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Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. 9 de outubro de 2010, três meses antes da morte de Carlos Castro. Renato Seabra fez 21 anos há um mês. Há um mês também chegou ao fim o programa de televisão em que participou, um concurso de modelos organizado pela SIC em colaboração com a agência Face Models, da designer Fátima Lopes. Chamava-se "À Procura do Sonho" e teve milhares de candidatos em todo o país.
São sempre miúdos que têm um sonho de moda e que querem entrar neste mundo. Uns têm as qualidades físicas e psicológicas, porque isso também é muito importante, para entrar neste mundo e outros não têm. As físicas, o Renato tinha, porque ele era muito alto, não me lembro exatamente as medidas, mas era muito alto, fisicamente era bonito, tinha um ótimo corpo, aliás, ele era desportista, portanto, ele tinha tudo o que à partida nós procurávamos. Ficou numa lista pequena, reduzida de finalistas.
Venho de Cantanhede e estou um bocado nervoso.
Renato Seabra participou no casting de Vila Nova de Gaia.
É um programa novo, acho que é dos primeiros de moda assim na televisão e ser modelo é um dos objetivos.
Foi um dos 12 rapazes escolhidos para entrar na competição e um dos três finalistas masculinos do programa. Não ganhou, ficou em terceiro lugar, mas continua a receber mensagens de admiradores com alguma frequência. Alguns até criaram uma página de fãs no Facebook com o nome dele, que já vai em quase mil seguidores. Agora, acaba de receber mais um pedido de amizade na conta que mantém naquela rede. Assim que o abre, reconhece o nome do utilizador. É Carlos Castro, o cronista social. Aceita imediatamente o pedido. Pouco tempo depois, Carlos Castro envia-lhe uma mensagem privada. É apenas uma frase. Limita-se a agradecer o fato de o jovem aspirante a modelo o ter aceitado como amigo. "Olá, Renato. Muito grato e um abraço." Mas vai ser também apenas a primeira de muitas mensagens. Horas depois, Renato responde: "Olá, foi com muito gosto que aceitei." E mais tarde, nesse dia, Carlos volta a escrever-lhe: "Olá, Renato. Já sabes, vai falando." É uma deixa que Renato Seabra vai aproveitar. Anda impaciente. Já foi duas vezes a Lisboa para participar em castings, mas não foi escolhido para nenhum dos trabalhos. Sente que precisa de conselhos. E agora, ali está alguém com décadas de experiência e conhecimento na área a oferecer-se para o ajudar. Escreve a Carlos Castro no dia 10 de outubro à tarde: "Olá, gostava de falar consigo em relação ao mundo da moda, que é novo para mim. Sendo uma pessoa com experiência, quais são as dicas que me dá para poder vir a crescer neste mundo? Abraço e obrigado por se disponibilizar a falar comigo." Quarenta minutos depois, tem uma resposta: "Vou ao Porto, ao Portugal Fashion. Estás por perto? Acho-te giro e és altíssimo. Falamos se quiseres. Um abraço, amigo." Vanda Pires é uma das primeiras pessoas que a polícia de Nova York interroga na noite de 7 de janeiro de 2011. É amiga do cronista social há mais de 25 anos. Vive em Newark. Esteve com ele e com Renato Seabra durante grande parte da estadia deles em Nova York. E foi ela quem deu o alerta que fez com que a segurança do Hotel Intercontinental encontrasse o corpo de Carlos Castro no quarto 3416. O primeiro detetive a chegar ao local chama-se John Mongiello. É polícia há 23 anos e detetive há cinco, na esquadra de Midtown South, em Manhattan. É ele quem aponta as informações que Vanda Pires lhe dá sobre a vítima e sobre o presumível suspeito. Escreve à mão num bloco de notas pautado: "Conheceu um tipo simpático, muito feliz, novo começo. Diz que o tipo tem 21 anos, modelo, foram a Londres, Madrid." Para abreviar a escrita, John Mongiello substitui o nome de Renato Seabra por um pequeno triângulo. "Era agradável, sossegado, muito atencioso, muito feliz. Esta é a minha lua de mel. Muito bom pra mim. Diz que me ama", aponta ainda o detetive, a partir de uma mensagem de texto que Vanda Pires diz que Carlos Castro lhe enviou. É evidente para a polícia: alguma coisa tem de ter corrido terrivelmente mal para esta viagem ter acabado assim.Para perceberem exatamente o que, os detetives responsáveis pelo caso vão vasculhar todo o passado de Carlos Castro e Renato Seabra. A começar nas primeiras mensagens que trocaram há apenas três meses. "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus d'O Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Episódio três: desta vez, é amor.
