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Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. Na madrugada de 8 de janeiro de 2011, assim que dá entrada no hospital de Bellevue, Renato Seabra é avaliado. Passa das 3:00. Está acordado há demasiadas horas e na véspera pouco dormiu. Passou a noite a discutir com Carlos Castro. Há de revelar em breve no interrogatório policial em que vai confessar o crime. Como se não bastasse, também está fortemente medicado. Os psiquiatras fazem-lhe perguntas, mas Renato Seabra nem se esforça para lhes responder. Está só a tentar manter-se acordado. E não está a conseguir. Está tão sedado e tão cansado que adormece várias vezes durante a consulta. Mas há pelo menos um momento em que desperta e se comporta de forma bizarra. Os médicos vão dar nota disso no relatório que escrevem sobre esta primeira avaliação. A certa altura, começou a cantar e sorriu de forma inadequada enquanto falava dos próprios lábios e de como eram bonitos. De resto, não conseguem muito mais informação para juntar à ficha que o paciente já traz do hospital Roosevelt, onde chegou de táxi depois do crime. Mas é o suficiente para determinarem: Renato Seabra tem de ser internado e colocado sob vigilância individualizada. Significa que, enquanto a ordem se mantiver, o paciente vai ser monitorizado a cada 15 minutos por um enfermeiro, durante o dia e durante a noite. Uma das poucas coisas que Renato Seabra diz aos psiquiatras do Bellevue é que não tentou matar-se. Fez aqueles cortes nos próprios pulsos impelido por aquilo a que chama uma espécie de instinto animal. Apesar disso, os médicos decidem que o paciente não representa apenas perigo para terceiros. Apresenta também risco de suicídio. O relatório termina com um diagnóstico e um plano de ação. Violência provavelmente relacionada com mania aguda. O objetivo é tratar a mania e estabilizar o humor. Objetivos específicos: alcançar humor eutímico em sete dias. Significa que os médicos do Bellevue confirmam o diagnóstico de transtorno bipolar. E, sobretudo, preveem que Renato Seabra esteja estabilizado e sem oscilações acentuadas de humor, longe dos estados de depressão ou mania, no prazo de uma semana. Estão enganados. Vai demorar muito mais tempo do que isso. O crime é muito grave e muito violento. Foi com estes argumentos que a procuradora do Ministério Público convenceu o juiz a não estipular qualquer fiança que permitisse a Renato Seabra aguardar julgamento em liberdade. Apesar disso, a acusação que o aspirante a modelo português enfrenta não é a mais grave prevista na lei americana. Acima do homicídio em segundo grau, existe o homicídio em primeiro grau. Está reservado para os crimes mais hediondos, incluindo assassinatos em série, o assassínio de juízes e polícias e outros considerados especialmente cruéis e depravados. E no estado de Nova York prevê uma pena máxima de prisão perpétua sem liberdade condicional. Renato Seabra está acusado de homicídio em segundo grau. No máximo, poderá receber uma condenação de 25 anos a prisão perpétua, o que significa que, na pior das hipóteses, só vai ter a possibilidade de pedir para sair em liberdade condicional depois de passar 25 anos na cadeia. A defesa está decidida a evitar uma condenação. David Tuger já declarou em tribunal: Renato Seabra está inocente. Para o tentar provar, vai apostar tudo numa estratégia que só é usada em menos de 1% dos processos criminais, ou seja, é muito pouco habitual. E segundo as estatísticas oficiais, quando algum advogado de defesa a utiliza, falha em 75% das vezes, ou seja, o futuro de Renato Seabra depende de uma estratégia muito arriscada. "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Episódio dois: o meu nome é Jesus Cristo. Conhecer a verdade muda tudo. Muda histórias, muda caminhos. Na estrada também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade em mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.
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Castro foi encontrado morto num cenário de extrema violência. O corpo estava deitado virado para cima numa poça de sangue, com vários traumatismos, sem roupa e com os órgãos genitais mutilados. As suspeitas recaem agora sobre um jovem de 21 anos, natural de Cantanhede, que estava a partilhar quarto com o jornalista.
