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Com curadoria e eventos, ao ritmo do caracol, e para uma pausa nos ecrãs: 10 novas livrarias em Lisboa

Nos últimos sete meses, apaixonados por literatura abriram na capital portuguesa as portas dos seus negócios, que tentam chamar a atenção pelas recomendações personalizadas e espaços acolhedores.

A decoração, a programação cultural e a seleção de livros podem atrair ainda mais clientes
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A decoração, a programação cultural e a seleção de livros podem atrair ainda mais clientes

Fabian Talking/DR

A decoração, a programação cultural e a seleção de livros podem atrair ainda mais clientes

Fabian Talking/DR

Num momento em que grandes editoras apostam no mercado de ebooks e que a compra de livros em papel através da internet é muitas vezes mais barata que nas lojas físicas, espaços que abriram — ou se reinventaram — nos últimos sete meses em Lisboa tentam comprovar que ainda há leitores “analógicos”: aqueles que gostam de espreitar prateleiras, folhear páginas e conversar com os livreiros em busca de recomendações.

Um elemento em comum das livrarias abaixo indicadas é a sua característica pessoal: são pequenos negócios com donos que os acompanham de perto, a tentar destacar também pequenas editoras e autores independentes. Exatamente por essa característica, algumas delas não têm horários alargados de funcionamento. Mas nos momentos em que estão abertas, tentam oferecer aos seus clientes aquilo que nem sempre viam acontecer ou ganhar destaque nas suas concorrentes. Seja pela curadoria literária, pelas comodidades como jardim, bar e cafetaria ou a realização de eventos de nicho, estes negócios procuram diferenciar-se para atrair os leitores.

Gondwana

Av. Óscar Monteiro Torres 40a, 1000-219 Lisboa. De terça a sexta-feira das 11h às 20h e aos sábados das 10h às 19h.

A proposta desta livraria é desligar-se das redes sociais e passear pelas suas várias prateleiras com obras de autores do hemisfério sul. No espaço aberto em outubro no Campo Pequeno, os títulos não estão separados por secções, porque a proposta é mesmo que os clientes “viajem” através da curadoria de livros de países como África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Brasil e Argentina. O nome gondwana é uma referência ao supercontinente que há 600 milhões de anos incluía vários territórios do globo terrestre. E sendo o português — com todas as suas variações — a língua mais falada em todo o hemisfério sul segundo as Nações Unidas, há cá também livros portugueses. Este mês, a livraria deu início a um clube de leitura com autores de Moçambique, Chile e Brasil. Os participantes encontram-se naquele espaço em que funciona também uma pequena cafetaria com vinhos e petiscos. Mas, esqueça a ideia de ir para lá trabalhar com o computador ou telemóvel: o conceito cá é o screen-free, “pensado para leitores que procuram momentos tranquilos”, afirmam os donos no perfil do Instagram.

Os donos da Gondwana mantiveram na livraria elementos que remetem ao período em que ali funcionou uma pastelaria

DR

Lumaca

Estr. de Benfica 366A 1500-100 Lisboa. De terça e quarta-feira das 11h às 18h, quinta e sexta-feira das 11h às 19h e sábado das 10h às 13h.

Esta palavra, que significa “caracol” em italiano, reflete a ideia do espaço que assim foi intitulado: desacelerar. E apesar da inspiração vir deste idioma, há neste pequeno espaço aberto em novembro em Benfica livros vendidos em várias línguas, sendo o foco principal os álbuns ilustrados de pequenas editoras. Onde antes funcionava uma loja de ferragens, há agora livros e artigos de papelaria. Enquanto os adultos podem aproveitar um café com biscoitos e relembrar clássicos como Mafalda ou Babar, os miúdos têm o seu lugar numa secção de livros selecionados pelos filhos da dona, que têm quatro anos e foram a sua principal inspiração para abrir o negócio. Atividades em família estão na agenda da livraria, como a “hora do conto” e oficinas de tricot e encadernação.