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Kia. Movement that inspires. Carlos Castro está no Porto há alguns dias. O Portugal Fashion já começou. Renato Seabra também foi a um casting pra participar neste que é, a par da Moda Lisboa, um dos maiores eventos da área no país. Mas mais uma vez, não foi um dos escolhidos pra desfilar. Como Carlos Castro se disponibilizou pra o ajudar e se encontrarem cara a cara, pede à mãe que o leve até ao Porto. Moram em Cantanhede e fazem a viagem em pouco mais de uma hora de carro. A avó de Renato também os acompanha, mas é sozinho que vai ter com o cronista social. O próprio Renato Seabra há de relatar este primeiro encontro ao detalhe ao psicólogo Jeffrey Singer, numa das várias avaliações a que vai ser sujeito antes do julgamento. É uma sexta-feira à tarde. Combinaram encontrar-se algures na baixa da cidade, onde Carlos Castro vai estar a dar uma entrevista. Conversam sobre a aparência e as expectativas de Renato. Numa das mensagens que enviou, Carlos elogiou-lhe a altura. Na verdade, corrige Renato, só tem 1,86 metro, mas o cronista social diz-lhe que isso não será um problema e insiste que pode ajudá-lo a conseguir trabalho como modelo. Depois, convida-o pra o acompanhar até o hotel onde está instalado. Quer dar-lhe um dos livros que escreveu. Tem alguns exemplares no quarto. É nesse dia, dentro desse quarto, que Carlos Castro faz o primeiro avanço. Aproxima-se de Renato Seabra e dá-lhe um beijo na boca. Renato fica surpreendido. Conhecem-se há uma hora, se tanto. Não estava à espera daquilo, mas também não o afasta. Nesse preciso instante, toma uma decisão. E quando Carlos lhe pergunta se está tudo bem, Renato diz-lhe que sim. Há de explicar por que ao psicólogo contratado pela defesa pra o avaliar. Pode ler-se no relatório assinado por Jeffrey Singer: "Queria aquela ajuda e a partir daí a relação começou. Eu sabia que ele era gay. Era a minha oportunidade pra alcançar coisas melhores no mundo da moda. Sou um homem feito de 20 anos. Tomei uma decisão. Continuamos. Trocamos contatos e ele convidou-me pra ir a Lisboa, à casa dele, uma ou duas semanas depois". Quando for interrogado pela polícia de Nova York, Renato Seabra vai situar justamente neste dia o início do caso que manteve com Carlos Castro. Quinze de outubro de 2010. Quando saiu daquele quarto de hotel no Porto, Renato Seabra estava numa relação com o cronista social. Oitenta e quatro dias depois, Carlos Castro estaria morto. Acontece tudo muito rápido e de forma muito intensa. Percebem as autoridades, através das mensagens, que Carlos Castro e Renato Seabra continuam a trocar. Primeiro no Facebook, depois pelo telefone. Carlos Castro está apaixonado. Atribui o sol que brilha a Renato. Manda-lhe beijinhos e ternuras. Diz-lhe que não consegue tirá-lo da cabeça. Estiveram juntos há menos de 24 horas e já está cheio de saudades dele. Renato é consideravelmente menos efusivo, mas retribui. "Como te disse por mensagem, também tenho pensado muito em ti. Pensei em tudo o que disseste e quero estar contigo". Renato Seabra passa o fim de semana seguinte em Lisboa, no apartamento que Carlos Castro acaba de arrendar nas luxuosas Twin Towers, entre Sete Rios e CampolideE antes de o mês de outubro chegar ao fim, vão estar a fazer a primeira viagem juntos a Londres. A seguir, hão de ir a Madrid e só depois irão finalmente voar em primeira classe para Nova Iorque. Tudo pago pelo cronista social. Como de costume, Carlos Castro só se contenta com o melhor e não poupa nas despesas, assinala o também cronista social Abel Dias.
