Imagine uma figura moldada em 1906, que pelos oito anos já aprendera a trabalhar o barro como o pai. José Maria Rodrigues far-se-ia mestre a partir de Ribolhos, localidade onde nasceu, no concelho de Castro Daire, mas não sem antes ter sido pedreiro e alfaiate. Aos 25 já estava casado, aos 27 tinha oficina própria. Das seis raparigas e dois rapazes que pôs no mundo, nenhum quis seguir idêntico caminho. Se a biografia vem de um tempo tão peculiar quanto longínquo, talvez a sua produção seja mais apetecível do que nunca.
“Há um entusiasmo hoje que até tem a ver com esta história da Inteligência Artificial. As pessoas acabam por ganhar interesse pelas coisas mais rudimentares e elementares. Dou aulas e sinto muito isso, os meus alunos interessam-se cada vez mais por meios antigos, formas artesanais, muito mais do que se lhes mostrar uma ferramenta de IA.”, confessa Luís Alegre, editor da Stolen Books. “Também há uma certa tendência para procurar hoje artistas outsiders, ingénuos, com um gesto mais primitivo. E depois encontrar esta singularidade. Ele tem uma gramática visual muito original. Parece que andou por museus a ver coisas mas e calhar nunca saiu da terra dele.”, sublinha.
Em parceria com a P28 – Associação para o Desenvolvimento Criativo e Artístico, acaba de publicar “Resgate”, o livro que aborda a vida e obra do Mestre Zé Maria, oleiro de profissão e uma das grandes referências da arte popular em Portugal. A edição surge no seguimento da exposição com o mesmo nome que esteve patente em 2025 na Galeria do Pavilhão 31 (Hospital Júlio de Matos, Lisboa) e que colocou frente a frente dois artistas de tempos e realidades diferentes: Zé Maria e Anabela Soares, artista do atelier da P28 e membro do coletivo Manicómio, um projeto com curadoria de Luís Alegre. “Era uma coisa que já estava pensada. Nasce do conhecimento da obra do mestre José Maria e de uma grande colecionadora da sua obra, a Alexandra Ribeiro Simões. O mestre referia muita vezes, em testemunhos que deu, que regatava as obras ele. Cozia as obras num forno de chão, numa soenga que tinha à porta de casa, um buraco de 1,5 m por 2 palmos de altura, onde entram as peças de barro, depois leva, camadas de arbusto e aquilo fica ali a cozer. Daí darem origem a um barro preto, escurecido.”
© Stolen Books
Nas páginas, o destaque vai para o tal amplo acervo, todas peças cedidas pela coleção privada de Alexandra Ribeiro Simões. Farmacêutica e ávida colecionadora de arte popular, natural de Viseu, teve o primeiro contacto com o artista quando ainda era criança e visitava feiras com o pai. Além de ir aumentando esta montra, vai dinamizando páginas como Olaria e figurado português, e boa parte da sua coleção foi emprestada ao Museu de Olaria de Barcelos, em 2022, para uma mostra dedicada a José Maria Rodrigues e a Joaquim Alvelos. A edição Stolen Books Livro conta com figuras que pertencem ao acervo particular de Alexandra e inclui ainda desenhos do Museu Municipal do Castro Daire. Existem algumas figuras e louça de barro negro do criador de Ribolhos naquele museu, e e na casa da Ribeira em Viseu, mas a maior parte das obras estão em coleções particulares.
“Da exposição nasceu a ideia de publicar o livro porque não havia nenhuma monografia da sua obra. O mestre Zé Maria já tem um certo reconhecimento no meio. Até já é difícil comprar peças dele porque não tem obra muito extensa e já atinge valores elevados.”, destaca Luís Alegre.
O artista começou por produzir objetos domésticos utilitários, artefactos tradicionais como práticos tachos e alguidares, mas a introdução de novos materiais como o plástico revolucionou os hábitos de consumo e a certo ponto ditou uma nova via perante o trabalho na roda, entretanto obsoleto. Zé Maria passou a dedicar-se à construção de figuras inspiradas no quotidiano da Serra de Montemuro, sobretudo a partir do final dos anos 70.
