Em outubro de 2024, Miguel Arruda, então deputado do Chega, marcou presença num almoço de convívio do Grupo 1143, realizado no Porto, revelou o Expresso. Mas fê-lo de forma discreta: usava um passa-montanhas que lhe tapava a cara para não ser reconhecido. Longe da fama que lhe foi conferida pelo escândalo de roubo de malas no aeroporto, o açoriano já era um defensor de Mário Machado, neonazi que liderava o movimento radical a partir da prisão.
“Eu pertenço ao Mário”, chegou a dizer o político acusado pelo Ministério Público (MP) de 21 crimes de furto qualificado. Até nas redes sociais chegou a identificar Elon Musk para alertar para a existência de um “preso político” em Portugal. Mas a relação entre os dois era mais profunda, e duradoura: partilharam advogado (José Manuel Castro) e uma “admiração” (António de Oliveira Salazar). Em fevereiro, o deputado foi acusado de votar a fazer uma saudação nazi.
Depois de Miguel Arruda ter passado a deputado não-inscrito na Assembleia da República, chegou a surgir o rumor de que iria contratar Mário Machado para o seu gabinete próprio, o que acabou por ser desmentido pelo neonazi. “Não faz sentido absolutamente nenhum. (…) A questão não se pôs nem eu aceitava que alguém do grupo fosse para a Assembleia da República. (…) Colocar alguém na Assembleia da República como assessor de um deputado que está a ser acusado desses crimes não faz sentido nenhum”, disse ao Observador.
Enquanto deputado do Chega, chegou a ser criticado por colegas de bancada por usar t-shirts do grupo 1143 e por algumas publicações nas redes sociais. Segundo o Expresso, a aproximação entre Mário Machado e Miguel Arruda tinha uma intenção: aliciar mais membros do partido de André Ventura e ganhar mediatismo, com essa presença no Parlamento, como movimento extremista. O Expresso adianta que há cerca de dez militantes do Chega ligados aos líderes do 1143 — nas redes sociais o grupo apelava ao voto em Ventura e Mário Machado nunca escondeu a admiração pelas “ideias” do político.
No entanto, como já foi noticiado, a relação entre o Chega e o 1143 não se restringe ao antigo deputado (que foi afastado do partido depois do escândalo de roubo em que se viu envolvido). Entre os 37 detidos e os 15 arguidos da Operação Irmandade, há pelo menos cinco militantes do Chega: Rui Roque — autor de uma petição para retirar ovários a mulheres que quisessem abortar no SNS; João Peixoto — antigo vice-presidente da concelhia de Guimarães; Ana Rita Castro — que chegou a ser candidata autárquica; e André Caeiro — que chegou a pertencer ao PNR. O quinto militante, revelou o Público, é o único agente da PSP que se encontra entre as dezenas de detidos. O polícia em Setúbal foi um dos delegados eleitos à sexta convenção nacional do partido em Viana do Castelo, em janeiro de 2024.
“A Polícia de Segurança Pública (PSP) teve conhecimento do desencadeamento de uma operação da Polícia Judiciária (PJ), no âmbito de inquérito titulado pelo Departamento Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, onde foram cumpridos mandados de busca e de detenção, incluindo, de um polícia da PSP, pertencente ao efetivo do Comando Distrital de Setúbal”, confirmaram na terça-feira. Contactados pelo Público, não confirmaram a filiação partidária do agente.
Outra das cinco mulheres detidas também teve um passado político. Vanda Loureiro foi militante do PS e chegou a ter assento na comissão política socialista no Barreiro.
Rui Tavares acusa deputado ex-Chega Miguel Arruda de votar a fazer saudação nazi
“Maomé era pedófilo”. Grupo neonazi preparava ações contra comunidade muçulmana
O MP acredita que o 1143 estava a preparar ações com ofensas ao profeta Maomé para provocar reações negativas por parte da comunidade muçulmana. No despacho de indiciação dos detidos, citado pela Lusa, o MP sustenta que, em novembro, Mário Machado, terá idealizado um plano para a realização, em 2026, de duas grandes ações com o objetivo de provocar reações negativas ou violentas por parte da comunidade muçulmana residente em Portugal.
A primeira estaria prevista para fevereiro e passaria pela divulgação junto da Comunicação Social e na rede social X de um vídeo com uma tarja, apreendida na terça-feira pela PJ, a acusar Maomé, figura sagrada do Islão, de ser pedófilo. A segunda consistiria na exibição, numa manifestação em Coimbra no 10 de Junho (Dia de Portugal), de uma bandeira com uma imagem do profeta com um turbante e uma bomba. Este cartaz de Maomé, segundo o Expresso, foi feito pelo agente da PSP detido na operação.
No despacho, são ainda enumeradas cerca de uma dezena de ações destinadas a difundir ideologia de extrema-direita desenvolvidas pelo 1143 desde fevereiro de 2024 nas redes sociais e na rua contra, sobretudo, imigrantes muçulmanos, incluindo manifestações e uma situação de agressões a dois cidadãos indianos numa área de serviço de Aveiras, na Autoestrada 1 (A1), em 05 de outubro de 2025.
O grupo, com uma estrutura hierárquica e funções distribuídas, estaria ainda, por decisão de Mário Machado, a preparar-se para ter natureza paramilitar em antecipação a uma eventual “guerra racial”. Segundo o MP, os primórdios do 1143 remontam a 2001, a uma fação ultranacionalista e neonazi da claque do Sporting – Juventude Leonina, da qual Mário Machado faria parte e que foi enfraquecida em 2004 na sequência de uma operação policial.
Terá sido Mário Machado a reerguer o 1143 na sequência de um ataque terrorista na capital belga, Bruxelas, durante um jogo de futebol entre as seleções da Bélgica e da Suécia, em outubro de 2023. De acordo com a PJ, foram detidas na operação “Irmandade” 37 pessoas e constituídas arguidas outras 15, por suspeita da prática dos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensa à integridade física qualificada e detenção de arma proibida.
Os suspeitos têm entre 30 e 54 anos e são maioritariamente homens com antecedentes criminais. Os 37 detidos foram identificados na quarta-feira por um juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, e se, assim o entenderem, prestarão declarações nos próximos dias, antes de lhes serem eventualmente aplicadas medidas de coação. À Lusa, a advogada de vários arguidos, Mayza Consentino, garantiu que o 1143 é somente “um grupo de convívio”, sem nada de violento, e que atuou no âmbito da liberdade de expressão que a lei permite.
Mário Machado, de 48 anos, está atualmente a cumprir pena de prisão por discriminação e incitamento ao ódio e à violência no âmbito de outro processo.