“Agora é que a extrema-direita pode estar prestes a entrar na Assembleia da República.” O alerta veio da bancada parlamentar do Chega, em jeito de desabafo, quando começava a ficar cada vez mais óbvia a relação de proximidade entre Miguel Arruda e o grupo 1143, principalmente do próprio Mário Machado.
Nas redes sociais, Miguel Arruda não escondia o apoio constante a Mário Machado, chegou a identificar Elon Musk para denunciar a existência de um “preso político” em Portugal, mas a relação é muito mais do que isso. Mário Machado e Miguel Arruda são amigos, até visitas de casa, e o agora deputado não-inscrito tem contado com o apoio do líder do grupo 1143 desde o momento em que soube que era arguido por suspeitas do crime de furto qualificado por alegadamente ter roubado malas dos tapetes dos aeroportos de Lisboa e São Miguel, nos Açores.
No dia das buscas nas duas residências de Miguel Arruda, o amigo Mário Machado não falhou ao, na altura, deputado do Chega. Rapidamente o advogado José Manuel Castro surgiu como o homem que estava a representar o arguido e fonte próxima de Arruda garantiu ao Observador que foi o líder do grupo 1143 a facilitar o acesso e a arranjar a defesa. “Os amigos são para as ocasiões”, resumiu a mesma fonte. Passaram a partilhar advogado, mas Machado terá feito mais, e segundo várias fontes ligadas ao processo revelaram ao Observador, Mário Machado terá mesmo estado em casa de Miguel Arruda, pela noite fora, após o longo dia de buscas em que foi parado pelas autoridades no aeroporto.
Confrontados pelo Observador com a informação, Mário Machado e Miguel Arruda negaram que tenham estado juntos naquela noite em específico. O líder do grupo 1143 recusou-se ainda a responder sobre a relação pessoal com Miguel Arruda, assumiu apenas que conhece o deputado — não se comprometeu em dizer que são amigos ou sequer próximos — contudo sugere que o alegado furto de malas, a ser verdade, é porque “tem de haver alguma perturbação do foro psicológico”.
Do outro lado, fonte próxima do deputado não-inscrito vai mais longe, assegura que são amigos, que já estiveram nas casas um do outro, e que partilham uma “admiração”: António de Oliveira Salazar. Apesar de a mesma fonte assegurar que Arruda “não pertence ao grupo 1143”, o deputado não se envergonha da ligação, tanto que chegou a ser visto por deputados e membros do grupo parlamentar do Chega a “vestir a camisola”. Literalmente.
Várias fontes do partido contam ao Observador que Arruda chegou a gabar-se de ter a camisola do grupo por dentro do fato, até dentro da Assembleia da República, mas também há quem o tenha visto a tentar entrar no edifício com uma t-shirt onde se lia, em letras garrafais, 1143. As atitudes foram-lhe valendo avisos por parte de vários colegas de bancada que, agora, aumentam os níveis de preocupação.
▲ Mário Machado é o líder do grupo 1143
FERNANDO VELUDO/LUSA
O gabinete de Arruda em que Machado não quer entrar
Desde o dia em que Miguel Arruda anunciou que iria passar a não-inscrito na Assembleia da República que começaram a circular rumores sobre a opção que podia ser tomada pelo deputado, que passa a ter um orçamento próprio para gastar em assessores do gabinete. Nos corredores do Chega começou a cozinhar-se a ideia de que a proximidade do deputado ao grupo 1143, a somar à liberdade para contratar, podia ser uma oportunidade para deixar a “verdadeira extrema-direita entrar no Parlamento”. “Nós, o Chega, ao pé deles somos uns betinhos”, atira um deputado do partido, afastando-se do grupo 1143 e deixando notar que Miguel Arruda há muito mostrava “um tipo de preferências duvidosas”.
Outra fonte confirma-o, realçando que, por várias vezes, lhe foi pedido que apagasse publicações e/ou partilhas onde fazia questão de dar razão ao grupo 1143 e a Mário Machado, já que no núcleo duro do próprio partido havia a consciência de que tal proximidade não soava a normalidade, muito menos ao ser publicitada constantemente. “Dizia sempre que sim, chegou a apagar e passado uns tempos voltavam a aparecer”, conta um dirigente do Chega, que reconhece que as atitudes não eram consideradas naturais, mas que acabavam por ser desvalorizadas pela postura “descontraída” ou de quem “não quer saber”.
No que toca ao gabinete de Arruda, as preocupações prendem-se com a possibilidade de vir a contar com membros do grupo 1143. Porém, o próprio líder do movimento recusa a ideia, tanto para si como para outros elementos, argumentando, em declarações ao Observador, que “não faz sentido absolutamente nenhum”. E desconhece de onde está a vir tal “ruído” — assumindo que já lhe chegou aos ouvidos que até deputados do Chega tinham sido escutados a dizer o mesmo.
“A questão não se pôs nem eu aceitava que alguém do grupo fosse para a Assembleia da República”, assegurou Mário Machado, salientando que o grupo “nunca poderia estar associado ao que alegadamente pode ter acontecido”. “Colocar alguém na Assembleia da República como assessor de um deputado que está a ser acusado desses crimes não faz sentido nenhum”, acrescentou o líder do movimento, apontando também que “não existe qualquer interesse” em que o grupo 1143 esteja no Parlamento.
