“Calma, calma, calma…”. A excitação junto do banco português era indisfarçável. A meio da primeira parte, todos achavam que a Dinamarca estaria na frente ao intervalo. Ao intervalo, a perder por um e com apenas 11 golos marcados, todos achavam que a Dinamarca daria rapidamente a volta. A meio da segunda parte, depois de uma vantagem de dois golos entretanto anulado, todos achavam que a Dinamarca tinha reservado o seu melhor para o final. Ali, naquela paragem, o todos passara para alguns – e entre os alguns quase ninguém podia estar convicto. Porquê? Porque ao longo de 60 minutos Portugal acreditou que os achismos não eram mais do que projeções na teoria. Faltava um pequeno passo para festejar aquela que poderia ser uma das maiores vitórias de sempre do andebol nacional. “Calma, ainda há muito jogo…”, dizia o selecionador.

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Paulo Jorge Pereira arrefecia a excitação natural mas percebia também que era complicado puxar todos os jogadores à terra perante a iminência de um feito histórico. “Ouve, ouve… Ouve car****!”, gritou o técnico a certa altura, vendo que os jogadores continuavam a falar sobre si meio de cabeça no ar com o tinham na mão. “Não temos de fazer nada de especial, é só jogar sem bola”, apontou já num tom de voz mais calmo perante a atenção que entretanto ganhara de todos os atletas. Se a ideia passava por segurar a vantagem, a equipa deu o passo em frente e ainda marcou nos derradeiros segundos por Martim Costa num remate de anca que voltou a deixar Emil Nielsen sem reação antes de Pedro Tonicher sofrer o 31-29 a seis segundos do final. Ponto curioso? Paulo Pereira acabou a esbracejar para haver uma rápida reposição que permitisse mais um golo em cima da buzina. Não deu. E enquanto os Heróis do Mar estavam aos saltos no início de todos os festejos em Herning, o capitão Rui Silva abraçava o selecionador num sinal de “missão cumprida”.

O central juntou-se depois aos companheiros, Paulo Jorge Pereira, já de sorriso rasgado, ficou para trás e até pediu desculpa por aquele momento antes de cumprimentar o homólogo da Dinamarca, Nikolaj Jacobsen. O caminho feito pelos Heróis do Mar no andebol internacional desde 2020 teve momentos épicos que muitos consideravam ser impossível de repetir. Como aquela vitória frente à França no torneio pré-olímpico de 2021 com um golo de Rui Silva nos segundos finais que valeu a primeira participação de sempre nos Jogos. Como aquele triunfo diante da Alemanha no Mundial do ano passado com um golo de Martim Costa nos segundos finais do prolongamento que valeu pela primeira vez a presença nas meias-finais da competição. Eles acreditaram, eles voltaram a ter o seu “momento” na sequência do deslize (sem efeitos práticos, acrescente-se) diante da Macedónia do Norte. E a partir de agora, que outro momento pode estar guardado?

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“Esta vitória vai ficar na minha memória para sempre. Agora há mais coisas que temos de fazer e não adianta ficarmos demasiado felizes quando temos um jogo para fazer daqui a 48 horas. Acho muito importante para Portugal termos feito este jogo como fizemos e a forma como lutámos. Portugal tem de estar orgulhoso das pessoas que estão aqui a representar o País e eu sou o primeiro a ficar orgulhoso. Eu apenas os ajudei, estamos imensamente felizes com este resultado. Entrada do [Pedro] Tonicher? Foi espectacular, entrou ali no momento e sacou duas bolas ao Gidsel. Foi uma coisa fantástica e agora ele terá oportunidades mais vezes. O Filipe [Monteiro] já esteve na convocatória mas o Rui fez um ‘jogaço’ à Rui Silva e os manos Costa de um lado e do outro são uma coisa brutal…”, apontou o selecionador depois da primeira vitória de sempre de Portugal frente à Dinamarca, que “vingou”, por exemplo”, a derrota nas meias do último Mundial.

“A haver erro é o deslumbramento. Agora ficámos todos deslumbrados por termos feito uma coisa que é quase impossível mas fizemos. Temos de nos manter tranquilos e continuar a trabalhar como temos vindo a fazer até aqui nestes anos todos. Acho que temos de ser menos efusivos nas vitórias e menos derrotistas. Temos de estar ali naquela linha que nos permite continuar no dia seguinte”, acrescentou à agência Lusa, antes de deixar uma crítica à organização pelo horário do arranque da main round frente à Alemanha, às 15h30 desta quinta-feira (menos uma em Portugal). “É uma hora muito má. É uma das coisas que esta organização não tem estado bem… Colocam os almoços às 11h30 e no dia seguinte às 15h30. Há horários de treino que, às vezes, são antes do almoço e outros com pequeno-almoço às 8h30. São dinamarqueses, não é? Há uma certa rigidez, altera muito o biorritmo das pessoas e pode não ser bom”, apontou Paulo Pereira.