“Ele começa a fazer bonecos, músicos, mulheres da aldeia, figurado rural e não rural, como o Tintim. Coisas ingénuas mas ao mesmo tempo muito interessantes. Um dos pormenores curiosos é o facto de usar uma caneta Bic para trabalhar o barro, para desenhar os sulcos, quer com a ponta quer com a tampa.”, detalha o editor.
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Outro pormenor curioso, e que também surge no livro “Resgate”, são os desenhos feitos pelo mestre. Zé Maria atirava-se aos bonecos sem esboço prévio, fazendo aquilo que lhe vinha à cabeça, mas perante o aumento de pedidos de clientes, começou a desenhar à posteriori, como forma de ter um catálogo. Uma criação tão útil como desarmantemente inocente. “Estão legendados. Num dele em vez de escrever vaca escrevia “baca”, já que era quase analfabeto. São também obras raras dele, neste caso o mostruário que tinha a porta da olaria.”
Circunscrito ao domínio da arte popular, de uma criação mais bruta, talvez não tenha saltado em pleno para o mainstream, mas alguns contributos foram também decisivos para o resgatar a ele. Artista plástico, galerista, e fundador do Centro Português de Serigrafia, em 1985, Carlos Barroco (1946-2015) participou na Europalia, onde mostrou a cultura portuguesa. Figura chave na divulgação da arte contemporânea portuguesa e editor de obras de artistas nacionais e estrangeiros, foi um dos nomes que deu a conhecer a produção de mestre Zé Maria. Outro contributo relevante foi o livro The Hard Life, do designer Jasper Morrison (n.1959), um trabalho fotográfico realizado no Museu de Etnologia de Lisboa que importou para as suas páginas uma obra do oleiro português.
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“Valorizo muito a obra de artistas que possam até não ter uma grande consciência estética sobre o seu próprio trabalho mas que na verdade brota deles uma criação. Como trabalho muitas vezes com artistas com doença mental, vejo como aquilo está lá, inato. Eles não sabem explicar muitas vezes o que estão a produzir mas têm uma capacidade política e de emocionar enormes. Ninguém tinha feito um figurado parecido com o do Zé Maria.”, aponta Luís Alegre. “Devíamos começar a reparar mais na obra e não em quem faz a obra, como friso no meu texto. É verdade que os artistas importam, quem são, como são, mas a obra interessa-me mais. Vale por si. Se depois nos deixamos contaminar pelo discurso teórico ou não teórico do artista, pela ética ou falta dela, enfim.”
Mas o facto é que a narrativa de vida do artista neste caso reforça o interesse pelo homem que morreu em 1999, aos 93 anos. “Resgate” viaja agora por representações de homens, mulheres e bichos, um percurso de braço dado com a tradição e a natureza. Ao longo de 160 páginas, a obra (39,90 euros), cuja execução foi apoiada pela Direção-Geral das Artes, conta com ensaios visuais dos artistas contemporâneos Daniel Moreira e Rita Castro Neves, que vão criando uma diálogo com as esculturas do livro. Pedro Loureiro, Carlos Barroco e António Azevedo assinam as fotografias e os textos ficam a cargo de Isabel Maria Fernandes, Alexandra Ribeiro Simões, Alberto Correia, Alice Geirinhas, Luís Alegre, Paulo Pires do Vale, Marta Carvalhal e Luís Costa.
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O livro é lançado oficialmente este mês, em dois momentos distintos: esta sexta-feira, 23 de janeiro, no Museu de Etnologia (Lisboa) e no domingo, dia 25 de janeiro, na Oficina do Barro Negro (Ribolhos). Para os fãs deste tipo de conteúdos, e para mais uma viagem afastada do ritmo da cidade grande, vale a pena recuperar a obra iconográfica que a Stolen Books dedicou em 2024 a Catarina Eufémia, da arma que a matou às mulheres do campo dos nossos dias. Ainda pelo Alentejo, as novidades do catálogo trazem uma edição dedicada a Serpa, para uma história da região que entrelaça linguagem contemporânea e histórias do passado, pelo jornalista Paulo Barriga e pelo fotógrafo Pedro Loureiro.