Carlos Castro sempre deu vida boa às pessoas que viviam com ele. Eram parceiros de luta, eram parceiros de vida. E se ele vivia bem e tinha uma casa grande, eles também tinham. E se eles tinham chegado de uma vida um bocadinho mais abaixo ou um bocadão mais abaixo, viam subir.
Por estes dias, Carlos Castro não anda, levita. O que é dele, é de Renato e não se coíbe de contar a toda a gente que tem um novo namorado.
Ele disse-me que estava apaixonado, mas ele era um pinga-amor.
Palmira Correia também foi jornalista. Trabalhou durante décadas em revistas do social e chegou a ser chefe de redação da Nova Gente, numa altura em que Carlos Castro era colaborador regular da publicação. Também mora nas Twin Towers. Aliás, mora ela, mora Carlos Castro e mora Cláudio Montez, o melhor amigo do cronista social. De vez em quando, encontram-se todos no centro comercial, que funciona no rés-do-chão e que une as Torres Gémeas de Lisboa. Num desses dias, é apresentada a Renato Seabra.
Um dia, no centro comercial, ele passou e disse: "Olha, este é o Renato". E o Renato ficou assim um bocadinho colhido, não disse nada, mas também não disse à frente do Renato: "Olha, este é que é o meu namorado novo que eu te falei". Disse apenas: "Olha, este é o Renato".
Cláudio Montez é quem mais priva com o recém-formado casal. No início de dezembro, já depois da viagem a dois a Londres, há de ir com Carlos e Renato a Madrid. Vai contar tudo o que aconteceu no livro que publica depois do crime. Descreve Carlos Castro como um romântico, que raramente está sozinho e traduz o que sente para poemas de amor. Um amante possessivo que gosta de estar no controle, de se sentir amado e elogiado, mas que ao fim de algum tempo perde invariável e inevitavelmente o interesse na relação. Mas garante: a paixão por Renato Seabra é diferente. Nunca o tinha visto tão entusiasmado como agora com o Renato, escreve. Carlos Castro não se cansa de dizer ao amigo como estão em sintonia. Renato é sossegado, educado e parece de confiança. Também gosta de visitar museus e de ver musicais. Quando estão juntos em Lisboa, só saem para fazer programas culturais e para almoçar ou jantar. De resto, ficam em casa a ver fotografias, filmes ou a conversar, escreve Cláudio Montez. Carlos Castro contou a Cláudio Montez que um dos grandes objetivos da viagem a Londres era ir ver o Fantasma da Ópera ao West End. Renato também gosta muito de espetáculos, como ele. Renato Seabra também fala da viagem a um amigo. Vai perceber a polícia de Nova Iorque através da análise da conta de Facebook dele. Mas nas mensagens que lhe envia, não há referências a nada disto. Esconde a relação que mantém com Carlos Castro da família e dos amigos. Diz que vai a Londres para fazer trabalho na moda. "A minha mãe não sabia de nada, só que eu estava lá. Disse-lhe que ficámos em quartos separados. Eu estava a fingir, a mentir", há de confessar Renato Seabra ao psicólogo Jeffrey Singler. Com o fim de semana em Madrid, acontece o mesmo. Carlos e Renato vão para comer tapas, fazer compras e ver o concerto de Natal de Isabel Pantoja, que acaba por ser cancelado. Renato diz aos amigos e à família que vai a Espanha para ter reuniões em agências de modelos. Chegam no dia 3 de dezembro, sexta-feira, hão de ficar até domingo. Na câmara digital de Carlos Castro, que vai ser recuperada no quarto do Hotel Intercontinental, a polícia de Nova Iorque ainda vai encontrar 18 fotografias dessa viagem. Mostram Renato nas ruas de Madrid durante o dia e à noite, Renato na estação de Atocha e Renato no átrio do hotel Tryp Ambassador, onde ficaram instalados, junto à Gran Via. Numa delas, o jovem aspirante a modelo pousa junto a uma árvore de Natal. Noutra, está sentado com ar pensativo a um piano preto de cauda. No livro "As últimas horas de Carlos Castro", Cláudio Montez revela o que fizeram ao longo desses dias, como jantaram num restaurante aconselhado pela mulher de um futebolista português a jogar no Atlético de Madrid, como Carlos comprou a um Renato cheio de frio o sobretudo cinzento que ele iria usar