A Alemanha tem atletas de eleição e a maior parte a jogar no melhor Campeonato do mundo, a Bundesliga. Eles são melhores no ataque e na transição do que na defesa. Temos aí algo que podemos explorar e vamos tratar de fazer bem essas fases do jogo, sobretudo a recuperação defensiva e essas trocas”, comentou na projeção do primeiro adversário na ronda seguinte.

Entre os atletas, o momento era de festa. Grande festa, festa entre todos, festa com os adeptos portugueses presentes em Herning que representaram milhares e milhares que acompanharam o jogo à distância. “Só veio a confirmar aquilo que tenho vindo a dizer, que podemos competir contra qualquer seleção. Se não conseguirmos estar concentrados, pode acontecer empates como aconteceu com a Macedónia do Norte. Não tinha sonhado com este resultado mas tinha vindo a dizer à malta… O [Luís] Frade também dizia em tom de brincadeira que estava com feeling que podia dar para nós… Disse no início do Europeu que isto tresandava a vitória portuguesa por terras dinamarquesas. É uma expressão um bocadinho labrega, mas é a realidade…”, comentou Salvador Salvador, um dos pilares da equipa no plano defensivo que terá uma importância redobrada frente à Alemanha com o castigo de um jogo a Victor Iturriza pelo vermelho.

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“Posso ter marcado golos importantes mas é preciso um grupo com uma união diferente da do costume. Um orgulho muito grande deste grupo de trabalho, de ser português e de ver as bancadas com bandeiras portuguesas. Chegámos aqui, estávamos numa situação muito humilde e delicada. Acho que a humildade com que chegámos vai ter de ser a humildade com que saímos daqui. Vem aí uma main round muito dura, com equipas de alto nível. São quatro jogos de alta intensidade, de alto nível e do nosso nível também, porque sinto que podemos jogar ao nível deles também. Nunca fomos campeões europeus, é um facto. Estamos disputar os lugares de elite e vamos à procura do melhor lugar possível”, reforçou o ponta António Areia, que marcou seis golos (dois fundamentais na parte final) no triunfo com a Dinamarca.

Próximo objetivo? Continuar a fintar a história… agarrando nos exemplos recentes para acreditar que não é impossível. A Alemanha, que chega à main round com dois pontos tal como Portugal, é o primeiro opositor esta quinta-feira. O histórico cai para os germânicos de forma clara mas, no último encontro oficial, a contar para os quartos do Mundial, a Seleção ganhou. Segue-se a França, que também tem dois pontos e também tem um histórico favorável reforçado pelo triunfo no jogo de atribuição do terceiro lugar do último Mundial, mas a quem Portugal venceu no Europeu de 2020 e no torneio de qualificação olímpica em 2021. A segunda fase encerra depois com Noruega e Espanha, outras formações contam com mais triunfos nos confrontos com a Seleção mas que perderam nos últimos duelos em Europeus e Mundiais.

Quantos pontos serão necessários para garantir a passagem? Fazer mais de sete pontos na main round carimba o acesso às meias-finais, fazer sete pontos muito provavelmente também valerá a qualificação, a partir daí… depende. Porquê? Um exemplo prático, que veio do Europeu de 2020: o grupo I teve a Alemanha com seis pontos a ser relegada para o encontro pelo quinto lugar (com Portugal), o grupo II teve a Eslovénia com seis pontos a seguir para as meias-finais num grupo onde a Noruega ganhou todas as partidas. Mais recentemente, na última edição do Campeonato da Europa, a Alemanha passou às meias-finais em segundo do grupo I com apenas cinco pontos mas a Eslovénia fez seis pontos e falhou essa passagem pelo desempate entre os golos marcados e sofridos que beneficiou a Suécia. Conclusão? Com três vitórias em quatro jogos a missão fica cumprida mas mesmo duas derrotas a abrir não acabam por completo com a esperança nacional.

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Em paralelo, continua o autêntico festival dos irmãos Costa na Dinamarca. No primeiro encontro frente à Roménia, Martim, o mais velho (23 anos), superou o registo do pai e treinador no Sporting, Ricardo, ficando como o terceiro melhor marcador português de sempre em Campeonatos da Europa. No conjunto das três partidas da primeira fase, com Roménia, Macedónia do Norte e Dinamarca, Francisco, o mais novo (20 anos, fazendo os 21 em fevereiro), é o melhor marcador da competição com 29 golos, mais um do que o macedónio Filip Kuzmanovic e mais dois do que Elias Skipagötu, das Ilhas Faroé. Já Martim Costa segue nessa lista na 14.ª posição, com 18 golos. Nota de destaque também para Gustavo Capdeville, guarda-redes português que, com uma eficácia de 27,17%, é o oitavo com mais defesas até ao momento (25) num ranking que é liderado nesta fase pelo norueguês Torbjörn Bergerud (34, com 34,69% de eficácia).