Portugal voltou a ter uma representação diplomática permanente em Andorra, um Consulado-Geral, 13 anos após o fecho, em 2012, da embaixada que tinha no pequeno país dos Pirenéus, onde vivem perto de 8.500 portugueses.

O novo Consulado-Geral de Portugal em Andorra deveria ter sido oficialmente inaugurado pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, em 29 de janeiro, durante uma visita que foi cancelada por causa do mau tempo em Portugal, mas está já a funcionar desde o ano passado.

A inauguração formal das instalações do consulado deveria ser o culminar do cumprimento de uma promessa feita em junho de 2022, durante uma visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para as celebrações do 10 de Junho naquele ano.

Na altura, o então secretário de Estado das Comunidades, Paulo Cafôfo, anunciou a abertura de um Consulado-Geral em Andorra, respondendo assim a reivindicações da comunidade portuguesa, que se queixava, entre outras coisas, de que tinha de se deslocar a Barcelona (a 200 quilómetros de distância) para ter acesso a vários serviços consulares desde o encerramento da embaixada em 2012, no âmbito de cortes orçamentais decididos durante o resgate da ‘troika’.

Após o fecho da embaixada, Portugal manteve em Andorra um Consulado Honorário, com alguns serviços consulares, e o Consulado-Geral, na sequência da promessa de 2022, foi formalmente criado por um decreto de março de 2024.

Duarte Pinto da Rocha, que estava na embaixada portuguesa de Pequim, foi nomeado cônsul-geral em Andorra em agosto de 2024 e iniciou funções em setembro do mesmo ano.

Há cada vez menos portugueses em Andorra onde é fácil ter trabalho mas difícil pagar casa

O número oficial de portugueses em Andorra desce continuamente há mais uma década, num país que não aceita a dupla nacionalidade e onde, apesar de continuar a ser fácil encontrar trabalho, se tornou muito difícil pagar uma casa.

“O problema da comunidade portuguesa é a dificuldade em encontrar habitação. É escassa, é difícil de encontrar e os preços são elevados. A nível laboral, não há neste momento especiais problemas, penso que é relativamente fácil encontrar trabalho em Andorra. Mas se calhar já não é atrativo, pelo custo de vida”, disse à agência Lusa a conselheira do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) eleita pelo principado, Sílvia Prada.

Segundo estatísticas oficiais de Andorra, a comunidade portuguesa no país ascendia a 8.428 pessoas no final de 2025, o equivalente a 9,5% da população. As autoridades portuguesas estimam que, porém, incluindo os lusodescendentes, seja o dobro, num país que não admite a dupla nacionalidade.

“Os filhos e os netos, a segunda e terceira gerações, são muitas vezes, mais cedo ou mais tarde, andorranos. E isso significa que desaparecem das estatísticas oficiais”, explicou à Lusa o cônsul-geral de Portugal em Andorra, Duarte Pinto da Rocha.

Os portugueses continuam a ser a segunda maior comunidade estrangeira residente em Andorra, a seguir à espanhola (21.013 pessoas), e a emigração nacional para este país nos Pirenéus, entre Espanha e França, tem uma origem antiga, já com várias décadas.

No entanto, a comunidade tem vindo a descer de forma lenta, mas contínua: nos últimos 15 anos passou de 10.832 pessoas (em 2010) para 8.428 (em 2025). No passado, chegou a alcançar as 18.000, num momento em que a população de Andorra rondava os 60.000 habitantes, muito menos dos que os atuais quase 90.000.

O aumento exponencial do custo de vida em Andorra e das casas tem tido destaque na imprensa internacional, como a espanhola. Devido à política fiscal, o país tornou-se um íman para empresários comprarem casa e fixarem residência e, nos anos mais recentes, um polo de atração de famosos ‘influencers’ ou ‘youtubers’, sobretudo espanhóis, acusados do outro lado da fronteira de estarem a fugir aos impostos.

