O atual momento de reconstrução que o Manchester United atravessa tem destas coisas. Houve final da Taça da Liga inglesa, a paragem para compromissos para seleções, depois jogos da Taça de Inglaterra, o regresso das provas europeias, só de seguida a Premier, um encontro relegado para segunda-feira no fecho da ronda. Contas feitas, os red devils estiveram três semanas sem qualquer compromisso em abril, aquela fase em que todas as decisões chegam. Podia ser bom, podia ser mau, seria de certeza aquilo que Bruno Fernandes “quisesse” tendo em conta os três golos e oito assistências em dez jogos realizados com Michael Carrick no comando da equipa. Mais do que nunca, grande parte daquilo que a equipa conseguia fazer passava pelos pés do internacional português, que esteve em destaque também na Seleção. E tudo numa altura em que ainda não é conhecido o futuro do jogador de 31 anos em Old Trafford apesar de toda a especulação existente.

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Se fosse por Carrick, não havia dúvidas: não só ficava como ganhava o prémio de Melhor Criador da Premier League. “O impacto que ele tem tido no grupo durante um longo período é impressionante em vários aspetos. Está sempre disponível, tem uma atitude fantástica e entende perfeitamente o que significa jogar aqui. Manter esse nível de desempenho consistentemente, não só esta época, mas durante muito tempo, é uma grande mais valia para o clube. Tem estado fantástico desde que voltei, por isso, sem dúvida, merece estar entre os principais candidatos a estes prémios”, salientou o técnico. “Agora pode parecer estranho mas gostava mesmo que o Michael Carrick ainda estivesse a jogar. Ele treinava connosco, muitas vezes na posição 6 a colocar a bola entre as linhas com uma precisão incrível. Era fantástico”, admitiu o médio português.

Essa passagem de Bruno Fernandes pelo programa “Men in Blazers” não foi a única nos últimos dias, com a entrevista ao The Times a abrir mais o ângulo em relação ao futuro. “Todos os que vêm para o Manchester United querem ganhar troféus. Ninguém vem para cá a pensar ‘Ok, vamos lutar por ganhar uma ou duas taças em seis anos’. Queremos lutar por todos os títulos. Fomos a mais três finais que não conseguimos de seguida ganhar mas são coisas que acontecem, ao menos estivemos perto, estivemos na luta. Aquilo que digo ao clube sempre que falamos é que a única coisa que quero é apenas competir porque se competir estou mais perto de ganhar. As expetativas passam sempre por ver o United a lutar pela vitória na Premier League. Sei que as pessoas pensam ‘Vais para lá para ganhar mais dinheiro, para teres um contrato melhor’. Não, nós vimos para o United porque queremos ganhar títulos. Dinheiro, podemos ganhar em muitos lados, quando chegamos a um clube como estes é pela história, pelo que achamos que podemos conquistar”, frisou.

Maior declaração de amor era impossível. Quando alguns falam sobre o verdadeiro local onde o capitão deve ser colocado em termos de história do clube, são entrevistas como estas que adensam aquilo que na verdade é a opinião dominadora: Bruno Fernandes foi muito importante desde que chegou, conseguiu tornar-se ainda mais importante pela forma como agarrou sempre na equipa até nos piores momentos e só não está num patamar mais importante ainda porque lhe faltam os títulos que outras figuras do United foram alcançando sobretudo nos tempos de Alex Ferguson. O que falta? Quase tudo o resto. E a receção ao Leeds, naquele que foi durante décadas o maior duelo entre vizinhos em Inglaterra, voltou a mostrar isso mesmo.

Pior início seria impossível para o United no Clássico das Rosas. Aliás, tudo o que podia correr mal, correu ainda pior: demasiada permeabilidade defensiva, incapacidade de entrar em ataque organizado no último terço, erros sem bola gritantes numa estratégia que passou completamente ao lado daquilo que são todas as características que definem o Leeds de Daniel Farke. Não foi pelos jogadores, com Mazraoui, Yoro e Ugarte a serem titulares em vez de Diogo Dalot, Maguire e Mainoo (Bryan Mbeumo começou também no banco, neste caso pela aposta em Sesko em busca de uma referência mais posicional na frente), foi pelo plano de jogo. E os visitantes, que conseguiam “secar” grande parte do raio de ação de Bruno Fernandes com a colocação de Struijk, central pela esquerda, mais posicional nos terrenos do português, só tinham depois de aproveitar na frente todas as fragilidades recuadas dos red devils jogando por fora para finalizar na área.

Os dois golos de vantagem ao intervalo até foram curtos perante o que se foi vendo. Dominic Calvert-Lewin viu Lammens ter uma intervenção fantástica por instinto logo nos minutos iniciais num desvio na pequena área mas o primeiro golo não iria demorar: jogada de envolvimento na direita com cruzamento de Jayden Bogle, Calvert-Lewin a não conseguir desviar de cabeça mas Okafor, de primeira, a atirar para o 1-0 (5′). Amad Diallo ainda teve um remate com perigo após um grande passe de Casemiro aproveitando o espaço que ficava na defesa do Leeds quando Struijk subia para encaixar em Bruno (12′) mas era o Leeds que fazia o que queria do jogo, aumentando a vantagem num grande remate de Okafor perante a passividade de todos os elementos do United (29′). O 2-0 até foi quase um mal menor, depois de um lance em que Mazraoui impediu na pequena área que Calvert-Lewin encostasse para o golo e de outro em que a zona de pressão alta dos whites ganhou a bola à entrada da área mas Lisandro tirou em cima da linha o golo a Tanaka (45′).

Algo teria de mudar. Sesko, na primeira vez em que conseguiu ganhar espaço na área com um bom trabalho individual, permitiu a defesa a Karl Darlow naquela que foi a melhor oportunidade do conjunto da casa em todo o encontro (48′). Estava dado o mote que seria depois atenuado por mais uma daquelas atitudes que têm custado caro ao Manchester United: sem qualquer necessidade e num lance em que também estava a ser puxado, Lisandro Martínez agarrou Calvert-Lewin pelo cabelo e, após revisão VAR, foi expulso com vermelho direto (56′). Se o Leeds já estava por cima, a vantagem numérica com mais espaço ainda para fazer transições colocava tudo na mão dos visitantes para chegarem a uma vitória fulcral na fuga à descida. numa época em que a equipa joga bom futebol mas tem nas partidas fora um calcanhar de Aquiles. E os adeptos percebiam isso, começando a cantar “olés” nos maiores momentos de posse. Aí, foi um erro…

O Manchester United estava fora do jogo mas sentiu o orgulho ferido perante aquelas provocações dos rivais. Com mais coração do que cabeça, com períodos de total anarquia tática, com muito risco a partir de forma deliberada o jogo para ganhar os espaços que escasseavam, Matheus Cunha obrigou Karl Darlow a uma grande defesa para canto na sequência de um passe longo na profundidade de Luke Shaw (64′) mas o 2-1 não iria demorar, com Casemiro a corresponder da melhor forma ao segundo poste a mais uma assistência só ao alcance dos melhores de Bruno Fernandes (69′). A partida estava relançada, com o United melhor com dez pela forma como Casemiro era central sem bola mas médio em posse, conseguindo equilibrar dentro do possível a luta no meio-campo. Calvert-Lewin ainda teve uma oportunidade flagrante travada por Lammens em cima da linha (78′), Matheus Cunha ameaçou na área para defesa segura de Darlow (80′), Sesko teve mais uma oportunidade flagrante travada pelo guardião contrário (83′), Calvert-Lewin impediu o bis de Casemiro em cima da linha (84′) mas o resultado não voltaria a mexer para nova derrota do United.