Depois da festa, aquela mais do que merecida festa, um treino de recuperação, a preparação tática para um novo duelo e o arranque de nova fase do Campeonato da Europa. Uma fase que, em uníssono, todos frisavam ser diferente do que se tem visto. “Vai ser provavelmente a ronda principal mais difícil desde há muitos anos, um autêntico grupo da morte. Promete clássicos de Hitchcock de dois em dois dias”, dizia Benjamin Chatton, chefe da delegação da Alemanha na prova. Os dois primeiros classificados dos grupos A, B e C iam agora ter uma espécie de mini campeonato entre si com encontros que poderiam ser uma qualquer decisão de uma grande prova internacional. Lá pelo meio, Portugal aparecia com a vantagem de começar com dois pontos na sequência da histórica vitória frente à Dinamarca. E o primeiro adversário era também um dos líderes do grupo I da main round, a Alemanha, que antes vencera a Espanha como “resposta” ao inesperado deslize com a Sérvia que teve o condão de baralhar as contas da poule A até aos jogos da última jornada.

Portugal estava qualificado mas quis mais. Quis tanto que fez seu o reino da Dinamarca e bateu a tetracampeã mundial

“A Alemanha tem atletas de eleição e a maior parte a jogar no melhor campeonato do mundo, a Bundesliga. Eles são melhores no ataque e na transição do que na defesa. Temos aí algo que podemos explorar e vamos tratar de fazer bem essas fases do jogo, sobretudo a recuperação defensiva e essas trocas”, admitira Paulo Jorge Pereira, selecionador nacional que continuava a tirar frutos de um trabalho semeado ao longo da última década na equipa A mas também na formação de Portugal que colocou os Heróis do Mar como uma “confirmação” nas grandes competições internacionais. “Tiveram um desempenho impressionante, que parece querer realçar mais uma vez a qualidade do ano passado. É certamente um resultado surpreendente para todos os envolvidos”, referira Chatton no rescaldo do triunfo português frente à Dinamarca por 31-29.

“Ser menos efusivos nas vitórias e menos derrotistas”: o que se segue para Portugal no Europeu após a histórica vitória frente à Dinamarca

Motivação não faltava, energia também não (apesar do desgaste sofrido na partida frente aos escandinavos), ambição ainda menos tendo em conta por exemplo o que se passou no ano passado, quando Portugal teve uma outra vitória épica nos quartos do Mundial diante dos germânicos com um golo de Martim Costa nos segundos finais do prolongamento. No entanto, nem tudo corria da melhor forma à Seleção na antecâmara do arranque da segunda fase da prova, que continuava a ser jogada na Jyske Bank Boxen, em Herning.

Não há Wolff que pare uma alcateia histórica: Portugal vence Alemanha após prolongamento e está nas meias-finais do Mundial

Por um lado, os horários que “tocaram” à Seleção nesta main round apesar de ter passado como primeiro do grupo B, com todos os encontros jogados às 15h30 dinamarquesas (menos uma em Portugal). “Temos de nos manter tranquilos e continuar a trabalhar como temos vindo a fazer até aqui nestes anos todos. Acho que temos de ser menos efusivos nas vitórias e menos derrotistas. Temos de estar ali naquela linha que nos permite continuar no dia seguinte. Isto é uma hora muito má. É uma das coisas que esta organização não tem estado bem… Colocam os almoços às 11h30 e no dia seguinte às 15h30. Há horários de treino que, às vezes, são antes do almoço e outros com pequeno-almoço às 8h30. São dinamarqueses, não é? Há uma certa rigidez, altera muito o biorritmo das pessoas e pode não ser bom”, lamentou Paulo Pereira.

Por outro, o castigo de um jogo aplicado a Victor Iturriza no seguimento da desqualificação direta que teve na partida com a Dinamarca por aquilo que foi considerado pela EHF como “ação extremamente imprudente e perigosa”. “A Federação de Andebol exige respeito pelo trabalho que tem desenvolvido, quer no campo e desportivamente pela Seleção, quer fora de campo, em prol do desenvolvimento da modalidade e baseado em princípios que são universais, como o da igualdade de tratamento em casos idênticos e de utilização de critérios semelhantes para situações iguais. Foi feita a exposição formal ao presidente da EHF a quem manifestámos profunda preocupação relativamente à forma como se têm verificado situações factuais e objetivas de decisões, quer dos árbitros, quer de apreciação disciplinar subsequente”, anunciou a FPA.