A informação chega a Portugal durante a madrugada e domina os noticiários do dia. Carlos Castro foi brutalmente assassinado e mutilado num quarto de hotel em Nova York, ao que tudo indica, pelo namorado, 44 anos mais novo. A família de Renato Seabra sabe de tudo o que está a acontecer através da televisão. Está em negação. Acha que nada daquilo bate certo. Renato não tinha uma relação íntima com Carlos Castro.
Eu não acredito, porque meu filho, sendo o filho de ouro, um filho que é muito bom, ele não fazia isso. Filho não é namorado do Carlos Castro.
A mãe de Renato chama-se Odília Pereirinha. É enfermeira e está divorciada desde que o filho mais novo tinha cinco anos. É entrevistada pelas televisões no aeroporto à partida para Nova York. Depois de ela embarcar, é a filha quem passa a falar com a imprensa. Em entrevista ao Jornal de Notícias, garante: o cronista social estava apenas a tentar ajudar Renato a ser modelo.
Eu conheço meu irmão, sei a pessoa que ele é, uma pessoa calma, amiga, paciente, não tem inimigos, só faz bem ao outro, é a pessoa mais paciente que eu conheço na vida. Ele tinha ido a Nova York com o senhor Carlos Castro por trabalho. O senhor Carlos Castro estava a ajudá-lo neste mundo da moda, ia ser apresentado a algumas agências e era isso que estava a se passar.
Joana Seabra fez 27 anos há dias. Está casada há um ano, grávida há escassos meses. É médica e militante da JSD de Cantanhede. Apesar de já não viver com a mãe e com o irmão, mantém-se próxima. Revela que ao longo da viagem a Nova York, Odília Pereirinha nunca perdeu o contato com o filho. Falavam ao telefone todos os dias, às vezes até mais do que uma vez por dia, sempre através do telemóvel de Carlos Castro.
Ele insistia sempre que não era necessário meu irmão ter roaming, que podia ligar pro telemóvel dele e muitas vezes era ele que até atendia e falava com a minha mãe e meu irmão das vezes todas estava a gostar, disse à minha mãe que já tinha ido a algumas agências, porque ele foi em trabalho, o senhor Carlos Castro estava a ajudá-lo em trabalho, já tinha ido a algumas agências.
Para a família, a relação entre os dois sempre foi estritamente profissional. Carlos Castro estava a ajudar Renato a começar uma carreira no mundo da moda e a pagar todas as despesas que isso implicava. Não por caridade, mas porque alegadamente também lucraria alguma coisa pelo papel como intermediário. Joana conta que era natural que ambos partilhassem quarto, até para manter alguma contenção de custos.
Claro, o senhor Carlos Castro estava em trabalho, é normal. Também se criou ali uma amizade. A gente sabe que em Londres, Madrid, eram camas separadas, penso que em Nova York devia ser a mesma coisa. Não acho nada anormal que ficassem no mesmo quarto, ainda por cima porque o senhor Carlos Castro até estava a arcar com as despesas, porque ele disse logo quando percebi que o meu irmão não tinha esse dinheiro, dizia ao meu irmão: "Não preocupe-se, porque eu ganho de outras maneiras. Também ia arranjando esses contatos, estou a receber de outras maneiras". É normal, não achávamos nada de especial, até porque o meu irmão dizia que nas outras viagens o respeitavam sempre e corria sempre tudo muito bem.
