Tensão máxima e apelos à contenção. O mundo está de olhos postos no conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão, com os líderes internacionais a desdobrarem-se em apelos e reações desde que, ao princípio da manhã deste sábado (hora de Lisboa), Donald Trump confirmou o início da ofensiva. E se na Europa há sobretudo pedidos de calma e do “fim da escalada” da tensão, os Estados Unidos contam também com alguns aliados a transmitirem o seu apoio à operação “Fúria Épica” — e com críticas duras de países como a Rússia e a China.
As Nações Unidas reagiram rapidamente, com António Guterres a criticar as duas partes pela “escalada militar” no Médio Oriente — tanto o “uso da força” pelos Estados Unidos e Israel, que lançaram os primeiros ataques contra o Irão, como a “retaliação” do Irão na região, atacando países do Médio Oriente onde os norte-americanos têm bases militares. As ações de ambas as partes “minam a paz internacional e a segurança”.
O secretário-geral da ONU sublinhou que todos os Estados-membros da organização devem respeitar as obrigações a que estão sujeitos no âmbito da lei internacional e das Nações Unidas, incluindo o uso de força contra a integridade territorial e independência política de qualquer Estado — Trump já veio apelar à população iraniana que aproveite esta oportunidade para derrubar o atual regime, defendendo que será uma oportunidade única em várias gerações. Além disso, Guterres veio pedir a “cessação imediata das hostilidades e a sua desescalada”, sob pena de se criar um conflito regional mais amplo, e o regresso imediato à mesa das negociações onde os Estados Unidos e o Irão se tinham vindo a sentar.
Nas instituições europeias também se multiplicaram os pedidos de contenção. A própria União Europeia divulgou um comunicado conjunto em que classifica os acontecimentos no Irão como “extremamente preocupantes”, sentenciando que “garantir a segurança nuclear e prevenir quaisquer ações que possam agravar ainda mais as tensões ou prejudicar o regime global de não proliferação é de importância crucial”. E lembra que a UE tem promovido “esforços diplomáticos” para chegar a uma “solução negociando“, pedindo agora a todas as partes que “exerçam a máxima contenção, protejam os civis e respeitem integralmente o direito internacional”.
Já a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, veio alertar para o “perigo” dos últimos acontecimentos no Médio Oriente, apontando várias críticas ao Irão: “O regime iraniano matou milhares de pessoas. Os seus programas de mísseis balísticos e nucleares, juntamente com o apoio a grupos terroristas, representam uma séria ameaça à segurança global”, disse, garantindo que a UE está a “coordenar-se estreitamente com os parceiros árabes para explorar caminhos diplomáticos”.
Também António Costa e Ursula von der Leyen reagiram, em nome do Conselho Europeu e da Comissão Europeia, para mostrarem “grande preocupação” e pedirem às partes envolvidas que “exerçam a máxima contenção, para proteger civis, e respeitem inteiramente a lei internacional”. Já a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, lembrou que o Parlamento Europeu “exige há muito que o regime iraniano desmantele os seus instrumentos de opressão, cesse o apoio aos grupos terroristas, abandone as suas ambições nucleares e, finalmente, permita que o seu povo seja livre para escolher o seu próprio destino”, classificando os ataques do regime contra os países do Conselho de Cooperação do Golfo são “indesculpáveis e injustificáveis”.
Entre os líderes europeus foram marcadas desde logo várias reuniões de emergência, com a preocupação de acompanhar o desenrolar do conflito e emitir ordens para proteger os seus cidadãos que estão no Médio Oriente. A maior parte pronunciou-se a favor de uma solução negociada. Reino Unido, França e Alemanha vieram pedir, num comunicado conjunto, que os Estados Unidos e o Irão retomem as negociações sobre o armamento nuclear, condenando especificamente os ataques iranianos aos países da região — e, como notava a Reuters, não comentaram diretamente os ataques norte-americanos e israelitas contra o país.
“Condenamos os ataques do Irão com a máxima veemência. O Irão deve abster-se de lançar ataques militares indiscriminados. Pedimos a retoma das negociações e apelamos à liderança iraniana que procure uma solução negociada. O povo iraniano deve poder determinar o seu futuro”, lê-se no comunicado.
França disse entretanto que está “pronta para mobilizar os recursos necessários para proteger os seus parceiros mais próximos”, caso seja necessário. Emmanuel Macron pediu desde logo uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para este sábado, defendendo que o início desta guerra “traz consequências sérias para a paz e a segurança internacional”, enquanto Keir Starmer reuniu o comité de emergência do Governo britânico pedindo que não se “escale para um conflito regional maior” e decidiu enviar aviões para o Médio Oriente. Também o Governo alemão, que foi previamente informado por Israel dos ataques, irá reunir o seu gabinete de crise.