Era assim neste contexto que chegava o encontro inaugural do grupo I da main round frente à Alemanha, a quem Portugal ganhara nos quartos do último Mundial após prolongamento (31-30) e com quem Portugal perdera na atual saga dos Heróis do Mar iniciada no Europeu de 2020 na disputa do quinto lugar (29-27). Agora, num encontro marcado pelo equilíbrio, foram os germânicos que levaram a melhor, isolando-se na liderança do grupo I com quatro pontos. Já a Seleção, mesmo com este desaire, mantém intactas as esperanças de chegar ao top 5 da prova, tendo para isso de ganhar pelo menos dois dos três últimos jogos.

O encontro começou com a primeira surpresa nas opções de Paulo Jorge Pereira, com Gabriel Cavalcanti a ser titular na defesa que fazia três trocas para preservar a primeira linha com os irmãos Costa e Rui Silva no ataque. Minutos iniciais, objetivos cumpridos. Por um lado, o 6:0 defensivo teve um bloco e três defesas de Gustavo Capdeville que criavam a dúvida no ataque germânico. Por outro, a paciência de Portugal no ataque até encontrar o espaço defensivo em aberto dava resultados, com uma vantagem inicial de 3-1 com dois golos de Francisco Costa nos seis minutos iniciais antes do 3-2 num livre de sete metros. Os dez primeiros minutos fechavam com Portugal na frente por 5-4, com o pivô Johannes Golla a ser a grande dor de cabeça da equipa inicial além das defesas de Andreas Wolff, um dos melhores guarda-redes do mundo que chegava aos 40% de eficácia contra… 57% de Capdeville, com uma entrada soberba a defender quatro de sete remates.

Alfred Gislason parava o jogo com a primeira pausa técnica, rodava jogadores na primeira linha em ataque mas nem por isso o encontro mudava de cariz com essa nuance de aparecer o melhor de Portugal quando a vantagem era de um golo mas algumas falhas técnicas quando podia chegar aos três de avanço. Mais: até em pormenores se via a evolução dos Heróis do Mar no “jogo”, com a primeira exclusão da partida para Salvador Salvador a ser bem “contornada” com um ataque mais demorado e uma recuperação defensiva no passe para o pivô. Ainda assim, eram os guarda-redes que assumiam o protagonismo, o que explicava o 8-8 a menos de oito minutos do final depois de um sete metros muito duvidoso de Nils Lichtlein. Miguel Neves foi excluído nesse momento, com os germânicos a passarem para a frente aproveitando uma fase mais difícil no ataque nacional que entretanto já tinha Ricardo Brandão, João Gomes e Filipe Monteiro no ataque (10-8). Portugal esteve nove minutos sem conseguir marcar até António Areia furar o bloqueio, com o intervalo a chegar com uma igualdade a 11 com Capdeville nos 36% de eficácia na baliza contra 44% de Wolff.

Apesar dessa grande exibição defensiva contra uma das melhores equipas a atacar do mundo, esse hiato sem golos em quase um terço da primeira parte fazia com que Portugal começasse numa “estaca zero” o segundo tempo. Mais uma vez, imperou a “irregularidade”: a Seleção teve dois golos de vantagem com uma situação de 1×0 falhada por Leonel Fernandes, a Alemanha reagiu com um parcial de 3-0 tendo Miro Schluroff como destaque na primeira linha, o comando ofensivo de Rui Silva voltou a serenar os ânimos numa fase de maior pressão sobre os irmãos Costa para o empate a 17 aos 40′, quando Gabriel Cavalcanti foi excluído por dois minutos depois de uma precipitação na disputa de bola com Golla. Era altura de Pedro Tonicher entrar para a baliza, com uma defesa logo a abrir antes de Paulo Jorge Pereira parar o jogo para preparar o 7×6.

A superioridade numérica fez-se sentir no ataque, a eficácia não apareceu como se pretendia com um remate de Leonel Fernandes, nem assim Portugal desligou por completo da partida apesar dos dois golos de atraso a 12 minutos do final depois de nova falha técnica no ataque (24-22). A tensão começava a ser mais notória, com vários lances de revisão VAR para os árbitros por ações defensivas mais duras que levaram à expulsão de Golla por um toque na cara de Francisco Costa já sem bola, a equipa germânica ia conseguindo sempre fintar as dificuldades com golos em momentos cirúrgicos que impediam que a Seleção voltasse a igualar as contas com os cinco minutos finais a chegarem com 26-25, numa vantagem que apesar da tentativa de recuperação foi esbarrando em Andreas Wolff e nas novas combinações ofensivas dos germânicos que conseguiram superiorizar-se a uma defesa nacional já desgastada para fecharem o triunfo com 32-30.