Dias depois de a mãe aterrar em Nova York, o pai de Renato também chega à cidade. É ele quem toma a iniciativa de pedir ajuda a uma das mais proeminentes figuras da comunidade luso-descendente local, apesar de a ex-mulher já ter contratado um advogado para defender o filho. Tony Castro tem 54 anos. Nasceu em Ílhavo, mas aos seis anos emigrou com os pais para os Estados Unidos. Cresceu no estado de Nova York, estudou em Harvard e trabalhou durante 14 anos como procurador no Bronx. Ao longo desse tempo, investigou e levou a julgamento crimes violentos graves, incluindo homicídios. No único caso de homicídio em primeiro grau que teve, conseguiu uma condenação. Entretanto, estabeleceu-se como advogado. Tem conhecimento e experiência tanto do lado da acusação como da defesa. E é esse conhecimento que vai tentar partilhar com os pais de Renato Seabra. Tony Castro diz-lhes que têm de ser realistas. Nenhum júri vai absolver o filho deles. Só há uma saída possível. A defesa tem de conseguir convencer a procuradora a reduzir a acusação para homicídio involuntário. E tem de chegar a acordo com ela. Se Renato se declarar culpado, podem tentar que cumpra apenas 12 ou 13 anos de prisão, sem sequer ter de ir a julgamento. É metade da pena a que Renato pode ser condenado, indo a tribunal acusado de homicídio em segundo grau. Mas esse é um cenário que a mãe não quer nem equacionar, revela Tony Castro, que entretanto voltou a trabalhar para o Ministério Público e está impedido de gravar entrevistasApesar deste conselho, Odília Pereirinha mantém a posição. Se existe alguma vítima nesta história, não é Carlos Castro, é o filho dela. É por isso que, mesmo sabendo que as probabilidades de dar bom resultado são mínimas, a defesa decide seguir uma estratégia arriscada, a da insanidade temporária, e começa a trabalhar para provar em tribunal que no momento do crime, Renato Seabra não era capaz de distinguir o certo do errado. Oito de janeiro de 2011, 18h33. Primeiro dia de internamento no Hospital de Bellevue. A enfermeira de turno deixa uma anotação no processo de Renato Seabra. "O paciente está desorganizado e o conteúdo dos pensamentos não faz sentido. Está hiperativo e mesmo algemado à maca, é observado de pé, a mexer-se e a chamar a atenção dos outros doentes e dos profissionais. Afirma que é um revolucionário e que a justiça tem de ser feita de forma justa". No dia seguinte, domingo, há nova anotação registrada por outra enfermeira. É o segundo dos sete dias que os médicos estimam que Renato Seabra demorará até estar estabilizado a 100%. E aparentemente, ainda não há melhoras. Lê-se no processo: "O doente apresentou comportamento inadequado, perguntando aos profissionais se podia tocar-lhes. Mais tarde, saiu do quarto despido, apesar das tentativas de orientação. Percorreu o corredor e teve de ser conduzido pra sala de contenção pelo auxiliar de enfermagem masculino". Essa noite vai ser melhor. Renato Seabra dorme durante sete horas seguidas. Como está sob vigilância, é observado de 15 em 15 minutos por um dos enfermeiros de serviço, que tem que atualizar o ficheiro do paciente sempre que o vê. Entre a meia-noite e as 7 h, Renato Seabra é visitado 28 vezes e não está acordado em nenhuma delas. O registro de observação do paciente é exaustivo e dá conta de um Renato Seabra calmo e cooperante. Toma um ducha às 8h30 e 45 minutos depois, segue pra sala de refeições, onde é servido o pequeno-almoço. Vê um pouco de televisão e depois participa numa reunião de grupo com outros pacientes. A seguir almoça e vai pra sala de estar. À tarde, por volta das 16 h, há uma alteração na rotina. Recebe a visita do advogado que a família contratou para o defender. É a primeira vez que se encontra com David Tugger. A partir deste dia, o quadro clínico de Renato Seabra agudiza-se muito. No dia seguinte, 11 de janeiro, a nota da enfermeira de serviço