Eslovénia, Ljubljana, Stozice Arena. O que liga este pavilhão com pouco mais de 12 mil lugares à história do desporto português? Foi ali que, há precisamente 2.905 dias, Portugal deixou para trás os fantasmas do passado e se sagrou campeão da Europa de futsal pela primeira vez, naquele que foi ainda o primeiro grande título da Seleção Nacional sénior na modalidade. Estávamos a 10 de fevereiro de 2018. A equipa comandada por Jorge Braz entrava em campo para mais um grande desafio frente à super Espanha e entrou em campo da melhor forma, com Ricardinho a faturar no primeiro minuto. Contudo, Marc Tolrà e Lin viraram o jogo na segunda parte, numa fase em que o craque português já não estava em campo devido a lesão. Foi aí que Bruno Coelho assumiu o papel de herói, levou o jogo para prolongamento e, a 56 segundos do fim, deu o título a Portugal na conversão de um livre de dez metros.

Foi igual ao Europeu de futebol. Igual, igual. Mas com um Éder ainda mais herói (a crónica do Europeu de futsal)

Volvidos oito anos, a capital da Eslovénia voltou a aparecer no caminho de Portugal numa edição do Campeonato da Europa que passa por três países e quatro pavilhões: Tivoli Arena (Ljubljana), Arena Riga (Letónia) e Zalgiris Arena (Kaunas, Lituânia) juntam-se à Stozice Arena. Colocada no Grupo D da competição em que entra com o estatuto de tricampeã, a Seleção não vai sair da Stozice Arena, defrontando Itália, Hungria (terça-feira) e Polónia (quinta-feira) e, em caso de apuramento em qualquer um dos dois primeiros lugares, o cenário repete-se. Assim, o objetivo passa por chegar ao terceiro título consecutivo num local em que Braz e companhia já foram bastante felizes.

Para esta competição, a grande novidade passa pela convocatória de Rúben Góis, pivot de 24 anos que despontou no Rio Ave no último ano e meio e que, segundo a imprensa desportiva, deverá rumar ao Benfica na próxima temporada. Góis foi o escolhido para colmatar a ausência deixada por Zicky Té, que tem atravessado, nos últimos tempo, um autêntico calvário provocado pelas lesões. Desta forma, Jorge Braz volta a chegar à fase final de uma competição com apenas um pivot, promovendo a mobilidade no seu modelo de jogo, que pode alternar entre o clássico 3×1 e o móvel 2×2, com Erick Mendonça a assumir um papel híbrido. Outra das ausências mais sonantes passa pelo capitão João Matos, com André Coelho e Tomás Paçó a manterem-se nas escolhas do selecionador que, assim, entregou a braçadeira a Bruno Coelho. Edu Sousa, Bernardo Paçó, Afonso Jesus, Diogo Santos, Pany Varela, Tiago Brito, Pauleta, Edmilson Kutchy e Lúcio Rocha completam o lote de 14 convocados.

A eficácia de 89% colocada à prova sem Zicky mas a olhar para o tri: o que pode fazer Portugal no Europeu de futsal

“Itália tem uma grande maturidade competitiva. Estão bem preparados e com jogadores experientes. Itália não é só o [Alex] Merlim, têm outros jogadores com muita experiência, que já venceram muito na carreira. Têm uma grande valia e vão obrigar-nos a estar no nosso melhor nível. Amanhã [sábado] é o início do percurso. Todos os jogos em que entramos é para vencer, especialmente numa fase final. Queremos começar bem e queremos ter nove pontos no final do grupo. Já vimos algumas surpresas neste Europeu, mas nós não queremos surpresas. Queremos ser nós e começar muito bem este Europeu. Sabemos o nível em que estamos neste momento. Itália ultrapassou uma série de dificuldades na qualificação, muito devido à maturidade competitiva que têm. A questão chave somos nós, Portugal. Quando olhamos muito para os outros deixamos de dar importância aos nossos. O foco está em nós e no que podemos fazer”, assumiu Braz na antevisão ao jogo.