mais tarde na noite do crime. E como logo no primeiro dia, quando iam do aeroporto para o hotel, o amigo lhe fez um pedido que não deixa dúvidas sobre a natureza da relação que mantinha com Renato Seabra. "Não te importas de pedir uma cama de casal? Nós temos vergonha".Por ter ficado em terceiro lugar no programa À Procura do Sonho, Renato Seabra ganhou um contrato de exclusividade com a Face Models, uma das agências de modelos mais conceituadas do país. As conversas que manteve no Facebook revelam à investigação que um mês antes de conhecer Carlos Castro, o aspirante a modelo já estava arrependido de ter assinado com a agência da designer Fátima Lopes. No início de setembro, Renato trocou mensagens com um amigo: "Estive duas vezes em Lisboa para dois castings. Não sei qual era o objetivo, não sei se estava a tentar conseguir aquele trabalho, mas não consegui. Era para um anúncio da Optimus, novamente", escreve Renato. O amigo responde: "Acho sinceramente que não deves ficar na Face Models. Eu sei o que estou a dizer. Não sejas tolo." No dia 7 de setembro, Renato volta a escrever. Percebe-se que confia neste amigo, que valoriza o que ele tem para lhe dizer. "Tivemos de assinar o contrato antes da gala. Achas que fiz mal? A agência parecia muito boa. Agora é aquela altura em que preciso mesmo dos teus conselhos." Cerca de um mês depois, Renato Seabra vai receber também no Facebook o pedido de amizade de Carlos Castro e colocar-se nas mãos do cronista social. Está a estudar Ciências do Desporto na Universidade de Coimbra. Joga basquete no Sport Clube Conimbricense e uma vez por ano participa nos desfiles de moda organizados pelo Rancho Regional Os Esticadinhos de Cantanhede para promover o comércio local. Antes de participar no programa da SIC, toda a experiência que tinha como modelo era esta. Agora que o programa chegou ao fim, continua a não ter muita, diz a designer Fátima Lopes.
Ele chegou à final, não ganhou, e também não quer dizer nada, porque muitos dos que não ganharam fizeram uma grande carreira. Mas ele não tinha feitio para vingar neste mundo da moda, que é preciso realmente ter muita garra, ter uma personalidade muito forte, querer muito, ter uma capacidade de trabalho muito grande, porque muitos dos nossos agenciados viajam imenso e trabalham em vários pontos do mundo. É preciso ter uma personalidade muito forte para conseguir isso, saber ouvir um não e mesmo assim continuar de pé, porque isso faz parte da profissão.
Por esta altura, Carlos Castro assina três colunas na imprensa, uma crônica diária no Correio da Manhã e crônicas semanais nas revistas TV Guia e Flash. Além disso, até há bem pouco tempo, tinha também uma crônica semanal no programa das manhãs da RTP. Ao longo das últimas três décadas, já passou por praticamente todos os canais, jornais e revistas. Aliás, chegou ele próprio a fundar uma publicação, a revista feminina Dona. Conhece muita gente, tem vários livros publicados e é organizador de uma série de eventos em Portugal e junto das comunidades portuguesas no estrangeiro. Daí muitas das viagens que faz regularmente a Nova York. Lilica Nessas é amiga de Carlos Castro há décadas. Garante que o poder que ele tinha no meio era real.
Houve uma grande cronista social que foi a Vera Lagoa, e o lugar dela nunca mais foi preenchido, porque ela sabia fazer com elegância e com savoir-faire, e só falava de quem era mesmo para ser falado. E depois tivemos o Carlos Castro. Só que o Carlos Castro arrasava muito. Arrasava muitas pessoas, falava abertamente, dizia tudo aquilo que lhe apetecia dizer e claro que havia muita gente que não gostava. Ele tinha o poder de acabar com uma pessoa mesmo. Uma pessoa que começava a ser convidada para festas, que começava a aparecer em todo lado. Se de repente havia qualquer coisa que ele não gostasse, ele arrasava e a pessoa não era convidada para mais nada, ficava em casa, e pronto.
Aquilo que Carlos Castro não tinha, garante Fátima Lopes, era qualquer tipo de poder ou influência para ajudar Renato Seabra a construir uma carreira como modelo.