diz que o paciente, por vezes, apresenta comportamentos inadequados e necessita de reforço das regras e redirecionamento. É um dia particularmente difícil. Primeiro, Renato Seabra tenta despir-se à frente dos enfermeiros, depois veste a T-shirt do avesso e mais tarde é apanhado a masturbar-se. Pede a uma funcionária que converse com ele e quando ela o acompanha ao quarto, diz-lhe que quer tocar-lhe. Como recusa a medicação, é injetado coercivamente com a mesma combinação de medicamentos antipsicóticos, ansiolíticos e anti-histamínicos que está a tomar desde o Hospital Roosevelt. No dia seguinte vai acontecer o mesmo e em pelo menos outros dois dias dessa semana também. Dezoito de janeiro é uma terça-feira, dia da primeira atualização do plano semanal de tratamento multidisciplinar a que está a ser submetido. E as notícias não são as que os médicos esperavam. O crime aconteceu há 11 dias. Renato Seabra está ali internado há 10 e já foi medicado à força por via intramuscular pelo menos cinco vezes. Já devia ter recuperado, mas na escala da avaliação global de funcionamento, tem apenas 35 pontos, de zero a 100. Continua intrusivo, continua psicótico, continua delirante e continua a ter dificuldade em respeitar limites. Isto indica claramente que não está a melhorar, pode ler-se no relatório. Ao longo dos dias que se hão de seguir, vai piorar ainda mais. Cumprimenta médicos, funcionários e outros pacientes como se fossem grandes amigos e anuncia várias vezes que quer curar o staff todo com as suas próprias mãos. São episódios isolados, há de dizer em tribunal a procuradora da acusação. No dia a dia, Renato Seabra vai a reuniões de terapia em grupo, passa tempo na sala de televisão, lê, escreve, joga xadrez, damas e pingue-pongue, fala ao telefone e recebe visitas. Depois tem momentos em que procura os enfermeiros e outros pacientes pra lhes falar sobre a homossexualidade como demônio. Diz-lhes que é o escolhido, um mensageiro de Deus que tem poderes especiais e vê a verdade que os outros não conseguem ver e que pode curar as pessoas com sida e outras doenças venéreas com um só toque. Em tribunal, a defesa há de garantir que este comportamento prova que Renato Seabra não está mentalmente são e que, por isso mesmo, não pode ser condenado pelo homicídio de Carlos CastroA acusação vai apresentar uma tese bastante diferente. A procuradora do Ministério Público vai dizer que estes incidentes foram forjados, porque o arguido está a tentar parecer maluco. E vai acusar o advogado David Tugger de ter aproveitado a visita ao hospital para dar instruções a Renato Seabra. Tudo com o objetivo de exagerar e fingir sintomas de doença mental.
Vamos dar um minuto de silêncio com muita força. Vamos transmitir frequências boas para ele.
Noite de 13 de janeiro de 2011, uma quinta-feira. Cerca de 400 pessoas estão reunidas no largo em frente à Igreja Matriz de Cantanhede. Formam um cordão humano de apoio a Renato Seabra.
O objetivo é para transmitir força ao Renato e à mãe e para dizer que estamos com eles. Seja o que acontecer, nós estamos com eles. Estamos todos unidos. Não só a cidade, o concelho está unido.
Ao longo das semanas seguintes, vão ser organizados jantares de angariação de fundos, quermesses e leilões para ajudar a família. E centenas de pessoas vão aderir no Facebook a grupos de apoio ao jovem de Cantanhede. Para as pessoas que aqui estão, Renato Seabra é inocente e Carlos Castro é o culpado do crime de que foi alvo.
Algo se passou para que o miúdo tivesse perdido a noção do mal que estava a fazer. Para mim, não devia estar no juízo perfeito dele, qualquer coisa aconteceu.
Nesta altura, Rodrigo Freixo trabalha como jornalista. Faz a cobertura do tema para a revista Caras. Embarca para Nova York poucos dias depois do crime e há de escrever um livro sobre tudo o que aconteceu. Diz que nunca existiu unanimidade sobre o caso.