Para este jogo frente a uma Itália longe do fulgor de outros tempos, mas em crescimento, Jorge Braz começou com o seu habitual, com Bernardo na baliza, seguido de Tomás, Bruno, Pauleta e Erick. No outro lado, Salvo Samperi entrou em campo com Yurij Bellobuono, Júlio de Oliveira, Carmelo Musumeci, o sportinguista Alex Merlim e Francesco Liberti, e viu Merlim quase inaugurar o marcador nos segundos iniciais, mas Bernardo Paçó levou a melhor (1′). Contudo, logo a seguir, o 10 cobrou uma reposição lateral para o flanco oposto e, de primeira, Musumeci desferiu um grande remate para o golo inaugural (2′). Portugal começou a reagir e Diogo Santos quase levou a melhor frente a Bellobuono (4′), com Kutchy falhar clamorosamente o golo no lance seguinte (5′).

Com a Seleção por cima, Pany (11′) e Erick (12′) não conseguiram bater o guarda-redes italiano, levando o treinador transalpino a solicitar a sua pausa técnica. No recomeço, Santos enviou a bola ao poste com um remate cruzado (15′) e, na resposta, Paçó voltou a negar o golo a Merlim (15′). Na reta final da primeira parte, Afonso cobrou uma reposição lateral à maneira curta e, com um remate de meia-distância, Diogo Santos empatou a partida (16′). Até ao intervalo, Itália ainda atingiu as cinco faltas e Jorge Braz parou o jogo a 11 segundos do soar da buzina para preparar uma bola parada, mas o resultado não sofreu mais alterações (1-1).

No regresso dos balneários, o campeão da Europa entrou forte e dispôs de duas oportunidades por Tomás Paçó e Erick Mendonça (22′), mas não conseguiu marcar. Na resposta, Bernardo Paçó voltou a aparecer na baliza nacional, negando um golo de bandeira a Alex Merlim (23′) e a Gabriel Motta, que seguia isolado (24′).  Pouco depois, Kutchy recebeu a bola junto à baliza de Paçó, arrancou pela esquerda, passou por dois adversário e, perante a saída de Yurij Bellobuono, atirou rasteiro para o segundo golo português (24′). Logo a seguir, o jovem do Benfica voltou a fazer das suas e bisou com um remate de primeira, em vólei, após canto de Pany Varela (25′). Com o resultado a caminhar favoravelmente para as cores nacionais, Rúben Góis estreou-se a marcar em grandes competições depois de ter sido servido por Tiago Brito (27′).

Pouco depois, ainda na fase inicial da segunda parte, o ex-Sp. Braga Ítalo Rossetti foi expulso com recurso ao video support, depois de ter pontapeado Pauleta (28′). Apesar da superioridade numérica, Portugal não conseguiu capitalizar, com Bruno Coelho a desviar por cima com tudo para marcar (29′). A oito minutos do fim, um mau passe de Brito permitiu a Fabrício Calderolli e rematar para defesa de Paçó, com Brito, na tentativa de cortar, a desviar para a própria baliza (32′). Já dentro dos últimos cinco minutos, Salvo Samperi parou o jogo e lançou o 5×4, com Gabriel Motta como guarda-redes avançado. Nessa condição, Motta desbloqueou na direita e colocou ao segundo poste, onde Júlio de Oliveira apareceu completamente sozinho a rematar para fora (38′). Pouco depois, Giovanni Pulvirenti agarrou Diogo Santos e viu o segundo cartão amarelo, complicando a missão da sua equipa (38′). Em superioridade, Portugal esperou pela pressão italiana para resolver o jogo, com Bruno a servir Diogo Santos ao segundo poste, que só teve de encostar (39′).

Até ao fim, ainda houve tempo para Bruno Coelho fazer o gosto ao pé com um golo de baliza a baliza (40′). Com esta goleada (2-6), Portugal entrou da melhor forma a campanha neste Campeonato da Europa e é, para já, líder isolado do Grupo D, com três pontos. Para além disso, a Seleção Nacional venceu Itália pela primeira vez na fase final de uma grande competição.