Carolina Correia abriu uma livraria inspirada nas preferências literárias dos seus filhos

DR

Espaço Marian

Praça David Leandro da Silva 8 (Cuba 122), 1950-064 Lisboa. De quinta-feira a domingo das 12h às 20h.

Os livros em segunda mão são a paixão da espanhola Marian Soler, que em novembro iniciou as suas vendas no espaço cultural 8 Marvila. Inspirada no conceito de uma ONG em que era voluntária em Espanha, a empreendedora replicou a ideia em Portugal em parceria com o chef de cozinha Paulo Rego. A maior parte de tudo o que ali está provém de doações e parte do dinheiro angariado é destinado a apoiar causas sociais. Há diversidade de géneros literários, com obras a partir de 50 cêntimos. Lá também estão expostas pinturas com a técnica de pontilhismo e trabalhos manuais que Soler produz e vende. E para homenagear a história do antigo armazém vinícola em que está instalada, a livraria organiza pequenos eventos como provas de vinhos.

Há livros a partir de 50 cêntimos no espaço em Marvila

DR

Mini Tigre de Papel

R. Passos Manuel 84 B, 1050-260 Lisboa. De segunda a sexta-feira das 10h às 19h e sábados das 10h às 18h.

Dez anos após a abertura da livraria independente Tigre de Papel, em Arroios, o seu fundador, Fernando Ramalho, decidiu abrir este mês na mesma freguesia uma nova casa, ainda maior. Desta feita, o acréscimo “mini” ao nome expressa qual é o público-alvo do espaço: os miúdos. À porta, uma caixa com “livros para oferta” é um gesto que ajuda a chamar a atenção para este novo espaço no bairro, que tem como foco principal a venda de manuais e materiais escolares. Mas os livros infantis e juvenis, sejam novos ou usados, também estão presentes nas prateleiras e em eventos ali organizados, como lançamentos e leituras de histórias.

A Mini Tigre de Papel oferece livros infantis à porta

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PIENA libri persone visioni

R. Luciano Cordeiro 2 C, 1150-313 Lisboa. Segunda-feira das 15h às 21h, terça a sábado das 10h às 21h e domingo das 11h às 17h.

Uma espécie de “consulado” da cultura italiana foi aberta em setembro próximo do Campo Mártires da Pátria. Com o lema “quanto mais gente, melhor”, a saída de Arroios — onde funcionaram durante três anos — fez total sentido. Numa morada maior que a anterior, a Piena une café, vinhos e livros — em italiano ou traduzidos para português — nos seus dois pisos. A seleção do que é ali exposto é feita pelas donas, as amigas Elisa Sartor, de Milão, e Sara Cappai, da Sardenha. E apesar de a proposta principal ser “devorar livros”, por que razão esta não pode ser cumprida junto a comida e bebida icónicas da gastronomia italiana? Nesta morada onde antes funcionava uma cervejaria, pode-se agora pedir um Aperol, que pode ser acompanhado de lasanha, focaccia ou tiramisú, servidos no balcão ou na esplanada.

Re-Read Livraria Lowcost

R. Pascoal de Melo 99, 1000-232 Lisboa. De segunda-feira a sábado das 10h às 19h.

A franquia espanhola de livros low cost chegou a Portugal em novembro de 2024, com uma loja na avenida de Roma. A segunda abertura ocorreu em outubro de 2025, com mais uma unidade aberta na Estefânia. O conceito, trazido para cá pela portuguesa Inês Toscano, permanece o mesmo: comprar livros aos clientes e revendê-los a preços acessíveis. Um livro é vendido a 4 euros, dois livros a 7 euros e cinco a 15 euros — com a oferta de marcadores de páginas. Para além das estantes com géneros literários variados, há também um pequeno jardim que convida à leitura e café nas mesas ao ar livre. Na cave, onde há alguns sofás, decorrem oficinas e os já habituais clubes de leitura.

Rialto6

Rua do Conde de Redondo, 6, 1150-105 Lisboa. De quinta-feira a sábado das 14h às 19h30.