Nós não fazíamos a mínima ideia que ele sequer tinha este conhecimento ou este contacto com o Carlos Castro, porque se nos dissesse que queria subir na carreira através do Carlos Castro, era impossível. Isso nunca aconteceria, nem com ele nem com ninguém, porque o Carlos Castro não tinha esse poder. Só quem tem esse poder de lançar carreiras na moda são as agências de modelos. Neste caso era a Face, com o contrato de exclusividade que ele tinha, nunca poderia trabalhar com mais ou através de mais ninguém, a não ser com a Face. Os nossos agenciados, quando querem ir lá para fora, e nós temos dezenas de miúdos em agências em todo lado, Milão, Paris, Madrid, sei lá, várias cidades alemãs, China, Estados Unidos, no mundo inteiro, todos os nossos agenciados saem daqui com o contrato na mão, porque somos nós que fazemos parceria com as outras agências. Nós somos a agência mãe, fazemos um contrato com as agências estrangeiras e eles vão com segurança. Ninguém sai daqui sem um contrato assinado.
1 de dezembro de 2010, Dia Mundial da Luta contra a AIDS e de mais uma gala solidária da Associação Abraço. Faltam dois dias para Carlos Castro e Renato Seabra embarcarem num avião rumo a Madri, na companhia de Cláudio Montez. Dentro de 26 dias, têm bilhetes comprados para Nova York, só os dois. Em 37 dias, Carlos Castro estará morto. A noite vai a meio e o Teatro São Luiz, em Lisboa, está lotado. Já subiram ao palco dezenas de artistas e nos camarins ainda estão muitos mais, prontos para atuar. São drag queens e transformistas vindos de todo o país, mas também caras conhecidas da televisão como Bel Dominique, Vítor de Sousa, Vanda Stuart, Marisa e Simone de Oliveira. Há 18 anos que Carlos Castro organiza o evento, também conhecido como a Gala dos Travestis.
Nas galas do Carlos Castro entravam os travestis todos. Era a noite dos travestis e vinham de Braga, vinham do Porto, todos entravam. De maneira que aquilo não acabava nunca, acabava às 3 h ou às 4 h da manhã, porque ele dava espaço a toda a gente nessa noite, era a noite deles.
Lilicaneças nunca faltou a uma gala da Abraço. Recorda que é durante o intervalo do espetáculo que o amigo sobe ao palco e pega no microfone. Quando chegou a Lisboa, vindo de Angola, onde viveu até aos 30 anos, Carlos Castro também atuou como travesti. Esta noite quer apenas fazer um anúncio. Está apaixonado. Encontrou o amor da vida dele e vai com ele passar o Réveillon em Nova York.
Eu, quando ouvi aquele disparate todo, a minha alma gêmea, o amor da minha vida, disse: "Pronto, agora é que ele está passado".
Os mais próximos não são completamente apanhados de surpresa. Sabem quem é este amor. Alguns até já conhecem Renato Seabra. Só não estavam à espera que o amigo, geralmente tão discreto sobre a própria vida íntima, anunciasse assim a nova relação ao mundo. Lilicaneça já foi apresentada a Renato durante um evento. Depois do anúncio, ainda hesita, mas acaba por ir ter com o amigo ao camarim. Está decidida a chamá-lo à razão. Carlos tem 65 anos, Renato 21. Conhecem-se há dois meses, nem tanto. Aquilo não pode ser amor.
Fui ao camarim, peguei nele, arriscando pela primeira vez na vida ser muito desagradável com ele, peguei-lhe no cabelo e disse: "Olha para o espelho. Olha para o espelho, o que é que tu vês? Vê, diz-me o que é que tu vês". "Mas o que é que tu queres?" "Quero que olhes para o espelho e digas-me o que é que tu vês, mas se tu não me quiseres dizer, eu digo-te. Vês um homenzinho, baixo, cabelo branco, velho, cheio de rugas, barrigudo, com a pele toda manchada e tu achas que o miúdo com 1,85 m, lindo de morrer, vai se apaixonar por ti e que vão para Nova York passar a honeymoon e o Réveillon?" Ele está apaixonado pela minha alma, ele está apaixonado pela minha inteligência. Ele estava mesmo convencido que ele estava apaixonado por ele.
Lili não desiste. Há anos que têm o hábito, ela, Carlos e outros amigos, de passar o Réveillon no Casino do Estoril. Encontram-se em casa dela, em Cascais, e depois seguem todos juntos para a festa, de limusine.
