A Bósnia já jogou contra o Canadá e contra a Suíça no Mundial 2026 e a verdade é que os mais atentos terão reparado que, nas bancadas e durante os dois jogos, surgia constantemente e recorrentemente uma bandeira que não é a que associamos aos bósnios. Em Toronto e em Los Angeles, contra canadianos e suíços, o apoio à Bósnia nem sempre foi feito com a bandeira azul e amarela, com as cores divididas na diagonal e por uma linha de estrelas brancas. E o motivo é o espelho de um país.
A atual bandeira da Bósnia foi instituída em 1998 e por pressão externa e internacional, na sequência do fim da Guerra da Bósnia que durou três anos e matou mais de 100 mil pessoas. A ideia, muito alimentada e sublinhada pelo Ocidente, era encontrar uma bandeira que juntasse e agregasse os três principais grupos étnicos bósnios: os maioritários bosníacos, muçulmanos, e os minoritários sérvios, ortodoxos, e croatas, católicos. Durante quase três décadas, a bandeira foi unânime e aceite por todos. Mas o mundo está a mudar — e as opiniões também.
Kako je lijepo danas biti Bosanac i Hercegovac pic.twitter.com/RGFaHTh4BB
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Com Donald Trump a virar o azimute dos EUA para o apoio aos nacionalistas e ortodoxos sérvios, retirando o respaldo norte-americano à maioria muçulmana, os bosníacos estão a regressar a uma raiz patriota e identitária que também recuperou a bandeira pré-Guerra da Bósnia. Por todo o lado, desde a própria Bósnia até às bancadas dos jogos do Mundial 2026, a bandeira azul e amarela tem desaparecido para dar lugar à antiga: essencialmente branca, com lírios dourados num escudo azul.
Era neste contexto que, esta quarta-feira, a Bósnia procurava um resultado que lhe permitisse ultrapassar a fase de grupos do primeiro Campeonato do Mundo do país em 12 anos. Depois do empate contra o Canadá na estreia e da goleada sofrida contra a Suíça no segundo jogo, os bósnios defrontavam um Qatar de Julen Lopetegui que também empatou com os suíços na estreia e foi goleado pelos canadianos no segundo jogo. Em resumo, ambos procuravam uma vitória boa e folgada que garantisse uma das oito vagas enquanto melhor terceiro classificado.
Amar Dedic, lateral bósnio do Benfica, falhava o jogo por lesão, enquanto que Assim Madibo e Homam Ahmed eram baixas nos qataris depois de terem sido expulsos na jornada anterior. A Bósnia começou muito melhor, com Demirovic (2′) e Ivan Sunjic (3′) a obrigarem Mahmud Abunada a duas defesas importantes logo nos instantes iniciais. Akram Afif ainda assustou, num lance em que Sunjic foi crucial ao evitar a finalização quando o avançado seguia isolado (14′), mas o quase inevitável acabou por não demorar.
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Sultan Al-Brake na própria baliza e Hassan Al-Haydos a fazerem o marcador mexer por mais duas vezes ????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #bosnia #catar #betano pic.twitter.com/5TioZ2gYg6
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Demasiada cerimónia da defesa do Catar e Mahmic marcou ????????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #bosnia #betano pic.twitter.com/VZhej9qCTj
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Kerim Alajbegovic abriu o marcador com um remate brutal de fora de área (29′) e um autogolo de Sultan Al Brake aumentou a vantagem logo a seguir (34′). Edin Dzeko ainda acertou no poste até ao fim da primeira parte (38′), mas a superioridade dos bósnios acabou por dar lugar a uma inesperada reação qatari. Hassan Al Haydos ainda reduziu (42′) e Pedro Miguel, já nos descontos, acertou no poste (45+3′). Ao intervalo, contudo, a Bósnia estava a vencer o Qatar em Seattle — enquanto que, em Vancouver, Suíça e Canadá estavam ainda empatados sem golos.
A segunda parte começou com um ritmo interessante, sem que nenhuma das equipas tivesse propriamente um grande ascendente e o jogo a tornar-se algo partido no meio-campo e mais propenso a transições rápidas. Os minutos foram passando sem situações de perigo à exceção de um remate de Akram Afif à malha lateral (58′), Edin Dzeko ainda teve tempo para fazer uma birra quando foi substituído e atirar uma garrafa de água ao chão e Ermin Mahmic fechou as contas já perto do fim (80′). A Bósnia venceu o Qatar em Seattle e somou a segunda vitória de sempre em Campeonatos do Mundo — os bósnios ficaram no terceiro lugar do Grupo B e têm de esperar pelo fim da fase de grupos para saberem se são apurados, enquanto que os qataris estão desde já eliminados.
A estrela
- Foi aos 29 minutos, ali mesmo antes da meia-hora. Kerim Alajbegovic recebeu na esquerda, puxou para dentro e atirou de fora de área para bater Mahmud Abunada, abrindo o marcador do que acabou por ser uma vitória da Bósnia contra o Qatar. Mas fez mais do que isso: com apenas 18 anos e nove meses, entrou no top 10 de jogadores mais jovens a marcar em Mundiais, numa lista que continua a ser liderada por Pelé e que também conta com Lionel Messi, Lamine Yamal e Michael Owen. O avançado nasceu na Alemanha, fez a formação entre o Colónia e o Bayer Leverkusen e passou a última temporada no RB Salzburgo, mas já sabe que irá voltar aos farmacêuticos na próxima época.
O joker
- Marcou o golo de honra da Bósnia contra a Suíça, marcou o golo que fechou a vitória da Bósnia contra o Qatar. Com apenas 21 anos, Ermin Mahmic tem sido dos jogadores bósnios mais importantes e influentes no Mundial 2026 e até tem a particularidade de coroar as exibições interessantes e positivas com golos. Nascido em Wels, na Áustria, chegou a representar os austríacos nos Sub-17 e nos Sub-21 antes de escolher a Bósnia e joga no Slovan Liberec da República Checa.
A sentença
- Com este resultado, a Bósnia somou apenas a segunda vitória da sua história em Campeonatos do Mundo, depois do triunfo contra o Irão em 2014, e encerrou a fase de grupos do Mundial 2026 com quatro pontos e no terceiro lugar do Grupo B: a Suíça venceu o grupo, com sete pontos, e o Canadá ficou no segundo lugar, também com quatro pontos, mas com vantagem face aos bósnios devido à diferença de golos. A Bósnia fica agora à espera de saber se é um dos oito melhores terceiros classificados e segue para os 16 avos de final, sendo que aí, consoante a classificação, já sabe que irá defrontar Alemanha ou EUA.
A mentira
- O Qatar ainda não é uma equipa competitiva num Campeonato do Mundo. Apesar de ter dado o salto nos últimos quatro anos, conseguindo apurar-se para um Mundial pela primeira vez por mérito próprio depois de lá ter estado em 2022 como país-anfitrião, a seleção qatari continua a revelar fragilidades coletivas e individuais que não chegam para ultrapassar a fase de grupos de uma competição desta magnitude. E nem Julen Lopetegui chegou para o esconder.