México e Jogos Olímpicos de inverno são uma combinação pouco usual. Na verdade, o país enviou uma equipa de bobsleigh logo em 1928, em St. Moritz, mas só voltou a ter uma delegação em 1984, em Sarajevo. De lá para cá, somaram-se anos com um, dois ou três participantes, sendo em 1998 e 2006 nenhum mexicano conseguiu qualificar-se. O sonho de Regina Martínez, portanto, não era propriamente habitual.
Aos 33 anos, natural da Cidade do México, Regina Martínez está prestes a tornar-se a primeira mexicana a competir na modalidade de esqui de fundo nos Jogos Olímpicos de inverno. Qualificou-se já em março do ano passado, nos Mundiais que decorreram em Trondheim, e vai agora estar em Milão-Cortina — e num universo muito distante do que chegou a pisar durante a adolescência.
Na verdade, quando era mais nova, Regina Martínez sonhava ser jogadora de futebol. Chegou a jogar nas camadas jovens do Pumas e na equipa principal de vários clubes da Costa Rica, já que o México não tinha futebol feminino profissional na altura, mas acabou por dar prioridade aos estudos e entrou em Medicina. Onde? Nos EUA. Fez as malas e mudou-se para o Minnesota, o sítio que acabaria por oferecer-lhe uma nova paixão.
Vocación, altruismo y hielo ????❄️
Regina Martínez es doctora de urgencias y este 12 de febrero va por sus primeras letras de historia en los Juegos Olímpicos de Invierno Milano-Cortina 2026, compitiendo en esquí de fondo 10 km.
México también se escribe en la nieve ???????? @BimboMx pic.twitter.com/AAbH7lEw7Z— Comité Olímpico Mexicano (@COM_Mexico) February 4, 2026
Pouco habituada ao frio e à neve, aos invernos longos e escuros e cheia de saudades de casa e da família, achou que encontrar um hobby seria a melhor maneira de passar o tempo no meio das aulas e dos estudos. “Os invernos eram extremamente frios. Estava sozinha, não havia luz, foram tempos muito difíceis. Encontrei este desporto quando mais precisava. Deu-me uma escapatória, uma forma de estar na rua, de me mexer, de aproveitar a natureza. Por muito exigente que seja, deixas de sentir o frio muito depressa. Percebi que adoro desafios e adoro trabalhar para algo todos os dias. Depois comecei a perguntar-me: quantos mexicanos é que já estiveram nos Jogos Olímpicos de inverno? E quantas mulheres? Foi aí que percebi o quão raro era”, explicou em entrevista à Reuters.
Inspirada por Germán Madrazo, que em 2018 tinha estado nos Jogos Olímpicos de PyeongChang, conseguiu conhecê-lo e começou mesmo a treinar sob a orientação do compatriota. Quando já levava quatro anos a praticar a modalidade, um novo obstáculo: a carreira profissional obrigava a que se mudasse para Miami para realizar os estágios da especialidade, já que queria ser médica do serviço de urgência. Aparentemente, a vida estava a obrigá-la a escolher um lado. Mas Regina Martínez continuou a escolher os dois.
Mudou-se para Miami, mas viajava constantemente para o Minnesota — uma despesa avultada que acabou por custear a passear cães por dez dólares por hora. E até treinava na rua e sem neve. “Podemos praticar tanto na neve como na rua. Como não há neve durante o ano inteiro, os esquiadores treinam no asfalto com uns ‘rollers’, que são uns patins que se adaptam às botas da neve”, contou em entrevista à Sports Illustrated. As maiores dificuldades, na verdade, foram mesmo os horários.
LA DOCTORA DE URGENCIAS QUE REPRESENTA A MÉXICO EN LOS JUEGOS OLÍMPICOS
Regina Martínez no es solo una atleta de alto rendimiento, sino que también es médica urgencióloga, realizando su residencia en el Jackson Memorial Hospital de Miami, uno de los más concurridos de Estados… pic.twitter.com/2tZqQRnwO4
— 24 Morelos (@24_morelos) February 4, 2026
“Não foi fácil. Durante o estágio trabalhava quase 80 horas por semanas, muitos dos turnos eram noturnos e outros eram de 24 horas. Estou muito orgulhosa do que consegui alcançar desde aí. Treinava seis a dez horas por semana e o foco com o meu treinador era não perder a condição física e manter ou melhorar a técnica. Às vezes tinha turno das 15h às 23h e treinava de manhã, dormia uma sesta, tomava banho, comia e ia para o hospital. Quando saía do turno ia ao único ginásio de Miami que estava aberto 24 horas. No dia seguinte a mesma coisa”, contou.
Certo é que tudo resultou. Regina Martínez concluiu os estágios, tornou-se médica de urgência e atualmente trabalha no Jackson Memorial Hospital de Miami, continuando a treinar com Germán Madrazo e a viajar constantemente para o Minnesota. Reconhece que ser médica pode ajudar a ser atleta de alta competição, mas não esconde que existem dias em que continua a ser difícil conciliar os dois lados.
“É difícil. Por vezes os turnos prolongam-se um bocadinho mais, se tens um paciente crítico, e há muita adrenalina. Às vezes há dias ou momentos difíceis, se morre um paciente ou chega uma paragem cardíaca. A parte emocional de ter de dizer a uma família que um ente querido morreu. É um trabalho muito exigente, fisicamente, emocionalmente e mentalmente, mas isso também me enche de humildade e perspetiva, porque quando estás habituado a ver o quão frágil é a vida ficas com outra perspetiva. Não sabemos quanto tempo temos e temos de aproveitar ao máximo cada momento. Ensina-te a não levar tudo tão a sério”, termina.