Era difícil perceber. Havia opiniões completamente díspares. Havia quem viesse à praça pública dizer: "O Carlos Castro é uma víbora e foi ele que provocou tudo isto". Havia quem viesse dizer o contrário: "O Renato queria is aproveitar-se ao máximo e quando percebeu que não dava, perdeu a cabeça e não era gay e foi neste caminho".
Diogo Silva Salgado é um dos melhores amigos de Renato. Conhecem-se desde a infância e andaram juntos nos escuteiros. É entrevistado pelo Jornal de Notícias dias depois do crime.
O Renato tinha várias namoradas. Eu e o Renato somos mesmo assim, gostamos muito de mulheres. Por isso é hilariante virem me dizer que ele tinha um caso com o Carlos Castro, compadre meu, é hilariante. Não faz sentido.
Logo depois do crime, a polícia de Nova York envia os equipamentos eletrônicos encontrados no quarto 3416, um computador portátil e um iPod, para análise na Unidade de Crimes Informáticos e pede um mandado de busca para todas as contas de Facebook e e-mail em nome de Renato Seabra. As mensagens revelam que, aos amigos e à família, Renato nunca contou o que realmente fazia quando passava fins de semana em Lisboa, no apartamento de Carlos Castro ou ia de viagem com ele. Ao longo dos três meses que passaram juntos, manteve sempre uma vida dupla. 23 de outubro de 2010, oito dias depois de Carlos Castro e Renato Seabra se encontrarem pessoalmente pela primeira vez. Renato envia uma mensagem no Facebook a um grande amigo que está a estudar na Polônia. "Miúdo, já tenho saudades tuas. Vou estar muito ocupado com trabalho na moda. Para a semana vou a Londres durante uma semana. Nem acredito. Quero ver se consigo ir à Polônia, mas ainda não sei." Não há registros de qualquer trabalho de moda feito em Londres por Renato Seabra. A polícia encontra outra mensagem enviada dois meses mais tarde para o mesmo amigo. Renato diz-lhe que quer saber tudo sobre as raparigas com quem ele tem partilhado fotografias no Facebook e conta-lhe que está quase a partir novamente. É a viagem que fará aos Estados Unidos com Carlos Castro, mas não faz qualquer referência à companhia ou sequer à existência do cronista social. "Vou a Nova York a 26 de dezembro para fazer um desfile de moda e passar a passagem de ano. Nunca me imaginei assim. Londres foi mesmo fantástico. Agora tenho que começar a praticar o meu inglês novamente." Ao longo dos dias que passa nos Estados Unidos, continua a trocar mensagens com amigos e amigas, a quem vai revelando o sucesso que supostamente estaria a ter no mundo da moda. As últimas mensagens que a polícia encontra no Facebook de Renato Seabra foram escritas menos de 24 horas antes do crime. Foram enviadas a uma rapariga com quem ele manteria uma relação há poucos meses. Diz-lhe que está ansioso para a ver e combina um encontro assim que chegar a Portugal. Hospital de Bellevue, relatório clínico de 21 de janeiro, 3h30 da madrugada. Renato Seabra acorda, levanta-se e vai até o posto de enfermagem com um livro na mão. Traz a roupa interior por cima do pijama, numa tentativa de se parecer com um super-herói. Antes de ser reencaminhado para a cama, diz aos enfermeiros de turno que não se chama Renato. O nome dele é Abacaba. Pouco tempo depois, volta a sair do quarto. Quer que os enfermeiros ponham o nome dele na lista da biblioteca para poder requisitar livrosOs enfermeiros dizem-lhe que sim, vão tratar disso, mas só quando amanhecer. Agora ele tem mesmo de voltar para a cama. É nessa altura que Renato Seabra lhes dá uma nova informação. Chama-se Jesus Cristo. Afinal, é esse o nome que tem que ser posto na lista. É o 14º dia de internamento. Passou praticamente uma semana para lá do prazo estimado pela equipe de psiquiatria para a recuperação do paciente. Mas Renato Seabra continua a não dar sinais de melhoras. Um outro relatório revela vários incidentes violentos. Está