Em Andorra há 18 anos e a trabalhar como chefe de obra numa empresa de construção civil, “setor com muitos portugueses”, Sílvia Prada garante que “é bastante reduzido o número de portugueses que procura Andorra”.

“O número de portugueses não tem aumentado. Às vezes acontece que as pessoas chegam aqui, encontram trabalho, mas não encontram casa. E têm de se ir embora por esse motivo”, conta Sílvia Prada, que tem 45 anos e nasceu em Macedo de Cavaleiros.

Mesmo os portugueses que vivem há décadas em Andorra não são, na sua maioria, proprietários de casa e o aumento do preço do arrendamento “parece estar a ter um efeito secundário”, o de, chegada a “idade da pré-reforma, começarem a considerar o regresso a Portugal”, nas palavras de Duarte Pinto da Rocha.

Se com os dois salários de um casal com filhos é difícil pagar uma casa de família, com o valor de uma reforma é praticamente impossível, como bem sabe e explica à Lusa Emília Ribeiro, 65 anos, há 22 em Andorra e a poucos meses de deixar o trabalho como vendedora na grande cadeia de armazéns do país.

Está também, por isso, a poucos meses de regressar a Portugal, a Esposende, já reformada, embora acredite que, inicialmente, andará “entre os dois países”, porque a filha, psicóloga clínica na cidade de Andorra-a-Velha, fica em Andorra.

“Por vários motivos, nunca construí uma casa em Andorra e agora tenho de deixar a casa onde vivo”, conta à Lusa, explicando que os 750 euros de reforma (juntando valores de Portugal e Andorra) não lhe permitem continuar a pagar os 950 da renda que tem atualmente. Uma renda antiga e baixa porque já sabe que o dono da casa a vai agora alugar “a 1.500 ou 2.000 euros”, num país onde o salário mínimo ronda os 1.450 euros.

“Não dá para viver aqui. Isto é um país para ricos. Há 40 anos, os portugueses ganhavam muito dinheiro, nas obras e outros trabalhos. Agora já não é assim e já não era quando vim. Gasta-se o dinheiro todo”, resume.

Emília Ribeiro não é a única portuguesa que trabalha na secção de roupa feminina dos grandes armazéns de Andorra-a-Velha, pelo contrário, a maioria dos colegas no momento em que fala com a Lusa são oriundos de Portugal. E alguns dos que não são já arranham o português à força de tanto contacto com os companheiros de trabalho e à conversa somam-se clientes assim que ouvem falar o idioma.

Emília e os colegas de trabalho são de gerações diferentes, mas quase todos os que falaram com a Lusa têm o plano comum de deixar Andorra em breve.

É o caso de Sandra Silva, de 46 anos, e Pedro Páscoa, de 28, que estão a poucos meses de regressar a Braga e Santa Maria da Feira, respetivamente.

Sandra, em Andorra desde 2004, tem casa própria em Portugal e sabe que os filhos, de 13 e 10 anos, um dia teriam de deixar o principado para irem estudar na universidade, “em Barcelona ou França”. Quando chegar a reforma, que prevê “muito baixa para o nível de vida e a habitação” em Andorra, quer tê-los por perto e, nesta idade, ainda irão para onde a mãe os levar ou quiser levar, neste caso, para Portugal.

Já Pedro Páscoa, que fez formação em Teatro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e é bailarino, tem passado os últimos anos entre Portugal – onde nos meses de primavera e verão percorre feiras medievais com um espetáculo – e Andorra – onde trabalha nos grandes armazéns durante o inverno.

Em abril volta a Portugal e diz que já não volta, não tanto pelo custo de vida, mas porque, apesar de “adorar as pessoas”, em especial “as da comunidade”, e de ali ter uma irmã, “o país em si” já não lhe “diz nada” e prefere outra qualidade e forma de vida ou procurar novos mundos, com “mais ofertas”: “Não fecho as portas a voltar a emigrar, mas não para Andorra”.