O mercado laboral continua em rápida transformação e o modelo de trabalho híbrido é, hoje, uma realidade em Portugal, à semelhança do que se passa globalmente. Mas há um aspeto de que os trabalhadores portugueses não abdicam neste regresso ao escritório e que se prende com a flexibilidade conquistada nos últimos anos, que lhes permite conciliar o trabalho com a vida pessoal.
Da mesma forma, dimensões como o bem-estar, o reconhecimento e a experiência proporcionada pela presença física no escritório assumem agora uma grande relevância – podendo mesmo determinar a capacidade de atrair e reter talento.
Estas são algumas das conclusões do “Workforce Preference Barometer 2026”, um estudo realizado pela JLL em 31 mercados, incluindo Portugal, com um total de 8 709 inquiridos, dos quais 152 em locais de trabalho portugueses, 74% pertencentes ao setor privado e 26% ao setor público.
De facto, a possibilidade de balancear as exigências da profissão com as da vida pessoal assume atualmente uma enorme importância para os portugueses, com 71% dos inquiridos a apontá-la como máxima prioridade, à frente do salário e das garantias de saúde e bem-estar. De salientar que, embora Portugal mostre alinhamento com os valores registados globalmente (65%), a verdade é que as preocupações com este equilíbrio em Portugal são mais marcadas, mesmo em comparação com o que se passa na Europa, em que 66% referem a importância deste equilíbrio vida-trabalho.
Consolidação do trabalho híbrido
Em Portugal, cerca de dois terços dos trabalhadores estão sujeitos a políticas de presença obrigatória no escritório, mas isso não parece constituir um grande problema já que a grande maioria – 65%, mais concretamente – revela sentimentos positivos em relação ao regime híbrido. Ainda assim, esta aceitação nem sempre se traduz em conformidade, com a melhoria da experiência no local de trabalho a tornar-se um fator decisivo para justificar a presença no escritório.
Entre os motivos apresentados pelos trabalhadores portugueses para acolherem positivamente a deslocação ao local de trabalho contam-se a convicção de que não só trabalham melhor em equipa no escritório (42%), como preferem trabalhar presencialmente (35%), e sentem que este modelo é mais justo para todos os colaboradores (35%).
Já quanto às principais preocupações que estão na base dos sentimentos negativos associados ao trabalho presencial, destacam-se o receio de que a qualidade de vida seja afetada (59%), assim como a sua produtividade fique reduzida (44%). Ao mesmo tempo, 43% afirmam sentir-se desiludidos, por acharem que a empresa onde trabalham estaria mais comprometida com o modelo híbrido, e outros 43% revelam ter já organizado a sua vida em torno desse modelo misto.
Os locais de trabalho como fator de atração
Uma das conclusões mais relevantes desta pesquisa prende-se com o facto de a perceção de um bom ambiente de trabalho aparecer diretamente relacionada com a aceitação das políticas de presença no escritório. Ou seja, quanto mais um local for encarado como bom para se trabalhar, tanto mais os colaboradores aceitarão com satisfação ir ao escritório. Vejamos: 83% dos inquiridos que revelam estar satisfeitos com o seu local de trabalho têm uma visão positiva sobre as políticas de assiduidade no escritório. Já metade (50%) daqueles que não estão satisfeitos com o local onde trabalham acabam por ter uma visão negativa acerca das políticas de frequência do escritório.
Interessante é ainda perceber que um em cada dois trabalhadores portugueses acredita que a experiência proporcionada pelo escritório pode melhorar. Ao mesmo tempo, fica igualmente claro que os colaboradores que mais facilmente aderem às políticas híbridas são os que esperam um ambiente de trabalho focado e independente, além de que têm a expectativa de que o escritório promova bem-estar, apoie as reuniões com os clientes e seja um suporte da cultura da empresa. Portanto, o papel do espaço assume uma importância crescente como fator de atração para trabalho presencial que não deve ser ignorado.
Isto mesmo é realçado por Andreia Almeida, Head of Research da JLL Portugal, segundo a qual, “os colaboradores portugueses estão disponíveis para ir ao escritório – desde que isso melhore o seu dia a dia. Flexibilidade, equilíbrio e uma experiência de trabalho cuidada deixaram de ser benefícios adicionais e tornaram‑se elementos essenciais para atrair, motivar e reter talento em Portugal”. A responsável destaca ainda que o país acompanha a maturidade dos mercados europeus, mas evidencia exigências muito claras: “Melhorar a experiência no escritório, reforçar as condições de bem‑estar e investir em verdadeira flexibilização são hoje prioridades estratégicas. As empresas que o fizerem estarão mais bem posicionadas num mercado de talento altamente competitivo, onde o imobiliário assume um papel decisivo.”
Como melhorar a experiência no escritório
À semelhança do que se passa a nível global, os fatores que conferem maior satisfação aos trabalhadores portugueses relacionam-se com a segurança e proteção da localização do trabalho (73%), assim como os acessos existentes (64%). Não é, pois, de estranhar que os colaboradores em Portugal tenham em grande conta o percurso casa-trabalho, sendo mesmo o transporte gratuito ou subsidiado para o escritório o benefício que mais gostariam de ver satisfeito. Além disso, os serviços de saúde e de alimentação são também prioridades, o que evidencia uma preocupação com o bem-estar e o acesso a alimentos de qualidade.
Elevadas preocupações com saúde mental e bem-estar
Uma das maiores preocupações com que os empregadores se debatem atualmente, no auge do modelo híbrido, prende-se com o bem-estar e a saúde mental dos colaboradores, com particular destaque para a síndrome de burnout. Os resultados deixam esta preocupação bem evidente: quase 40% dos trabalhadores de escritório a nível global dizem estar esgotados ou em risco de desenvolver esgotamento profissional. A situação leva mesmo 57% a ponderar despedir-se.
Olhando para o caso português em concreto, vemos que o salário, o alinhamento com a estratégia e os valores da companhia, assim como o reconhecimento por parte dos superiores hierárquicos constituem os principais fatores de retenção considerados pelos colaboradores, sendo que 56% não consideram a sua empresa como um excelente local de trabalho, e 13% põem a hipótese de a deixar ao longo do ano seguinte.
Em relação à amostra do estudo, no caso de Portugal, as áreas tecnológicas representam a maior fatia (18%), seguidas por colaboradores do setor público (14%) e de empresas de serviços financeiros, banca e seguros (8%), com participação também de setores como consumo, energia, logística, automóvel, telecomunicações, transportes, saúde, educação e indústria. Lisboa concentra 56% dos inquiridos, seguida do Porto (29%), e cerca de metade dos participantes encontra-se na faixa etária dos 30 aos 50 anos.
Conhecer as preferências e expectativas dos trabalhadores em relação às organizações para as quais trabalham é fundamental, desde logo para melhor poder adotar políticas alinhadas, mas também para ajudar a repensar e redesenhar os próprios espaços físicos, com vista a valorizar a presença física no escritório. Uma vez que o modelo híbrido é consensual e a necessidade de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal assume a prioridade, escutar o colaborador é cada vez mais crucial, não só para o atrair, mas também para o conseguir reter.
Este artigo foi publicado no âmbito do projeto Rota Imobiliária, em parceria com a JLL: https://observador.pt/seccao/rota-imobiliaria/