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As bolas paradas são uma das fases mais importantes do jogo, e, na Seleção portuguesa, são meticulosamente preparadas por um escocês. Austin MacPhee, ex-jogador de futebol, tem o papel de planear a marcação de cantos e livres, de forma a que esses lances sejam aproveitados da melhor forma. E o trabalho do treinador de bolas paradas — que durante a época dos clubes está ao serviço dos ingleses do Aston Villa — parece começar a dar frutos: no jogo diante do Uzbequistão, Portugal marcou dois golos de bola parada (sendo que um desses golos surgiu num canto rasteiro) e criou perigo através de um livre bem trabalhado, com Ronaldo a simular o remate e a aparecer mais à frente para receber a bola, depois de um passe por cima dos defesas.
Austin MacPhee teve uma curta e mal sucedida carreira enquanto jogador profissional. Mudou-se para os EUA aos 20 anos, onde jogou durante três épocas no Wilmington Seahawks. Não se afirmou na equipa e foi transferido depois para o Dacia Unirea Brăila, da Roménia. Alinhou ainda, durante três temporadas, no modesto FC Kariya, onde terminou a carreira.
Logo na primeira temporada como treinador, em 2007, MacPhee levou o Cupar Hearts à vitória na Taça Amadora da Escócia, pela primeira vez em 112 anos. Era o prenúncio de uma carreira sempre em crescendo. No ano seguinte, mudou-se para o Cowdenbeath, levando a equipa de uma vila com apenas 14 mil habitantes dos escalões secundários até à segunda divisão da Escócia. Depois disso, MacPhee estava preparado para dar o salto para a primeira divisão, o que aconteceu em 2011, quando integrou a equipa técnica de Danny Lennon no St Mirren. Logo na primeira época, o clube conseguiu o oitavo lugar, a melhor classificação de sempre e ganhou a Taça da Liga escocesa — o primeiro troféu em quase 30 anos.
Em 2014, voltou a entrar na História, desta vez no mundo das seleções. Austin MacPhee mudou-se para a equipa técnica da Irlanda do Norte, onde se destacou na preparação das bolas paradas, que se revelaram essenciais para o apuramento dos norte-irlandeses para o campeonato da Europa de 2016 — o primeiro apuramento desta seleção para fases finais. O selecionador da Irlanda do Norte, Michael O’Neill, elogiou os esforços de MacPhee e a sua “atenção obsessiva aos detalhes”, bem como o seu excelente trabalho com bolas paradas, que resultou em onze golos na fase de apuramento.
O choque térmico de 10 jogadores a coroar a merecida estátua (a crónica do Portugal-Uzbequistão)
Vendo o trabalho com as bolas paradas cada vez mais reconhecido, MacPhee começou, em 2016, a acumular o trabalho nos clubes com o trabalho nas seleções, algo que continua a fazer até hoje. Nesse ano, o treinador escocês concordou em assumir o cargo de novo treinador adjunto de Ian Cathro no Heart of Midlothian, e o clube anunciou que o treinador continuaria a trabalhar com a Irlanda do Norte. Depois, MacPhee foi contratado pelos dinamarqueses do Midtjylland como treinador especialista em bolas paradas. Logo na primeira época com o escocês na equipa técnica, o clube qualificou-se para a Liga dos Campeões.
O grande salto na carreira acabaria por acontecer em 2021, quando o trabalho de MacPhee chamou a atenção do Aston Villa. Ao mesmo tempo que se mudava para Birmingham, o treinador desvinculou-se da seleção da Irlanda do Norte e passou a treinar a Escócia durante os períodos de compromissos de seleções.
E o desempenho do treinador na Premier League não desiludiu. Na temporada 2023–24, o Villa marcou o maior número de golos de bola parada na Europa, convertendo 25 destes lances, e qualificou-se para a Liga dos Campeões. Na última época, os golos de bola parada contribuíram também muito para a conquista da Liga Europa, o que levou os adeptos do Aston Villa a cantar o nome de MacPhee nas bancadas durante o jogo da final. Os villans já não venciam uma competição europeia desde 2002 (quando ganharam a Taça Intertoto).
Em fevereiro de 2025, a Federação Portuguesa de Futebol avançou para a contratação de Austin MacPhee, que veio substituir Anthony Barry — outro treinador adjunto especialista em bolas paradas que deixou Portugal para se juntar à equipa técnica de Thomas Tuchel na seleção inglesa.
É golo de Portugal (Abduvakhid Nematov – AutoGolo) aos 60 minutos. ????
????️ Portugal 4 – 0 Uzbequistãopic.twitter.com/XsMFn3zuDj
— ReplayTuga (@ReplayTugaV2) June 23, 2026
O trabalho de MacPhee na seleção das quinas parece começar a dar frutos. No jogo desta terça-feira diante do Uzbequistão, que Portugal venceu por 5-0, sucederam-se os lances de perigo na sequência de bolas paradas. Para além do golo na sequência de livre, marcado por Nuno Mendes na primeira parte, houve dois lances “de laboratório” que levaram muito perigo à baliza da seleção asiática.
Aos 58 minutos, num livre ainda longe da linha da grande área, três jogadores de Portugal posicionaram-se junto à bola. Cristino Ronaldo simulou que seria ele a bater, o que não aconteceu. Mas CR7 acabou por se posicionar na área, com Bruno Fernandes a picar a bola por cima dos adversários, numa lance estudado — e que só não resultou em golo devido à rápida saída da baliza do guarda-redes uzbeque.
58' – WHAT A SMART FREE KICK!!! RONALDO ALMOST GETS HIS GOAL!!!! POSSIBLE PENALTY???
PORTUGAL vs. UZBEKISTAN #FIFAWORLDCUP #WORLDCUP https://t.co/SQ37SNi9YB
— 90Mins (@90MinsHub) June 23, 2026
No minuto seguinte, o quarto golo de Portugal acabaria por surgir na sequência de um canto pouco habitual. Bruno Fernandes bateu a bola rasteira ao primeiro poste, com três jogadores de Portugal (João Félix, Cristiano Ronaldo e Rúben Dias) a aparecerem ao primeiro poste para desviar a bola — que acabou por entrar por ação inadvertida do guarda-redes do Uzbequistão, que fez autogolo.