Quando fizeram o primeiro projeto de autor, um restaurante vegano chamado Tolstói, em Viena, na Áustria, Patrícia Gomes e Luís Lima depararam-se com um problema muito comum na construção civil: o entulho. “Nós estávamos à procura de materiais sustentáveis para o projeto e tentámos manter o máximo possível do espaço mas demolir o menos possível”, conta ao Observador a arquiteta, que já trabalhava com o parceiro na capital austríaca há seis anos. “Mas quando chegámos aos trabalhos de demolição, para ver como é que estava o espaço, vimos a quantidade de resíduos que geramos. De demolições mínimas. E tivemos aqui um momento de clash, de questionamento.”
Foi desta inquietação que nasceu a Matterpieces, uma marca portuguesa que transforma resíduos de demolição em revestimentos high-end. Um projeto com a missão de “redefinir a construção ao abraçar a circularidade”, combatendo uma indústria que é responsável por um terço de todo o lixo gerado no mundo. Embora a marca tenha sido lançada oficialmente em novembro de 2024, o seu percurso começou a ganhar forma em 2022, potenciada pelo combustível criativo vindo do outro lado do Atlântico.
▲ Patrícia Gomes e Luís Lima são os fundadores da Matterpieces
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Depois dos seis anos como arquitetos em Viena, os dois decidiram mudar de vida mais uma vez e regressar a Portugal — mas antes embarcaram numa viagem para a América do Sul. “A intenção era fazer um mochilão, mas a pandemia veio e tivemos que ir embora. Mas ainda fomos para o Brasil por dois meses e explorámos muito a parte natural. Nessa altura já fazíamos documentação de texturas dos locais, mas sem ter noção do que é que estávamos a criar. Sempre trabalhei muito com materiais e sempre fui muito seduzida pelos materiais e pela materialidade, e buscávamos muito inspiração na natureza”. Entretanto a Covid-19 chegou para interromper os planos de Luís e Patrícia, que se viram obrigados a terminar o “mochilão” e voltar para casa. “Na altura em que chegámos cá tivemos tempo para pensar. Até nem tínhamos trabalho, estávamos em transição, estávamos na casa dos nossos pais, e começámos a pensar como é que poderíamos começar a pensar nisto mais a sério. Apoderámos dos espaços de garagem e terraços dos nossos pais e começámos a experimentar”.
▲ Patrícia e Luís foram para a garagem dos pais fazer experimentos e criar as pedras a partir de entulho
Passaram a recolher entulho diretamente das obras — telhas, cimento, tijolo e vidro — e partiam tudo à mão para perceber como as cores e grãos se comportavam. “Tínhamos, criado uma network online com amigos da Engenharia de Materiais e do Centro de Valorização de Resíduos da Universidade do Minho. Portanto, para perceber aqui como é que isso podia funcionar, começámos a misturar com cimento, com ecocimento, com pós de resíduos, pós de pedra. Fizemos aqui umas misturas, umas experiências. Entretanto, das amostras que fizemos em casa, passamos para a obra — em projetos nossos de arquitetura, começámos a aplicar em bancadas de cozinha, azulejos, usávamos até portas partidas para criar os moldes das bancadas de cozinha e fazíamos tudo em obra.” Na altura Luís e Patrícia trabalhavam juntos no Ateliê de Arquitetura Studio 8. “Percebemos que gostávamos do resultado, e havia amigos nossos arquitetos interessados em aplicar o material. E percebemos também que este projeto só fazia sentido se tivesse o impacto que a indústria precisa. Porque a indústria não precisa da reutilização de quilos, precisa da reutilização de toneladas. E foi aí que começou mesmo a sair o nosso percurso da Matterpieces.”
▲ O primeiro projeto da dupla com a Matterpieces foi uma bancada de cozinha
Incubados pela Casa do Impacto, o pólo de empreendedorismo e inovação social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foram dois anos e meio a fazer contactos com empresas de demolição e de gestão de resíduos e parceiros, como a Costa Almeida Ambiente e a Zircom, e a produtora de materiais de Aveiro, a RMC, onde os blocos de “pedra” são criados. Em 2025 a dupla participou no programa LX Circular, organizado pela Unicorn Factory e pela Impact Hub, e ficaram em primeiro lugar. E agora preparam-se para promover o evento The Next Step is Circular, em parceria com a Mota Engil, no Porto. “Também faz parte da marca criar awareness, não é? Consciencializar a circularidade na construção.”
Os revestimentos aplicados nos projetos têm aspetos diferentes. Alguns com pontos mais marcados em tons terrosos, denunciam a presença de resíduos de tijolos. Outros apresentam um acabamento de névoa, resultado da injeção do pó sobrante da trituração. “Nós produzimos um bloco gigante, que depois é fatiado numa máquina em chapas. Portanto, é como se fosse uma pedra gigante que é fatiada. E depois, essas chapas são cortadas em ladrilhos, ou numa bancada de cozinha, ou a forma que quiser. Nós tentamos sempre não ter sobras, mas com as sobras, nós fazemos amostras.” O produto final é, na verdade, “um compacto de vários tipos de materiais. Vão desde paus de pedra, grãos de pedra, grãos de resíduos de demolição, paus de resíduos de demolição. E tem 5% de resina. É o mínimo que conseguimos para ter a dureza e a durabilidade que precisa”, explica Patrícia. “Nós já conseguimos incorporar 5 toneladas de resíduos, pelo menos”, destaca a fundadora da marca, que diz que um dos modelos desenvolvidos atingiu mais de 60% de resíduos de demolição, junto aos resíduos de pedreira reaproveitados pela empresa de produção.
▲ A marca já conseguiu criar produtos com mais de 60% de resíduos na composição
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Além do catálogo standard, que pode ser aplicado em diferentes projetos de arquitetura, seja em pavimentos, revestimentos ou mobiliário, a marca oferece o serviço Matterpieces Exclusive, onde transformam os resíduos de uma demolição específica em novos materiais, que voltam para o mesmo edifício, conferindo-lhe uma espécie de “memória geológica” — e que já está em curso num projeto na Trindade, no Porto. Estão também disponíveis peças específicas, como mesas de jantar, desenhadas pela própria marca ou em colaboração com designers. O preço posiciona-se numa “linha média-alta”, começando nos 67,5€ por metro quadrado, uma escolha deliberada para garantir a “democratização do acesso a materiais sustentáveis”sem os confinar a um nicho inacessível.
▲ A partir dos revestimentos é possível criar bancadas, pavimentos e também móveis
O próximo passo é levar a ideia da circularidade a projetos maiores, sem nunca esquecer de onde vieram. Os projetos manuais, iniciais, marcaram-me imenso. Porque foram projetos em que nós estivemos realmente a experimentar, e foi tudo muito intenso”, destaca Patrícia. “Já experimentámos a aplicação. Estamos a aplicar em projetos mais pequenos. Agora é a parte mesmo de começar a saltar de escala para projetos maiores. Fazer mais parcerias, criar novos produtos, que estamos a fazer em consórcio com empresas. Para realmente dar o salto.”