Um barco atracado no Sena: uma deslocação por cumprir ou um prenúncio renovado de partida? Uns poderão ler frustração e imobilismo, pausa e hesitação. Outros sabem de ginjeira que mais vale estar ao leme do próprio destino, imunes a velocidades alheias, e que em caso de dúvida saber parar é uma virtude. Num gesto de renovação de votos, os Ernest W. Baker cumprem o guião. Têm galgado mundo ao seu ritmo, ancorados em passos e formatos de apresentação que desafiam o velho cânone, e no interior do River Palace, uma pérola vintage no 15ème, não se desviaram do argumento.

Esta sexta-feira, em Paris, nas margens do Sena, o duo composto por Inês Amorim e Reid Baker mostrou-se pela primeira vez em desfile — e lembrou como é possível recuar do frenesim e do ruído da indústria, impondo uma batida muito própria. “Foi o primeiro desfile, foi muito rápido! É este tempo todo para chegar aqui e depois vai-se num minuto. Muito emocionante.”, confessa Inês no rescaldo da apresentação. “Queríamos usar um espaço que se identificasse connosco e com a marca, este clássico, este kitsh, grungie antigo. Pensámos pô-lo a andar mas era uma logística ainda maior, com os convidados”.

© Grégoire Avenel

Quase dez anos depois de lançarem a sua marca, a nostalgia dos eternos começos revela-se em mais uma atmosfera hipnotizante e o embalo de uma banda sonora onírica. A rigorosa atenção ao detalhe também. Num cenário de lustres com cristais da Boémia, alcatifas, cadeiras negras e janelas que convidam a apreciar o rio a partir desta cápsula do tempo, um convidado de pé ou umas pernas traçadas do público a intrometer-se numa fotografia podem comprometer esse filme da coreografia. Talvez esteja nessa micro gestão parte da fórmula do sucesso de uma das duplas que a partir de Portugal liga os pontos entre 16 fábricas, de onde saem estas peças.

“Acho que é a qualidade, a imagem, queremos saber do produto. Tudo isso faz com que a marca cresça a partir do Porto. Fazemos tudo com as fábricas do Porto, pele, malhas, sapatos. Meias não fazemos, mas desta vez fizemos algumas coisas. Uma das razões para viver em Portugal é estar próximo das fábricas e desta cultura de produção. Alfaiataria é um grande ponto da marca.”

© Grégoire Avenel

É também das mais procuradas, refere a criadora, bem como acessórios como luvas e sapatos, que aqui voltam a evidenciar-se, a par dos collants fantasia. Por um lado esse toque de brilho muito cinemático em apontamentos como as lantejoulas, por outro silhuetas super usáveis. “Gostamos sempre de ir buscar o clássico e de o reinterpretar para agora, de modernizar. Quisemos fazer uma espécie de homenagem à marca, não tanto focar no que esta coleção representa mas mais num todo, usámos o xadrez em total look, passámos para malhas, sapatos, e fomos buscar detalhes, acessórios, pele, tivemos apoio dos cristais da Swarovsky.“. A colaboração com a marca de joalharia permitiu aprofundar o trabalho de ornamentação, com aplicações inspiradas em constelações e estrelas cadentes, introduzindo uma dimensão simbólica ligada à ideia de orientação, descoberta e continuidade para a Ernest W. Baker.

© Grégoire Avenel

Inserida na montra nacional que a plataforma Portugal Fashion traz a Paris, a coleção mostrada antecipa o inverno de 2026 mas acaba por ser, admitem, um embrulho de boa parte dos códigos que os têm acompanhado — embrulho com direito a laçarote de presente ao estilo Ernest W. Baker, claro. Há ainda apontamentos que nos situam ainda mais na narrativa. “Pegámos em alguns elementos pelo facto de estarmos num barco, e esta ideia de viagem, que mostra o nosso caminho na marca, motivos náuticos em bombers, fechaduras ou atilhos com inspiração sailor.”

E, claro, as rosas vermelhas nas mãos deste pequeno exército de manequins, sempre no seu passo determinado, que depois de navegarem pela passerelle a negro saem do barco e caminham rumo aos bastidores, enquanto o público os avista das janelas, em mais um frame para guardar na memória. “Sempre usámos flor deste o começo da marca, A rosa é muito poética e foi algo que quisemos trazer, é muito a nossa identidade, esta poesia, o cinema.”. O convite para o desfile materializou-se mesmo numa fotografia analógica de uma rosa numa jarra, acentuando esse convite à reflexão sobre o processo.

© Grégoire Avenel

Em termos de balanço de bilheteira, a longa-metragem dos Ernest W. Baker não tem corrido mal — que o diga a presença de meios como Esquire Coreia, FantasticMan ou The Greatest Magazine, só para citar alguns concorrentes do campeonato masculino. Também não estranhe se à sua frente estiver sentado, como foi o caso, o designer belga Kris Van Assche, antigo diretor criativo da Berluti, a marca de pele de luxo do conglomerado LVMH, e diretor artístico da Dior Homme de 2007 a 2018.