Onde desde 2019 funciona uma galeria de arte contemporânea e projetos experimentais, há desde fevereiro deste ano também uma livraria que reúne títulos de pequenas editoras nacionais e estrangeiras. Entre o Marquês de Pombal e Picoas, Maria João Santos e Armando Cabral, donos da galeria, decidiram ceder o espaço no subsolo à sua filha, Teresa Cabral, que é mestre em Literatura Comparada na Universidade de Glasgow, na Escócia. Tal como acontece no primeiro piso, nas estantes no piso -1 foi feita uma curadoria do que seria vendido. Teresa selecionou a maior parte das obras de ficção, ensaios e que abordam a temática feminista. Estão também ali livros de alguns dos artistas que já expuseram no andar acima e alguns títulos infantis da Orfeu Mini.

Salted Books

Calçada do Marquês de Abrantes 96, 1200-720 Lisboa. De terça-feira a sábado das 10h às 18h30 e domingo das 10h às 17h30.

The book is on the table. Nesta, que não é uma livraria recém-aberta, mas que há quase seis meses está sob uma nova gestão, apenas entram livros em inglês. A livreira Benedita Homem de Gouveia está na Salted, na Madragoa, desde a sua primeira semana de abertura, em 2023, sendo a primeira cliente da loja. Quando os antigos donos decidiram vender o espaço em novembro de 2025, a rapariga decidiu tomar para si as rédeas do seu local de trabalho. A página da Salted afirma o seu posicionamento de “libertar” os leitores do algoritmo. “Não definimos o stock com base em dados de vendas”, comunicam. Os seis funcionários do local afirmam ser aptos para indicar “obras de ficção literária, memórias, empoderamento feminino, ficção alternativa feminina, atualidades e questões ambientais”.

Na Madragoa, a Salted vende só livros na língua inglesa

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Saudade Livraria e Distribuidora

Rua Melvin Jones, 6A, 1600-867 Lisboa. De segunda-feira a sábado das 10h às 13h e das 14h às 20h.

A frase “não há em Portugal” não existe no vocabulário de Jaime Mendes, que decidiu trazer para o país só livros que não tenha visto ainda nas prateleiras. À procura de distribuidoras que nunca trouxeram as suas obras para o nosso país, o português que viveu no Brasil abriu em setembro, nas Laranjeiras, a livraria à qual deu o nome do sentimento que pode ser comum em todo o mundo, mas cuja palavra tem origem na nossa língua: saudade. Mais de 15 mil livros brasileiros já atravessaram o oceano com a mediação de Mendes, que trabalha também com editoras africanas e portuguesas. Na sua livraria, é preciso estar atento ao que está exposto, pois pode logo esgotar: há apenas um exemplar de cada título. No vasto catálogo onde é possível verificar o que está à venda, há livros de temáticas como antirracismo, LGBTQIA+ e culinária vegana.

Jaime Mendes importou mais de 15 mil livros brasileiros para a sua livraria em Lisboa

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Utopia 111

R. do Trombeta, 4, 1200-381 Lisboa. De terça-feira a sábado das 11h às 19h.

Engana-se quem pensa que os livros antigos brilham aos olhos apenas dos mais velhos. A livraria alfarrabista dos pais de Júlia Oliveira, de 25 anos, inspirou-a a abrir o seu próprio negócio. Em novembro, a rapariga deu início no Bairro Alto às suas vendas de livros, CDs e DVDs em segunda mão, que custam a partir de três euros. Tirou a poeira de livros que já tinha no acervo da sua família e levou-os para as prateleiras e redes sociais da sua livraria com uma linguagem jovem. Para atrair também o público que frequenta aquela zona durante a noite, pretende em breve iniciar eventos como pequenos concertos. Mas para já, deu início a workshops de escrita e cerâmica, classificando aquela morada também como um espaço cultural.

Workshops de escrita e cerâmica são realizados na Utopia 111, no Bairro Alto

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