Eu disse: "Ó Carlos, não vais para Nova York, como de costume, vem comigo para o casino".
Mas Carlos mantém-se irredutível. Já tem os bilhetes de avião comprados. O hotel está marcado. Vai mesmo passar o ano em Nova York.
Não, é a minha felicidade que está em jogo e desta vez é amor.
27 de dezembro de 2010, uma segunda-feira. Renato Seabra passou a consoada em Cantanhede, mas antes disso, em Lisboa, ajudou Carlos Castro a fazer a árvore de Natal. Para o norte, levou uma série de presentes que o cronista social comprou para ele, para a mãe, para a avó e para a irmã, que está grávida. Passou tempo com a família, esteve com os amigos e até foi ao cinema com uma amiga especial, que conheceu há um ano através de outra rede social, o Hi5. Viram uma comédia romântica francesa. Agora, está finalmente na hora de embarcar rumo a Nova York. Carlos Castro e Renato Seabra já estão no aeroporto de Lisboa quando percebem que no destino há uma tempestade de neve fortíssima. As rajadas de vento chegam a atingir os 96 km/h e a visibilidade em terra e no ar é praticamente nula. Todas as viagens terrestres e aéreas na zona de Nova York estão interrompidas. E isso inclui o voo que estavam prestes a apanhar para o Aeroporto Internacional de Newark. Por isso, não têm alternativa senão voltar ao apartamento nas Twin Towers. No dia seguinte, à mesma hora, regressam ao terminal e mais uma vez são informados de que a situação meteorológica não se alterou no destinoNova Iorque está a ser assolada por uma das maiores tempestades de que há memória.
The storm, snow and strong winds have slammed the eastern seaboard of the United States with New York directly in their path. Forecasters are predicting up to 64 cm, with the record levels of snow already causing havoc for travelers.
Pelo segundo dia consecutivo, Carlos Castro e Renato Seabra regressam a casa. Na melhor das hipóteses, só vão conseguir voar no dia 29, quarta-feira, e só se a neve abrandar. O plano inicial era passar 11 dias em Nova Iorque, de 27 de dezembro a 6 de janeiro. Com estes cancelamentos, a estadia está a ficar cada vez mais curta. Quando chega a casa, Carlos Castro contacta a agência de viagens. Ainda antes de saber se vão mesmo conseguir embarcar no dia seguinte, altera o regresso para dia 15 de janeiro. A polícia de Nova Iorque vai reconstituir todos estes avanços e recuos através dos registos da American Airlines e do Hotel Intercontinental. Vanda Pires, a amiga de Carlos Castro em Nova Iorque, vai revelar outra informação. Foi também por causa do mau tempo que a viagem deixou de incluir uma passagem por Las Vegas. Carlos Castro e Renato Seabra gostavam de jogar no cassino. Já o tinham feito em Madrid. Nos Estados Unidos, vão reservar um dia para ir a Atlantic City, a mini Las Vegas, a 200 km de Nova Iorque, no estado de New Jersey. Com as duas falsas partidas de Lisboa e o prolongamento da estadia no Hotel Intercontinental, passaram a ter umas férias de 18 dias. O que não lhes falta é tempo. Aliás, como as autoridades vão perceber, ao reconstituir passo a passo os dias do cronista social e do aspirante a modelo em Nova Iorque, a viagem de Carlos Castro e Renato Seabra acabou por revelar-se longa demais. No início, os portugueses estavam efetivamente em clima de lua de mel. Depois, deixaram de estar. Na véspera de ser brutalmente assassinado, no interior do quarto 3416, Carlos Castro estava furioso com Renato Seabra. Durante a madrugada, ficou ainda mais. Mas essa é uma história para o próximo episódio. O Observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado e com o próprio Renato Seabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. No próximo episódio.
Aquele era um dos momentos mais felizes do Carlos, em que ele parecia estar mesmo a viver uma paixão.
Ele sempre mais não quis. Não era fácil. E era de rapazes bonitos.
O Renato nada fazia parecer que fosse homossexual. Os amigos não sabiam, a família não sei se sabia ou não, mas na agência ninguém sabia ou pelo menos ele nunca assumiu.
"Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da SIC. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
