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"É muito difícil conseguir um bom cinto que não esteja a matar vacas ou intoxicar pessoas". Como Stella McCartney quer mudar a fast fashion

Na segunda colaboração com a H&M, Stella McCartney vai pelo "se não os consegues vencer, junta-te a eles." Traz clássicos de arquivo, como o top Rock Royalty, e quer democratizar a moda sustentável.

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▲Stella nos bastidores do desfile na Paris Fashion Week, que teve tema equestre e decorreu na Le Grand Manège Jean Caucanas

Dave Benett/Getty Images for Ste

▲Stella nos bastidores do desfile na Paris Fashion Week, que teve tema equestre e decorreu na Le Grand Manège Jean Caucanas

Dave Benett/Getty Images for Ste

A 10 de novembro de 2005 cerca de 400 lojas da H&M em 22 países abriram portas para milhares de pessoas que se aglomeravam em longas filas do lado de fora, e que vinham tentar comprar pelo menos uma peça da nova coleção da marca de fast fashion com uma grande designer: Stella McCartney. Era a segunda colaboração do tipo até então, depois da gigante da moda se ter juntado um ano antes com Karl Lagerfeld. E o sucesso repetiu-se: ao fim de algumas horas, em alguns casos minutos, todas as criações já estavam esgotadas. De acordo com a WWD, em Nova Iorque eram mais de 800 pessoas à porta; nos primeiros 10 minutos de abertura das lojas de Londres as prateleiras tiveram que ser repostas três vezes; e em Paris pelas 15h já não havia nada no estoque. Passados mais de 20 anos, as novas gerações vão ter a oportunidade de viver o mesmo frenesim. E a própria Stella McCartney promete estar na fila. “As pessoas pensam que eu vou estar muito ocupada a fazer um sapato vegan louco”, ri-se a designer, que fez o seu nome à frente da Chloé e em 2001 criou a sua própria etiqueta, prometendo não usar pele ou qualquer material de origem animal. A designer, que é filha de Paul e Linda McCartney, é hoje considerada pioneira ao incluir práticas e materiais sustentáveis na indústria da moda de luxo. E a 7 de maio, lança a sua nova coleção para a H&M, desta vez uma espécie de compilado das suas melhores peças.

Stella McCartney falou sobre essa nova colaboração numa conferência de imprensa digital com a imprensa internacional, na qual o Observador participou. A designer brinca que tem vontade de se disfarçar para entrar na fila de uma loja e ver e ouvir o que se fala nos provadores, enquanto as pessoas experimentam as peças: “Vou pôr uma peruca, barba, óculos…”. Mas brincadeiras à parte, destaca que o objetivo da nova coleção é mesmo levar a moda consciente aos que não viveram o boom dos anos 2000. “Quero que um público jovem e maior tenha acesso às minhas roupas”, destaca a designer. “Odeio o quão elitista é a minha indústria. Odeio que trabalhar de forma sustentável, com fontes melhores, que criar cogumelos para fazer couro, faça as minhas roupas serem mais caras”, diz ainda, afirmando que ouve “o tempo todo: ‘adoro as tuas coisas mas não as posso pagar’. Isto parte-me o coração. Essas só não são peças mais baratas porque a sustentabilidade custa“, afirma McCartney, que classifica a sua coleção como uma espécie de investimento. “Uma das coisas boas é o facto de a primeira coleção ter vendido tão rápido. E hoje o preço de revenda é maior. Ou seja, podes comprar fast fashion e fazer dinheiro.”

As “estrelas da Stella”: cristais, alfaiataria fluida e a Rock Royalty

À parte do preço mais acessível, McCartney promete peças duráveis, gender fluid e versões do seu arquivo. Assume que o processo de criação da primeira coleção “foi muito mais difícil”, e que agora procura alguns dos códigos da própria marca, as chamadas “estrelas da Stella”, como os cristais (com 80% de vidro reciclado) e a alfaiataria de ombros marcados, em peças que transitam entre os guarda-roupas feminino e masculino. “Isto vai durar. Queria que estes designs sobrevivessem. O seu futuro namorado pode roubá-las”, brinca, afirmando estar por trás do styling de cada look: “Sou uma das poucas designers mulheres nos dias de hoje. Gosto de experimentar e fazer com que a vida seja mais fácil, tenho empatia”.

