mobilidade reduzida e transporte de bicicletas (pelo menos 20), os navios da frota elétrica foram batizados com os nomes de dez espécies de aves que podem ser encontradas no estuário do Tejo — a Cegonha-Branca, a Garça-Vermelha, o Flamingo-Rosa, o Íbis-Preto, a Tarambola-Dourada, o Milhafre-Preto, o Perna-Verde, a Alvéola-Amarela, a Trepadeira-Azul e o Peneireiro-Cinzento.
▲ Os 10 navios elétricos estão finalmente todos operacionais
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Durante a cerimónia, o presidente da Transtejo Soflusa disse que a empresa reduziu, desde novembro do ano passado, as supressões em mais de 90% e convidou os passageiros que optaram pela Fertagus durante a fase mais problemática da operação fluvial a voltarem a navios onde têm lugar sentado e acesso à rede Wi-Fi. Uma ideia também reforçada pelo ministro das Infraestruturas. “Hoje a Transtejo é fiável e é uma alternativa à Fertagus”, afirmou Pinto Luz sem deixar de assinalar que há um reforço das carruagens para circularem nesta linha ferroviária (vindas de Espanha) que aguardam homologação para entrarem em operação.
O aumento das supressões nas carreiras da Transtejo, em consequência das dificuldades no carregamento na nova frota elétrica, foi um dos motivos que levaram a uma maior procura dos serviços da Fertagus no ano passado, contribuindo para a degradação da qualidade desta operação. A principal causa foi, contudo, o aumento da oferta da frequência de comboios até Setúbal e a sua inclusão no programa do passe financiado pelo Estado — o PART.
Atualmente, os navios elétricos já asseguram a totalidade da operação no Seixal e em Cacilhas e fazem algumas carreiras do Montijo e do Barreiro. A Transtejo Soflusa está a testar uma nova ligação a Algés e pretende começar a ligar a margem-sul ao Parque das Nações, estando prevista a assinatura de um protocolo com a Câmara de Lisboa. Rui Ribeiro Rei não indicou data para o arranque desta nova ligação.