A “mais extensa” exposição dedicada a Paulo de Cantos (1892-1979), professor, editor e tipógrafo, autor de um conjunto de livros marcados pelo “experimentalismo pedagógico e em diálogo com o modernismo”, vai ser inaugurada esta quinta-feira no MUDE, em Lisboa.
Editor, bibliófilo, pedagogo e tipógrafo amador, com uma produção gráfica desenvolvida entre 1917 e 1969, Paulo de Cantos editou dezenas de livros, utilizando a composição tipográfica para criar uma estética e linguagem próprias, além de artefactos tipográficos como zincogravuras, escantilhões e outros objetos.
O MUDE — Museu do Design dedica-lhe uma mostra, intitulada “Ver e Ler Paulo de Cantos”, contribuindo assim para dar a conhecer o trabalho de um editor que, apesar de pouco conhecido, ocupa um “lugar particular na modernidade artística em Portugal, tendo escrito, desenhado e editado, entre 1920 e 1960, cerca de 70 títulos”, de acordo com informação disponível no site “cantosverso”, dedicado à sua obra.
A exposição, que será inaugurada hoje às 19h00, vai estar patente ao público na Galeria D, entre 15 de maio e 06 de setembro de 2026, e reúne 31 dos 45 livros auto-editados pelo autor.
“Num contexto marcado pela expansão da inteligência artificial e pela crescente desmaterialização dos objetos”, a exposição propõe “revisitar, na perspetiva do design, a dimensão experimental e manual da obra de Paulo de Cantos”, autor “complexo e ainda insuficientemente reconhecido pela historiografia do design”, informa o MUDE, em comunicado.
O museu sublinha o compromisso com “a investigação e a divulgação de práticas que estimulam a reflexão crítica”, destacando a integração de obras de Paulo de Cantos na exposição de longa duração do museu e a constituição, em 2025, da Coleção Paulo de Cantos.
“O trabalho deste autor encontrou no livro o suporte privilegiado de uma prática orientada para a superação de limites físicos e conceptuais. Materializou-se, também, em manuais, postais e objetos editoriais que exploram a linguagem tipográfica, a geometria das formas e o humor”, salienta o comunicado.
Entre os seus trabalhos, destacam-se os livros “bi-rostos”, nos quais a linearidade da leitura é substituída por percursos lúdicos e circulares, em que o fim pode funcionar como novo começo.
Os livros de Paulo de Cantos versam sobre as mais variadas áreas, da linguística à matemática, passando pela geografia, destacando-se pelo modo como o autor utiliza a composição tipográfica.
A exposição, apresentada pela organização como “a mais extensa” dedicada ao autor, conta com curadoria e “design” gráfico de António Silveira Gomes e Cláudia Castelo, e “design” expositivo de José Albergaria.
Segundo os curadores, Paulo de Cantos foi um “outsider” com uma obra insólita, situada “nas margens da história”, que refletia algumas ideias da Política do Espírito e do luso-tropicalismo do Estado Novo, com humor e displicência fora do cânone. “O livro foi a sua forma de expressão, cujos limites físicos e conceptuais procurou transcender ao longo da vida”, acrescentam.
Paulo de Cantos foi também diretor de liceu, autor de livros auxiliares de educação, ávido colecionador de livros, e proeminente como reitor de uma escola pública na Póvoa de Varzim, segundo informação na página da Direção-Geral das Artes.
Influenciado pelos movimentos de pedagogia progressista do início do século XX, começou a autopublicar uma série de livros escolares auxiliares, nos quais experimentou, com diferentes níveis de domínio, métodos educativos através de esquemas de desenho técnico, informação visual, tipografia e artes do livro.
Tirando partido da comunidade escolar em que estava inserido, testava as suas ideias na sala de aula durante o dia e imprimia os resultados à noite.
O “design gráfico” de Paulo de Cantos não está alinhado com aquelas que eram as narrativas dominantes, e o seu estilo caracterizava-se pelo modernismo português, utilizando uma linguagem coloquial aliada a um discurso científico informado.
Na sua intensa atividade editorial, combinava uma imaginação efusiva com ideias racionalistas e um estilo satírico vernacular, o que na altura não foi bem aceite pelo Ministério da Educação e pela comunidade dominada pelo regime fascista do Estado Novo, que aliás desafiou em publicações como “O Homem ‘Máquina'”.
A sua linguagem tipográfica e pedagógica invulgar era vista como uma transgressão, que acabou por tornar a sua imagem excêntrica.
A exposição “Ver e Ler Paulo de Cantos” integra também visitas guiadas aos domingos, às 15h00, mediante inscrição na receção até 30 minutos antes, e visitas educativas para diferentes níveis de ensino, de terça a sexta, por marcação.
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