O público pode contar, por exemplo, com uma versão da icónica T-Shirt Rock Royalty, com a qual apareceu ao lado de Liv Tyler na Met Gala de 1999, que tinha como tema “Rock Style”. “Fui convidada para a Met Gala há mil milhões de anos — eu nem sabia bem o que era na altura. E liguei à minha amiga, Liv, literalmente um dia antes e disse: ‘Queres ir a este evento comigo?’. E ela respondeu: ‘Sim, o que é?’ Eu disse: ‘Não sei bem, mas vamos dar umas gargalhadas.’ Fui a uma loja na Little Italy, em Nova Iorque, e arranjei um monte destas, que chamamos agora “wife lovers”, um pacote com três. E disse: ‘Posso pôr aqui umas tachas’. E escrevi “rock royalty””, recorda. “Depois, arranjei o cabelo e a maquilhagem e vesti umas calças. Então fui buscar a Liv e ela estava… Eu fiquei tipo, o que é que estás a fazer? Estava com cabelo e maquilhagem impecáveis“, ri-se a designer. “Quer dizer, se olharem para as minhas fotos, eu literalmente… Era muita pressão. O meu cabelo estava muito mau. E arrasámos! Fomos capa de tudo, foi muito engraçado“, conta. “O meu momento mais orgulhoso foi quando fomos disfarces de Halloween naquele ano”, brinca a designer. A peça foi mesmo um sucesso que continua: a marca de McCartney lançou o top em 2022, que está atualmente à venda por 595 euros na loja online — e agora chega à rede de fast fashion por um valor muito abaixo.

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▲ Liv Tyler e Stella McCartney no Met Gala de 1999, que tinha como tema "Rock Style". Uma versão do top Rock Royalty faz parte da nova coleção para a H&M

Corbis/VCG via Getty Images

A coleção também vai buscar o modelo Falabella, a linha vegan de carteiras lançada pela designer em 2009, adaptada também para um cinto, tal como a própria designer o fez há alguns anos. De acordo com McCartney, a versão da H&M tem argolas compostas por 95% de alumínio reciclado. Entre as peças também está uma versão do clássico fato oversized cinza, um coordenado de camisa e calças com glitters feitos com vidro reciclado, um vestido vermelho de noite.

McCartney quer “infiltrar-se” na fast fashion para “mudar o diabo”

Ao lado da designer sueca Ann-Sofie Johansson, creative advisor da H&M, Stella McCartney explica que aceitou esta segunda parceria “porque vi que usaram aquilo para evoluir”. A responsável pela marca concorda: “É uma coleção para mostrar o progresso que fizemos durante esses 20 anos. Stella inspirou-nos a ser melhor. Por exemplo: começámos a usar algodão biológico, e hoje todo o algodão usado é reciclado e biológico, ou de fontes melhores.” Para McCartney, é possível “fazer mais e melhor”, e com as parcerias com a gigante do fast fashion, quer “infiltrar-me por dentro e falar com pessoas que são como o diabo, num certo sentido, e depois tentar transformá-las para que adotem uma forma de trabalho mais limpa e consciente.”

Mas, é claro, há 20 anos houve alguma dúvida. “No todo tendia a dizer que não, porque não é o tipo de parceiro que tenha o mesmo sistema de crenças ou padrões que o meu trabalho“, reconhece. “Tinha uma lista de exigências para a sustentabilidade, com os quais não faria” a coleção, afirma a designer. Entre as exigências, o uso de materiais que não sejam de origem animal e a aposta em processos sustentáveis e ecológicos. “Não há animais mortos, nem ossos que vão na cola, não há plástico, não há tóxicos usados para tingir couro. É muito difícil conseguir um bom cinto que não esteja a matar vacas ou intoxicar pessoas”. McCartney também destaca como esta parceria colocou fornecedores em contacto com uma gigante como a H&M. “Quero providenciar oportunidades de negócios”, destaca. “Tem muito significado quando a H&M faz um pedido, pode ser uma mudança de vida para um profissional inovador“.

Outra exigência da designer tem a ver com a educação. A nova coleção tem como objetivo também promover literacia no universo fashion, destacam as duas designers, dando como exemplo o hábito de ler rótulos e perceber a composição dos tecidos. “Queria factos nestas etiquetas. Quero que qualquer pessoa que pegue nestas peças, mesmo que nem saiba o significado da palavra sustentável, leia e questione-se: ‘espere, isso é poliéster reciclado. E quando vou a outra marca de fast fashion é só poliéster. O que isso significa?’”, assinala McCartney. “Não é preciso sacrificar o seu estilo para ser sustentável“, afirma. “Acho que ao comprar uma peça como esta, também é um statement sobre quem és e que escolhas estás a fazer como consumidor”.

Ao serem questionadas sobre qual é a peça preferida da coleção, Ann-Sofie destaca o trenchcoat, intemporal e clássico. Aliás, a designer sueca literalmente vestiu a camisola da marca, ao aparecer na conferência de imprensa com uma peça da coleção assinada por Stella McCartney em 2005 — um top que diz ter comprado há 20 anos, roubado do charriot de outra pessoa já dentro do provador. Já McCartney diz que também ainda tem as roupas da coleção, apesar de não estar a vestir nenhuma. Sobre a nova colaboração, não se quis comprometer com nenhuma peça: “Tenho um de cada, está no contrato, não preciso de escolher. Mas adoro as carteiras e os sapatos.”

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