Atentos escolhidas por alguns dos mais solicitados stylists, que as colocam em cabeças de cartaz como Lady Gaga, Kim Kardashian, Thymotée Chalamet, Justin Bieber e Harry Styles. E na restrita plateia em Paris, a assistência comprova que Coreia do Sul, EUA e Japão continuam a ser os principais mercados. Contas feitas, a marca já chega hoje a cerca de 25 pontos de venda em todo o mundo. “O nosso objetivo é continuar a crescer em todo o mundo, em lojas, clientes, pessoas mais interessadas na marca. Temos celebridades a vir, jornais de moda, veio o [cantor e compositor norte-americano] Jessie Rutherford e alguns stylists famosos.”, comenta Inês.

© Grégoire Avenel

Nos últimos anos, a dupla habitou-nos a formatos de apresentação à margem das passerelles, entre vídeos de lançamento de novas coleções ou visitas guiadas pelo seu estúdio no Porto. Habituou-nos também à produção de um armário flexível no destinatário, com a qualidade e o gosto pessoal a sobrepor-se a categorias fechadas. “Quando desenhamos não pensamos em géneros, desenhamos a coleção e depois decidimos quem veste o quê.” Essa fluidez aliás continua bem presente no styling e nos manequins, que raramente perdem de vista os seus providenciais óculos escuros oversize, para carregar no dramatismo e introspeção.

Esta sexta-feira, Amorim e Baker carimbaram a sua sétima participação na Semana da Moda para Homem. Há um ano, as  propostas outono/inverno da marca portuguesa inspiravam-se no filme ‘O Nevoeiro’ (1980), de John Carpenter e estiveram expostas num estúdio próximo à Praça da República da capital francesa. Com cores neutras a predominar, mas também tons de vermelho, cor-de-rosa e dourado, tão característicos, a fornada em destaque sugeria novas versões de criações como luvas, botas e a mala “presente”.

A dupla de criadores no final do desfile © Grégoire Avenel

Primeiro sediada em Viana do Castelo, a marca foi criada em 2017 pela portuguesa e pelo norte-americano, que desde há três anos instalou o quartel general no Porto. Ernest W. Baker (nome inspirado no avô de Reid) conquistou o mundo da moda com uma interpretação do guarda-roupa clássico masculino, à luz de um glamour retro, que lhes valeu um lugar entre os grandes nomes da moda parisiense e arrebatou o mercado asiático e figuras pop como Pharrell Williams, hoje na direção criativa da Louis Vuitton.

Foi em Milão que Inês Amorim e Redi Baker se cruzaram, enquanto estudavam para um mestrado em design de moda naquela cidade, e foi daí que veio o impulso para a construção de uma identidade tão nostálgica como pessoal e familiar, um retro elegante fiel ao estilo da capital lombarda. O caminho de Inês ainda a levou até Londres, onde fez um estágio com Yang Li, enquanto Reid parou em Paris e depois Antuérpia para aprender com Haider Ackerman. Em outubro de 2020, com a pandemia de Covid-19 em fundo, estreavam-se no calendário oficial do Portugal Fashion. Em junho de 2021, foi entre o romantismo de Shakespeare e a fantasia dos filmes do japonês Satoshi Kon, que os jovens criadores encontraram inspiração para projetar o verão seguinte, cruzando a alfaiataria com o sportswear americano, e apostando no varsity jacket.

© Grégoire Avenel

Mas o grande pulo mediático, para os mais distraídos da indústria, aconteceu em fevereiro de 2023, depois de a equipa de styling de Pharell Williams contactar a dupla de designers. O músico norte-americano e a mulher, surgiram na red carpet dos Grammys vestidos de Ernest W. Baker.

Em pleno mês da moda, o calendário nacional abriu a 19 de janeiro em Milão, com os desfiles das novas coleções de David Catalán e Miguel Vieira. Os momentos increvem-se na trajetória de aposta do percurso internacional do Portugal Fashion, apostando nesta consolidação e no reformulado formato doméstico, depois das polémicas mais recentes. Projeto da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários, conta com o apoio dos seus parceiros estratégicos e é cofinanciado pelo SIAC – Apoio a Ações Coletivas Internacionalização do Portugal 2030, no âmbito do Compete 2030 – Programa Inovação e Transição Digital, com fundos provenientes da União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

Até 26 de janeiro, a moda portuguesa concentra-se em Paris também em formato showroom do Portugal Fashion, instalado no Marais. A seleção reúne marcas consolidadas e criadores em fase de afirmação internacional, incluindo Béhen Studio e Duartehajime powered by ModaLisboa, David Catalán e Susana Bettencourt, assim como nomes que surgiram dentro do Portugal Fashion nos últimos anos, como Arieiv For Lo Siento, Veehana e Maria Carlos Baptista, que integram o programa Bloom Portugal Fashion Incubator, ou a E.P. ATE’LYER, vencedor do concurso BLOOM 2025 pwd by Salsa Jeans. O showroom vai também incluir uma instalação visual dos Ernest W. Baker.

Quase a fechar o mês, no dia 29, Marques’Almeida representam o Portugal Fashion na Copenhagen Fashion Week, com o projeto Portugal Fashion & Arts: Inside the Studios, uma experiência imersiva com a curadoria da dupla de criadores.

O Observador viajou a convite do Portugal Fashion