Mafalda Guerra Livermore desfiliou-se esta quarta-feira do Chega, na sequência da polémica suscitada por uma reportagem que revelou que esta arrendava casas sem condições de habitabilidade e sem recibo a imigrantes sem documentos. Foi a própria Livermore, namorada do vereador do Chega na Câmara de Lisboa (CML), a anunciar a sua saída do partido, numa publicação privada nas redes sociais a que o Observador teve acesso.
Sem abordar diretamente a polémica na sua mensagem de desfiliação, a ex-administradora dos Serviços Sociais da Câmara de Lisboa (SSCML), lamentou os “momentos negativos” que a “prejudicaram em várias vertentes” da vida. “Esta decisão não foi tomada de ânimo leve. Resulta de um processo de reflexão profunda, tanto a nível político como pessoal”, afirma, acrescentando que este é o ponto final da sua “vida política ativa”. Apesar disso, Livermore termina o anúncio de desfiliação com juras de lealdade ao partido: “Serei Sempre Chega!”.
O caso Livermore criou mal-estar dentro do partido com Rita Matias a ir ao ponto de pedir que Bruno Mascarenhas se demitisse do executivo municipal de Lisboa. “Se vêm para um partido que é contra a imigração ilegal, contra redes de tráfico humano e exploração ilegal de imigrantes, que não garantem a mínima dignidade, então o nosso discurso anti-imigração descontrolada não é anti-humanista. Acho absolutamente condenável”, disse a deputada e dirigente nacional no sábado.
Antes da reportagem da RTP, a nomeação de Livermore para a administração de uma empresa municipal já teria causado mau estar no seio do partido — Rita Matias considerou-a “ridícula”, posteriormente. Tanto a direção nacional como a direção da concelhia de Lisboa do Chega negaram ter sido consultados relativamente à indicação da namorada de Mascarenhas como vogal da SSCML. Dias depois das críticas de Rita Matias, foram os deputados municipais de Lisboa a apontarem a porta de saída a Mascarenhas. Ainda esta quarta-feira, o vereador lisboeta disse que André Ventura lhe garantiu que “não vai propor a sua saída” do Chega.
Por sua vez, Mafalda Livermore desfilia-se agora do partido, mesmo tendo garantido na terça-feira que o presidente do Chega estava do seu lado. “Falei com ele [e ele disse] que tenho todo o direito a me defender. Eu expliquei a minha versão dos factos e ele acredita em mim”, disse em entrevista à CMTV. Antes, classificou Ventura como o seu “ídolo”, dizendo ter “uma boa relação com ele.”
A desfiliação ocorre menos de duas semanas após ter sido exonerada de funções pelo presidente da CML, que a tinha nomeado como vogal da SSCML no início do mandato autárquico. Carlos Moedas justificou a exoneração com “uma quebra de confiança institucional”, resultante da reportagem da RTP, que também revelou que Livermore se fez passar por advogada, apesar de não ter concluído o curso de Direito.
A nomeação desta militante do Chega, candidata autárquica a Lisboa nas últimas eleições, gerou críticas logo no momento da seu anúncio. A escolha foi interpretada pela oposição como o resultado de uma negociação entre o presidente da CML e Mascarenhas, mas Carlos Moedas afirmou que “eventuais questões partidárias ou políticas não tem qualquer relevância” e que “o único critério utilizado nas escolhas realizadas é o da competência”.
Ao contrário de Moedas, Mascarenhas trouxe para a discussão a cor política de Mafalda Guerra Livermore, na altura da nomeação, dizendo que “já não há linhas vermelhas às pessoas do Chega, desde que as mesmas tenham qualidades”. Desde que a polémica rebentou, o vereador tem defendido sempre a namorada, considerando inclusivamente que a notícia da RTP é uma “encomenda vergonhosa” resultante de “invejas internas”. Já o presidente da Câmara não admitiu, até hoje, que a indicação da namorada do vereador do Chega tenha sido resultado de negociação com este último.