“Para ti??? Ou vendo???”. Foi esta mensagem que, no dia 16 de outubro de 2024, chegou ao telemóvel da mulher de Miguel Arruda, então deputado do Chega. Além do texto enviado via WhatsApp, surgiam três fotografias de um necessaire da marca Louis Vuitton. “Onde arranjaste isso?”, questionou a a mulher. “Não interessa heheheh, queres ou não, é original”, retorquiu o político.
A mulher acabou por aceitar ficar com a bolsa. E a sua legítima dona, uma turista que passara pelo aeroporto de Lisboa, tinha sido uma das vítimas de Miguel Arruda. Segundo a acusação deduzida pela 10.ª Secção do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa foi ele quem, pelas 1h39 desse mesmo dia, se dirigiu ao tapete 9, “onde são depositadas as bagagens destinadas aos voos internacionais não Schengen e bagagens com inconformidades, e que usualmente não têm o seu proprietário à espera no local”. De lá, retirou não só a Samsonite da turista que continha a bolsa da Louis Vuitton, como um saco de desporto, vê-se pela videovigilância. Os conteúdos destas duas malas estavam avaliados em mais de 7 mil euros mas, naquele dia, o deputado queria mais: depois de ter pegado nas suas próprias bagagens, ainda tirou mais um trolley.
Miguel Arruda arrumou um total de cinco malas num veículo TVDE e seguiu rumo a casa. O necessaire da Louis Vuitton viria a ser encontrado durante as buscas feitas em janeiro de 2025 na casa dos Arruda, em Ponta Delgada, onde residia com a sua mulher.
Esta viagem de 16 de outubro de 2024 foi a primeira de dez a serem analisadas de perto pelo Ministério Público, que acusou em dezembro passado Miguel Arruda de 21 crimes de furto qualificado. A mulher foi acusada de um crime de recetação e as mensagens enviadas ao marido indicam que sabia o que ele andava a fazer: “Sabes que há câmaras nos aeroportos? Eu gosto e fico com esse. Mas não se faz mais isso, please. Que medo de seres apanhado. Que vergonha.”
“Eu quero, é bonita e é mesmo o meu género”
A mulher de Miguel Arruda expressava os seus receios, mas ao mesmo tempo apoderava-se de grande parte dos artigos que o marido dizia “comprar” e que eram retirados das malas furtadas. Ao mesmo tempo que, perante uma mala da Trussardi, pedia “que seja a última vez” porque ficava “aflita”, assumia: “Eu quero, é bonita e é mesmo o meu género.” Além de artigos de moda, o casal falou sobre um computador portátil e um telemóvel. Nem sempre o conteúdo agradava: “De roupas não veio nada de jeito. Pouco discreto. Safou-se pelo perfume.”
Se nem Miguel Arruda nem a mulher quisessem os artigos por razões estéticas ou por não servirem, havia outras opções: vender através da plataforma Vinted, dá-los a amigos ou à empregada doméstica. No dia em que se realizaram as buscas à moradia de Miguel Arruda nos Açores, a mulher tinha vestida uma t-shirt pertencente a uma turista, e um conjunto de calças e camisa que eram de outra. A empregada doméstica não foi acusada de qualquer crime, aliás, foi a própria a assumir à polícia que tinha “algumas peças de vestuário que lhe haviam sido dadas pelos arguidos”. Também relatou que, a partir de agosto de 2024 — meses antes das viagens verificadas pelos investigadores — os Arruda começaram a dar-lhe peças de vestuário de adulto “que estavam já separadas em sacos para a denunciante levar quando se deslocava à residência”. Quanto à origem, a patroa dizia que eram “oferecidas”. A funcionária estranhou que os artigos grátis fossem de marca, “mas assumiu que, sendo Miguel Arruda deputado da Assembleia da República, tinha poder económico para as comprar”, relata a acusação.
Na Vinted, sob o nome de utilizador miguelarruda84, o então deputado do Chega colocou à venda conteúdos retirados de uma mala furtada a 5 de novembro de 2024 — camisolas, camisas, uns ténis Converse, uma t-shirt do Sporting e uns calções de banho de criança castanhos que seriam mais tarde encontrados no gabinete de Miguel Arruda no Parlamento — e de uma das primeiras malas que levou do Aeroporto Humberto Delgado.
Miguel Arruda terá chegado a levar quatro malas que não lhe pertenciam de uma vez
Segundo o Ministério Público, durante as viagens entre Lisboa e Ponta Delgada, Miguel Arruda “percebeu que nos tapetes de saída de bagagens do aeroporto de Lisboa ficavam malas sem supervisão, e que à hora a que, em regra, chegava a Lisboa, havia pouca gente no local”. Por isso, decidiu “sempre que tal se proporcionasse, retirar dos tapetes de saída de bagagens malas que ali estivessem nessas condições, e fazê-las suas, assim como aos bens e valores que as mesmas transportassem”.
Foram analisadas viagens feitas entre outubro de 2024 e janeiro de 2025. Miguel Arruda foi apanhado a levar um máximo de quatro malas que não lhe pertenciam e a colocá-las num carrinho de uma só vez, mas também houve chegadas em que, ao aperceber-se de que o tapete 9 estava vazio, se ia embora apenas com a sua legítima bagagem.
Por vezes, quando viajava para Ponta Delgada, despachava no porão malas que é suspeito de ter furtado: uma delas, cor-de-rosa e vermelha, pertencia a uma mulher. A 14 de janeiro, quando chegou a Lisboa vindo dos Açores, retirou do tapete 10 uma mala cujo conteúdo foi avaliado em mais de 5 mil euros. Na casa de banho da sala de recolha de bagagens, retirou as etiquetas de identificação e deitou-as no lixo. Daqui, seguiu para a Assembleia da República. Os meses de saque terminariam sete dias depois, quando Miguel Arruda foi abordado pela PSP no parque de estacionamento 1 do Aeroporto Humberto Delgado. Em sua posse, tinha outra mala cor-de-rosa que não lhe pertencia.
Comissão da Transparência unânime ao levantar imunidade ao deputado Miguel Arruda
Na sua casa nos Açores, alvo de buscas a 21 de janeiro do ano passado, a polícia encontrou desde ténis Adidas e Nike, um pendente de ouro e um livro de criança. Em Lisboa, abundava roupa, mas também foram descobertos um portátil e um jarro elétrico. Os donos destes objetos identificaram-nos como seus.
A 23 de janeiro, quando o escândalo do furto das malas já tinha sido noticiado e as suas casas alvo de buscas, Arruda deixou de ser deputado do Chega e tornou-se deputado não-inscrito, o que não evitou que a polícia encontrasse sete malas no seu gabinete no Palácio de São Bento quatro dias depois. Em fevereiro, seria aceite o pedido de imunidade parlamentar e, em março de 2025, o deputado que entrou em São Bento eleito pelo círculo dos Açores pelo Chega não resistiu à dissolução do Parlamento.
Agora, Miguel Arruda e a mulher podem ser julgados por todos estes crimes — e às vítimas é dada a opção de requererem uma indemnização.