assinado por um dos psiquiatras do Bellevue. Teve um episódio de agressividade e postura ameaçadora perante a enfermeira responsável pela vigilância individual, chegando a fechar a porta com força na cara dela. Por vezes, apresentou comportamento ameaçador e invadiu o espaço deste redator, tendo sido necessária a administração de medicação intramuscular para controle da agressividade, uma vez que não respondia à abordagem verbal. Ao todo, Renato Seabra vai permanecer nesta ala psiquiátrica durante 95 dias. Em tribunal, a procuradora do Ministério Público vai acusá-lo de ter fingido estes episódios, não apenas para ser considerado inimputável, mas também com o objetivo de adiar o momento em que seria enviado para uma prisão normal. Na nota de alta, assinada no dia 12 de abril de 2011, às 15h53, pode ler-se que ao longo do internamento e à medida que a medicação foi sendo ajustada e alterada, começou a emergir no paciente uma patologia significativa de caráter narcisista. Significa que, para além do transtorno bipolar, os psiquiatras diagnosticaram Renato Seabra com outro problema de saúde mental, que se caracteriza essencialmente por três sinais: incapacidade de sentir empatia pelos outros, sensação de superioridade e grandiosidade e necessidade de ser admirado. Depois de receber alta, Renato Seabra é encaminhado para uma das mais temíveis prisões dos Estados Unidos. Do hospital de Bellevue à prisão de Rikers Island, no noroeste da cidade, são apenas 16 km de distância.
É um inferno. É horrível.
Jeffrey Singer é psicólogo há quase 20 anos. Já trabalhou em vários hospitais, já fez serviço no centro de tratamento para agressores sexuais de uma prisão, tem consultório próprio e também dá aulas. A pedido da defesa, vai encontrar-se duas vezes com Renato para o avaliar, justamente na prisão de Rikers Island.
Na verdade, ele foi a última pessoa que avaliei em Rikers Island. Eu já não vou lá. Deixei de lá ir depois disso. Entre 2009 e 2012, fui a Rikers Island para avaliar outro tipo de casos, mas não volto. Simplesmente não volto. É muito horrível.
Rikers Island funciona numa pequena ilha no meio do East River e é uma das mais perigosas, violentas e sobrelotadas prisões do país. Rodrigo Freixo também há de lá entrar, acompanhado de um jornalista local do New York Times com quem está a trabalhar.
Uma prisão que tem mais de 10 mil pessoas que são temporários, dos piores gangues daquele país, com as histórias mais incríveis e o ambiente que sentes lá dentro é efetivamente assim, um ambiente pesado. Sentes o peso de tudo aquilo que aquelas pessoas fizeram fora daquela prisão, sentes tudo isso lá dentro. É efetivamente como entrar num filme.
Renato Seabra é colocado numa cela de 10 metros quadrados. Mantém-se em vigilância antisuicídio. De meia em meia hora, um dos guardas verifica se está tudo bem com ele. É aqui que vai ficar até o início do julgamento. Serão 18 longos meses de espera, em que vai ser submetido a várias avaliações psiquiátricas e psicológicas, por parte de peritos contratados pela acusação e pela defesa. Depois de a família de Renato Seabra decidir partir para tribunal, em vez de chegar a acordo com o Ministério Público, o advogado aposta tudo na defesa por insanidade temporária. No dia 2 de junho de 2011, David Tuger envia um requerimento ao tribunal. Informa o juiz e a acusação que vai submeter provas psiquiátricas que irão demonstrar que no momento do crime, Renato Seabra carecia de responsabilidade criminal por motivos de doença ou defeito mental. No final do documento, escreve: "O arguido reserva seu direito de invocar a defesa afirmativa por insanidade mental".
Basicamente, tem a ver com o fato de, no momento do crime, a pessoa que o cometeu não ser capaz de compreender a ilicitude das suas ações e simplesmente não saber que o seu comportamento era errado.
