O estádio mais pequeno do Mundial 2026 não era sinónimo de um jogo pequeno. Em Toronto, no BMO Field, Canadá e Bósnia cruzavam-se no terceiro jogo do Campeonato do Mundo e no arranque de um Grupo B onde a Suíça é favorita e o passaporte do segundo e até do terceiro lugar está à mão de semear face às fragilidades do Qatar. Com mais uma cerimónia de abertura, desta feita em território canadiano e no único dos três países-anfitriões que nunca tinha recebido um Mundial, Michael Bublé, Alanis Morissette e companhia fizeram a festa antes de a bola rolar.

Um cântico indígena, uma cantora palestiniana, Bublé e Morissette: o mosaico cultura da cerimónia de abertura do Mundial no Canadá

Do lado do Canadá, que participava numa fase final de um Campeonato do Mundo apenas pela terceira vez, o objetivo claro era alcançar a primeira vitória de sempre na competição. Do lado da Bósnia, que até aqui só tinha estado no Mundial do Brasil em 2014, o objetivo claro que até roçava o sonho era ultrapassar a fase de grupos pela primeira vez na história. E por muito que as premissas dos bósnios fossem legítimas, todas as antevisões ao jogo apontavam para as quimeras dos canadianos — que a jogar em casa, com adeptos que normalmente estão em bancadas de pavilhões de hóquei no gelo, basquetebol ou até curling, acreditavam poder chegar longe.

E Stephen Eustáquio, médio que ainda pertence aos quadros do FC Porto e esteve emprestado ao LA FC dos EUA, era o capitão canadiano que comandava essas ambições. “Se não ganharmos este primeiro jogo criamos pressão para o segundo jogo, o que pode ser muito difícil. Queremos começar o jogo muito bem e conseguir a vitória. Sabemos que a Bósnia quer o mesmo, é uma equipa muito forte. Já mostraram no passado que, quando as coisas se tornam mais difíceis, é aí que realmente lutam pelo resultado, por isso, mesmo que fiquemos na frente, sabemos que o trabalho ainda não está terminado”, disse o jogador na antevisão, confirmando que este era o jogo mais importante da sua carreira e que, em termos mais práticos, vai torcer por Portugal rumo à conquista do Mundial — ele que chegou a ser internacional pelos Sub-21 portugueses.

Do lado do Canadá, o norte-americano Jesse Marsch deixava os fisicamente limitados Alphonso Davies e Moise Bombito no banco, com Stephen Eustáquio a aparecer no meio-campo e Jonathan David e Tani Oluwaseyi a serem os elementos mais adiantados. Na Bósnia, que eliminou a Itália no derradeiro playoff de acesso ao Campeonato do Mundo, Sergej Barbarez tinha Amar Dedic na direita da defesa, lateral do Benfica, e deixava o trunfo e veteraníssimo Edin Dzeko como suplente.

Assim, em Toronto, Jovo Lukic abriu o marcador ainda na primeira parte, com um cabeceamento depois de um desvio de Kolasinac na sequência de um canto na direita (21′). Os canadianos reagiram essencialmente na segunda parte, com Kolasinac a evitar o empate de Ismael Koné em cima da linha de golo e Nikola Katic a fazer o mesmo a Tani Oluwaseyi, e a resistência bósnia acabou por quebrar por intermédio de Cyle Larin, que entretanto tinha entrado (79′). Já nada mudou até ao fim e Canadá e Bósnia empataram mesmo em Toronto — com os canadianos a manterem a perseguição à primeira vitória num Campeonato do Mundo.

A estrela

  • Entrou aos 75′, marcou aos 79′, esteve perto de ser o herói de um país inteiro. Cyle Larin, avançado do Southampton, fez o golo do empate do Canadá e resgatou um ponto que pode ser importantíssimo para as ambições da equipa de Jesse Marsch. Aos 31 anos, o autêntico globetrotter que já passou por EUA, Turquia, Bélgica, Espanha, Países Baixos e Inglaterra está a participar pela segunda vez num Campeonato do Mundo, depois de já ter estado no Qatar, e revelou-se um autêntico truque na manga para os canadianos.

O joker

  • Aos 32 anos e a par de Edin Dzeko, Sead Kolasinac é um de apenas dois internacionais pela Bósnia que estiveram no Mundial 2014, o último em que o país participou, e que também foram convocados para o de 2026. Ao contrário do compatriota, porém, o central foi titular contra o Canadá — e revelou-se crucial, desviando a bola ao primeiro poste no lance do golo de Jovo Lukic e evitando o empate de Ismael Koné com um alívio em cima da linha que foi em direção à trave.

A sentença

  • Com este resultado, o Grupo B pode mesmo tornar-se um dos mais equilibrados do Mundial 2026. Qatar e Suíça encontram-se este sábado, em São Francisco, e os suíços são obviamente favoritos a ficar no primeiro lugar do quarteto — o que significa que Canadá e Bósnia, partindo do princípio de que vencem os mais frágeis qataris, têm caminho aberto para seguirem em frente para os 16 avos de final através do segundo lugar ou até do terceiro. Algo que nenhum dos países alguma vez alcançou num Campeonato do Mundo.

A mentira

  • O Canadá não é apenas um mero participante por ser país-anfitrião. Se é certo que só conta com outras duas participações em Campeonatos do Mundo e que não tem uma equipa cheia de enormes talentos individuais, a equipa de Jesse Marsch conta com a experiência europeia do treinador norte-americano, um coletivo muito forte e o apoio dos adeptos ao jogar em casa. O que pode ser meio caminho andado rumo a um apuramento para os 16 avos de final do Mundial 2026.