“Quem não acreditar, pode ficar em Madrid”. Contra um histórico onde não se conseguia encontrar sequer uma passagem na Liga dos Campeões depois de uma derrota em casa na primeira mão (a única ocasião em que houve remontada foi para a Supertaça Europeia, em Innsbruck), contra uma equipa que venceu todos os cinco encontros europeus realizados na Allianz Arena com um total de 16-3 em golos, contra a tradição de cair em Munique frente ao Bayern depois de empatar ou perder no Santiago Bernabéu no encontro inicial, o discurso de Álvaro Arbeloa era o possível – e se fosse como os anteriores pouco ou nenhum efeito teria na sua equipa, tendo em conta as três partidas consecutivas sem vitórias entre Champions e Liga. Sem argumentos para mais, a tendência caía na única coisa que ainda podia colocar tudo em perspetiva: o peso na Europa.

Mbappé evitou o KO entre a derrota aos pontos: Bayern vence em Madrid mas Real ainda tem uma vida extra

“Somos o Real Madrid, acreditamos que vamos ganhar. Precisamos de melhorar muitas coisas para criar mais ocasiões e marcar mas a primeira razão que temos para passar é porque somos o Real Madrid, somos a equipa que nunca se rende e a equipa das 15 Liga dos Campeões no historial”, recordava o técnico da equipa da capital espanhola, quase tentando puxar para o terreno de jogo aquela espécie de fantasma que assombra os adversários no momento da verdade, como aconteceu com PSG, Chelsea e Manchester City em 2022, com o próprio Bayern em 2024 e tantas outras vezes nas caminhadas europeias. “Esse tipo de histórias para mim não é real, todas as equipas nesta competição podem contar histórias boas de algo incrível que um dia conseguiram também alcançar no seu percurso”, ia respondendo Vincent Kompany, treinador do Bayern.

Se havia equipa capaz de ganhar na Allianz Arena era o Real Madrid, que desde 2008 levava três triunfos no recinto dos bávaros em encontros a contar para a Liga milionária. No entanto, o contexto atual não poderia jogar mais contra. Os espanhóis praticamente abdicaram de vez da Liga com uma derrota em Maiorca e um empate caseiro com o Girona que deixaram o Barcelona como nove pontos de avanço a sete jornadas do fim e tinham na Champions a derradeira oportunidade de terem algo para lutar até ao final de uma temporada que até agora era para esquecer mas partiam em desvantagem por 2-1, tinham pela frente um adversário que não perdia desde janeiro e levava uma série de 13 vitórias e dois empates, e ainda procuravam as melhores versões daquelas que deveriam ser as principais referências, com Mbappé, Vinícius Jr. e Bellingham à cabeça.

“Milagre? Não creio que tenhamos de fazer nenhum milagre. Se no outro dia ganhássemos, não era nenhuma loucura. O melhor do Bayern no primeiro jogo foi o guarda-redes. Ninguém que conheça o Real pensa que ganhar na Alemanha é um milagre. Não sei quantas equipas no mundo podem dizer que ganharam 15 vezes a Champions. Passei a semana inteira a cruzar-me com adeptos que me dizem que vamos dar a volta e, com isso, acreditamos que vamos ganhar”, destacara Arbeloa. “O que pode decidir? Tantas coisas… Podemos falar de qualidades individuais, do coletivo, da intensidade, do compromisso, da capacidade de sofrimento. Até um árbitro pode decidir, algo que espero que não aconteça. Joguei aqui como adversário e sei o que este estádio pode fazer. Ganhar no Bernabéu dá confiança mas agora temos de confirmar no Allianz Arena. Muito entusiasmo? Não se deve dar muita importância, nem o Bayern era o pior há dois anos, nem o melhor agora”, respondia Kompany, numa antecâmara de uma semana que podia acabar com o título na Bundesliga.

As meias-finais e o duelo frente ao atual campeão europeu PSG estavam a 90 minutos de distância, com essa premissa de que apenas uma equipa tinha conseguido passar na Allianz Arena em 2025/26 entre 18 vitórias em 20 jogos: o Augsburgo, que surpreendeu os líderes da prova com um triunfo por 2-1 em janeiro que era ainda a exceção à regra entre uma média de 3,5 golos marcados por jogo. Agora, essa média até acabou por ser reforçada, com um triunfo carimbado nos descontos com quatro golos numa fase em que aquele futebol que parece bilhar veio ao de cima. Antes, parecia hóquei. E, com toda a legitimidade, o Real Madrid sonhou com a passagem perante as três vantagens que teve no primeiro tempo. Podia ter caído para um lado, podia ter caído para o outro e acabou por ser o vermelho por acumulação a Camavinga a “decidir” o resto.

A primeira parte teve algumas grandes defesas de Neuer e Lunin, outras oportunidades desperdiçadas, mas ficou resumida sobretudo a um hino ao futebol com cinco golos entre a melhor versão coletiva do Real e a pior face do Bayern em termos defensivos. Literalmente, houve parada e resposta: Arda Güler inaugurou o marcador logo aos 35 segundos após um erro colossal de Neuer com os pés (1′), Pavlovic empatou depois de outro erro gigante de Lunin na pequena área na sequência de um canto (6′), Güler bisou num livre direto descaído de forma ligeira para a direita que foi ao ângulo mas que voltou a deixar o guarda-redes alemão mal na fotografia (29′), Harry Kane fez o 2-2 após uma grande saída com bola controlada e assistência do central Upamecano (38′), Kylian Mbappé recolocou os espanhóis na frente do marcador concluindo isolado na área uma grande saída em transição conduzida por Vinícius Jr. (42′). Tudo empatado.

E não se pense que a segunda parte foi pior, nada disso. O que faltou? Por um lado, eficácia na hora de visar a baliza. Por outro, as mesmas facilidades dos guarda-redes, que após o intervalo mudaram o chip para terem um papel decisivo na eliminatória ao fazerem perdurar no tempo o 3-2. Mbappé obrigou Neuer a uma defesa gigante, Vinícius Jr. teve também oportunidade para marcar, Luis Díaz e Olise viram Lunin brilhar na baliza contrária. A eliminatória podia cair para qualquer um dos lados naquele que foi mais um bom jogo do Bayern contra um Real que fez dos melhores encontros da temporada mas o vermelho por acumulação a Camavinga apenas 26 minutos depois de ter sido lançado (86′) acabou por deitar por terra a resistência dos merengues, que quebraram, sofreram de forma cruel dois golos nos minutos finais por Luis Díaz (88′) e Olise (90+4′), foram eliminados e acabaram… a protestar de forma veemente em cima do árbitro.