"É uma jogada arriscada", explica o psicólogo Jeffrey Singer, por dois motivos diferentes. Primeiro, porque assim as regras do jogo passam a ser outras. Na defesa afirmativa, o ônus da prova muda de lado. Já não é à acusação que cabe provar os fatos, para além de qualquer dúvida razoável. O advogado de Renato Seabra é que vai ter que conseguir convencer os jurados de que no momento do crime, ele era incapaz de distinguir o bem do mal e por isso não deve ser responsabilizado criminalmente.Depois, porque este tipo de defesa não é propriamente popular entre a opinião pública. E isso também ajuda a fazer com que a taxa de sucesso dela seja muito residual.
O público em geral também encara esta defesa com grande desprezo. É muito desvalorizada. O melhor especialista norte-americano neste tema é um psicólogo forense reformado chamado Charles Patrick Ewing. Ele escreveu um livro chamado "Insanity". Nesse livro, ele assinala que apenas um em cada mil casos recorre a esta defesa. E desses, apenas um em cada quatro é bem-sucedido. Ou seja, aproximadamente um em cada 4 mil casos. Por isso, embora muitas pessoas achem que se trata de uma desculpa, uma forma de escapar à responsabilização, na verdade, é uma defesa que raramente é utilizada. E mesmo quando é, o mais provável é que não seja bem-sucedida.
Por muito que as probabilidades sejam ínfimas, a defesa resolve avançar. No dia 28 de julho de 2011, David Tuger apresenta um novo requerimento ao tribunal com informações adicionais. No documento, a defesa informa que o arguido tem um diagnóstico de transtorno bipolar tipo um, com episódio maníaco único, grave e com características psicóticas. No momento do crime, lê-se no documento, Renato Seabra tornou-se fulminantemente psicótico. Por isso mesmo, quando atacou e matou a vítima, estava a agir com base em ideias delirantes e não podia apreciar a ilicitude das suas ações, porque estava a agir como instrumento de Deus. Para a acusação, este não é um caso de doença mental, é um caso de raiva. Mas a primeira batalha está perdida. Depois de a defesa anunciar a intenção de apresentar provas psiquiátricas, a procuradora do Ministério Público enviou uma moção ao tribunal para o impedir. Alegava que o requerimento do advogado Renato Seabra não podia ser admitido por não especificar a natureza precisa da condição mental alegada, nem a relação entre a doença e a conduta criminosa. O juiz deu-lhe razão, mas entretanto, David Tuger retificou os documentos e a defesa afirmativa por insanidade foi aceita. Para rebater os argumentos da defesa, a acusação vai ter de conseguir mostrar aos jurados que Renato Seabra tinha motivos para querer assassinar Carlos Castro e que não agiu por estar doente, mas por estar furioso. Para isso, vai ter de perceber quem são, afinal, estes dois homens portugueses. Vai procurar testemunhas, reunir documentos, examinar as imagens guardadas na máquina fotográfica da vítima e analisar as mensagens enviadas pelos dois para descobrir como se cruzaram, como começaram uma relação e como acabaram a transformar um quarto de hotel de luxo em Nova York numa cena de crime caótica e sangrenta. Mas essa é uma história para o próximo episódio. O Observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado e com o próprio Renato Seabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. No próximo episódio.
Carlos Castro sempre deu vida boa às pessoas que conviveram com ele. E se eles tinham chegado de uma vida um pouco mais abaixo, viam subir.
Ele chegou à final, mas não tinha feitio para vingar neste mundo da moda, que é preciso realmente ter muita garra, ter uma personalidade muito forte, querer muito.
Olha para o espelho, o que é que tu vês? Vê, diz-me o que é que tu vês. E tu achas que o miúdo com 1,85 m, lindo de morrer, vai se apaixonar por ti?
"Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube, do Jornal de Notícias e da Sic. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Ki.