A garantia de Arruda: “Eu pertenço ao Mário”
Numa altura em que Miguel Arruda ainda não respondeu ao segundo repto de André Ventura, que pediu “encarecidamente” ao deputado que renunciasse ao cargo — o que permitiria ao Chega recuperar os 50 lugares —, começou a circular um vídeo que dá ainda mais força a todas as teses de proximidade entre Arruda e Machado.
Num telefonema feito pela página “Jovem Conservador de Direita”, onde os protagonistas se apresentaram como a organização de direita “Geração e Identidade” e disseram que tinham pedido o número “ao Mário”, o deputado garantiu que só poderia ter dito que renunciava ao mandato de deputado se estivesse a “ressonar ou a sonhar”. E perante a argumentação de que Miguel Arruda seria necessário para cumprir um projeto na Assembleia da República, o deputado respondeu por duas vezes o mesmo: “Eu pertenço ao Mário.”
Contactado pelo Observador, o deputado açoriano assegurou que não se lembra do telefonema e sugeriu que deveria tratar-se de uma “paródia” ou “brincadeira”, ainda que a página em causa tenha confirmado que o número usado para a chamada telefónica é o mesmo com que o Observador questionou Miguel Arruda.
"eu pertenço ao Mário" pic.twitter.com/5l6LkIhX8G
— Jovem Conservador de Direita (@JCdeDireita) January 30, 2025
A baixa que ainda não chegou e a conta (leal a Machado) apagada do X
Miguel Arruda viajou para os Açores, onde está a passar o período de baixa psiquiátrica de 10 dias — um pedido que, sabe o Observador, ainda não chegou aos serviços da Assembleia da República — e entretanto apagou a página que tinha na rede social X onde declarava constantemente apoio a Mário Machado.
Nessa página, uma das publicações que mais alarido causou aconteceu a 25 de outubro, numa reação à petição que estava a circular para uma queixa-crime após as reações à morte de Odair Moniz. “Isto chegou a um ponto que é impossível permanecer em silêncio”, escreveu Arruda, expressando “total solidariedade” aos membros do partido pelo que chamou uma “tentativa de silenciamento”. E acrescentou: “E para com Mário Machado, que a manter-se a decisão no Tribunal da Relação vai ser um preso político.”
Acabou por apagar a publicação, depois de mais avisos do partido, porém viria a reiterar a ideia pouco tempo depois, numa declaração em inglês onde identificava o homem mais rico do mundo, Elon Musk. “Posso dizer com certeza que Mário Machado é um preso político.” E escreveu ainda, num outro post, que a consciência “pesa mais alto do que as consequências políticas ou a censura”. “De pouco vale falar em surdina quando não se tem coragem de dizer em voz alta: Mário Machado escreveu “umas atoardas” e foi preso e isso faz dele um preso político”.
Agora, numa tentativa de se manter longe de mais polémicas, e já depois de ter desaparecido a conta na Vinted onde alegadamente vendia roupa furtada de malas, também a conta que esteve ativa vários dias após a explosão da polémica foi apagada.
Zanga do 1143 levou grupo a afastar-se do Chega
Esta não é a primeira vez que deputados do Chega surgem perto do grupo 1143. Na manifestação do partido contra a “imigração descontrolada”, que se realizou em setembro — começou na Alameda D. Afonso Henriques e desceu a Avenida Almirante Reis —, a revista Sábado deu conta de que o deputado Rui Afonso tinha viajado do Porto até Lisboa num autocarro onde seguiam também membros do 1143.
Na altura, o deputado disse até à revista que os elementos do grupo foram “sempre respeitosos” e que interagiu com “alguns de forma perfeitamente natural”. “Trocámos algumas opiniões políticas e não houve qualquer tipo de incidente. Inclusive, algumas senhoras tinham preparado rissóis, bolinhos de bacalhau, pregos e panados para almoçar no caminho e até partilharam o almoço comigo”, contou.
Dias depois, membros do grupo 1143 relataram em vídeos nas redes sociais que um deputado do Chega lhes tinha pedido para ajudar na sua segurança — “fomos úteis na segurança até Lisboa, até para ir à casa de banho tinha dois membros” —, que levaram o parlamentar de um autocarro até ao grupo de deputados que estava na manifestação e que fizeram exatamente o mesmo no regresso. O “recado”, sem nome, dava conta de que o deputado em causa tinha, mais tarde, chamado “delinquentes e problemáticos” aos membros do grupo e que havia aconselhado um afastamento do 1143 — o que provocou o desânimo do movimento.
Tempos houve em que o grupo 1143 mostrava mais apoio ao Chega, nomeadamente através de partilhas nas redes sociais. Aliás, num dos vídeos após o episódio com o deputado do Chega, um membro do grupo deixava claro que a partir daquele momento “as coisas do Chega” deixavam de ser “publicadas nos grupos do 1143”. A verdade é que, apesar desse alegado afastamento, Miguel Arruda tornou-se cada vez mais próximo do grupo e de Mário Machado, fazendo questão de nunca o esconder. No sentido oposto, também o movimento partilhou no X uma das últimas vezes em que Arruda defendeu Mário Machado. O caso das malas está por resolver, mas, pelo menos por enquanto, não fez Arruda perder um amigo.