Como notava aqui a Associated Press, os termos cautelosos de muitas destas reações mostram o “dilema” que os aliados dos Estados Unidos enfrentam nesta altura: sendo certo que se opõem ao programa nuclear do Irão e ao regime como um todo, também seria problemático apoiar nesta altura uma nova guerra lançada pelos Estados Unidos e um desrespeito claro pela lei internacional que pode, como vieram avisar algumas instituições, criar um conflito mais profundo e perigoso na região.
O comunicado do Governo português não tocou, de resto, nas ações dos Estados Unidos: expressando “grande preocupação”, o texto do Ministério dos Negócios Estrangeiros deixa críticas ao Irão, pedindo que o programa nuclear do país cesse, que o regime respeite os direitos humanos dos iranianos e “condena os injustificáveis ataques do Irão aos países vizinhos da região — entre eles, a Arábia Saudita, o Catar, os Emiratos Árabes Unidos, o Kuwait e a Jordânia —, que devem cessar imediatamente”. Mas não inclui nenhuma condenação à ação militar norte-americana e israelita. No entanto, pede “contenção para evitar uma escalada” e preservar a paz, “em linha com a Carta das Nações Unidas”.
Já Espanha foi mais dura com os Estados Unidos, embora lançando críticas a ambas as partes: o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, criticou a “operação militar unilateral” dos Estados Unidos e de Israel, alegando que levará a uma “escalada e contribui para uma ordem internacional mais incerta e hostil”. E condenou também as “ações do regime iraniana e da Guarda Revolucionária”. “Não podemos permitir outra guerra prolongada e devastadora no Médio Oriente. Exigimos a desescalada imediata e o pleno respeito do direito internacional.”
Outros aliados norte-americanos foram mais claros no seu apoio às ações de Donald Trump: na Austrália, o primeiro-ministro, Anthony Albanese, disse que o país apoia os Estados Unidos no seu esforço para impedirem o Irão de obter uma bomba nuclear, classificando a liderança iraniana como uma força de instabilidade. A Austrália já tinha, em agosto, cortado as relações diplomáticas com o Irão e expulsado o seu embaixador, depois de ter acusado o país de orquestrar dois ataques antissemitas em território iraniano.
“O Irão realizou pelo menos dois ataques em solo australiano em 2024. Estes atos terríveis, que visavam a comunidade judaica da Austrália, tinham como objetivo criar medo, dividir a nossa sociedade e desafiar a nossa soberania”, detalhou Albanese, justificando assim a posição australiana.
Também o Canadá expressou o seu apoio, pela voz do primeiro-ministro, Mark Carney, que acusou o Irão de ser “a principal fonte de instabilidade e terror em todo o Médio Oriente”.
As críticas aos EUA: “O pacificador mostrou as verdadeiras cores”
Como seria de esperar, a Rússia criticou duramente as ações dos Estados Unidos, considerando, através de uma declaração do ministério dos Negócios Estrangeiros, os ataques “um ato de agressão armada pré-planeada e não provocada contra um membro soberano e independente das Nações Unidas”, acrescentando que os Estados Unidos se “escondem atrás” da suposta preocupação com o programa nuclear do Irão para, na verdade, tentarem deitar abaixo o regime.
Nas redes sociais, Dmitry Medvedev, antigo presidente da Rússia e vice-presidente do Conselho de Segurança do país, reagiu ao ataque com críticas aos Estados Unidos e a Trump: “O pacificador mostrou novamente as suas verdadeiras cores. Todas as negociações com o Irão são um encobrimento. Ninguém duvidou disso. Ninguém queria, na verdade, negociar o que quer que fosse. A questão é quem tem a paciência para esperar pelo fim sem glória do seu inimigo”, lê-se na reação.
Também a China defendeu o Irão, cuja “soberania, segurança e integridade territorial” deve ser respeitada, disse o ministério chinês, garantindo que o país está “altamente preocupado” com a situação e pedindo um regresso às negociações.
Quem se disse “consternado” com os ataques foi o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, que tem, nos últimos dias, mediado das negociações de um acordo nuclear entre Irão e Estados Unidos. “Negociações sérias e ativas foram uma vez mais minadas”, criticou, acrescentado que estes ataques não contribuem para ” os interesses norte-americanos” nem para “a paz global”. “Rezo pelos inocentes que vão sofrer. Apelo aos Estados Unidos que não se deixem arrastar ainda mais. Isto não é a vossa guerra”, escreveu Badr Albusaidi nas redes sociais.
Como também seria expectável, o tanto o Hezbollah como o Hamas vieram criticar os ataques norte-americanos, com o grupo palestiniano a condenar as “hostilidades sionistas-americanas contra a República Islâmica”, escreve o The Times of Israel. O grupo apelou à unidade do mundo muçulmano, depois de o Irão ter atacado países árabes aliados dos EUA na região do Golfo, e acusou os Estados Unidos e Israel de tentarem “estabelecer um ‘Grande Israel’ à custa de terras árabes e muçulmanas”.
A Turquia também reagiu, pedindo a todas as partes envolvidas neste conflito que cessem os ataques “imediatamente” e oferecendo-se para apoiar esforços de mediação que levem ao fim das hostilidades.