A Ford prepara-se para lançar um novo SUV compacto, um veículo que quer equipar com as chamadas mecânicas multienergia, ou seja, plataformas que podem acolher motores híbridos, com a unidade principal a combustão, ou motorizações 100% eléctricas. É uma forma de agradar a gregos e a troianos, continuando a comercializar modelos com o motor principal a gasolina, o que poderá realizar até 2035, para entretanto começar a satisfazer quem prefere um modelo eléctrico alimentado por bateria. E, para produzir este novo SUV compacto, maior do que o Puma (o seu EV mais pequeno, um B-SUV) e menor do que o Kuga (este apenas com mecânicas a combustão, mas um C-SUV), a Ford socorre-se da tecnologia de um construtor chinês.

A Ford desleixa a sua presença no mercado europeu desde há muito e continua fiel a esta estratégia. Trouxe dos EUA, mais precisamente do México, o Mustang EV, mas o resto da gama eléctrica nasceu da colaboração com a Volkswagen, a quem cedeu a base da pick-up Ranger para os alemães conceberem a nova Amarok, recebendo em troca a plataforma MEB que a VW utilizou para produzir os ID. 3, 4, 5 e 7. Já a Ford recorreu a esta base de chassis, motores e bateria para conceber os seus melhores eléctricos europeus, ou seja, o Explorer e o Capri, uma vez que o Puma Gen-E é de concepção própria.

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Agora a Ford volta a realizar um negócio similar ao que acordou com a VW, mas desta vez com os chineses da Geely, provavelmente o maior construtor privado do país comunista, que também controla quase 10% da Mercedes (onde é o segundo maior accionista), possuindo ainda 50% da Smart e 100% da Volvo, Polestar e Lotus, entre outras. O acordo entre o construtor americano e o chinês consistiu em o primeiro usar a plataforma GEA, além das mecânicas, para fabricar o novo SUV do segmento C, praticamente sem grandes investimentos. A verdade é que a Geely também tem muito a ganhar com o acordo, pois, para começar, consegue fintar as taxas impostas pela Europa aos carros eléctricos chineses, ao fabricá-los em Espanha, mais especificamente em Valência, na fábrica da Ford. É a compensação em forma da cedência da plataforma GEA, a mesma que a Geely utiliza no seu SUV EX5 e que, provavelmente, vai servir de base ao novo SUV da Ford. Sobretudo porque permite satisfazer as necessidades da marca norte-americana, que pretende uma base que lhe permita produzir um modelo que ofereça motorizações híbridas com a mesma facilidade que propõe versões 100% eléctricas.

O Puma Gen-E é o eléctrico mais pequeno e acessível da Ford, que também oferece versões a combustão, um pouco à semelhança do novo SUV compacto

Tendo em conta tudo isto, parece que a Ford conseguiu resolver um pequeno problema, enquanto a Geely conseguiu contornar um problema enorme. É que além de fabricar o EX5 em Valência, a marca chinesa vai aí produzir outros modelos em que necessita de ser competitiva e este acordo com a Ford evita que tenha que pagar 28,8% de taxas em todos os veículos que produza na fábrica espanhola (e vão ser vários). Para a Geely, é só vantagens nesta joint-venture relativa à fábrica espanhola, pese embora a Ford detenha 66% e os chineses 34%. Já a Ford vai ter de lidar (muito em breve) com mais um adversário de respeito, cujos modelos passam a ser muito mais competitivos.