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Em Annecy 2026, triunfam “The Violinist” e o excepcional “Le corset”

“Decorado”, produção luso-espanhola do galego Alberto Vázquez, voltou a ser premiado, assim como a curta “Porque Hoje é Sábado”, de Alice Eça Guimarães.

“The Violinist”, de Ervin Han e Raul Garcia, ficou com o Cristal de Annecy
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▲“The Violinist”, de Ervin Han e Raul Garcia, ficou com o Cristal de Annecy

Ervin HAN

▲“The Violinist”, de Ervin Han e Raul Garcia, ficou com o Cristal de Annecy

Ervin HAN

Nas salas do Festival de Annecy, durante a curta visita que este ano fizemos ao epicentro mundial do cinema animado, todos os dias alguém recordava que a animação “não é um género” (horrível cliché que continua a grudar-se a esta arte e aos seus artistas), mas sim “uma técnica”, diversificada, criativa, preciosa — capaz de abraçar os géneros todos, pois claro. Chris Meledandri, fundador e produtor da Illumination, foi um dos que tocou no assunto a propósito de Mínimos e Monstros, ladeado pelo realizador Pierre Coffin.

O novo tomo da franquia, que se estreará esta quarta-feira, 1 de julho, nas salas, pode já não trazer a frescura e o efeito surpresa do primeiro episódio, mas é sério e certeiro a tocar, não diria em todos, mas numa bela mão-cheia de géneros cinematográficos, agora que as criaturas amarelas se descobrem transportadas para os anos 20 de Hollywood, do filme de aventuras cruzado com ficção-científica à comédia slapstick, em homenagem a Harold Lloyd, Buster Keaton e Chaplin. Foi o tempo em que o cinema mudo estava prestes a ceder o lugar ao sonoro — a propósito, o filme não esquece a produção e deixa-nos uma divertida paródia aos irmãos Warner. A Mínimos e Monstros voltaremos, guiados por Meledandri e Coffin, em texto próximo, levados pela graça do blockbuster animado que a Veneza dos Alpes lançou na cerimónia de abertura.

▲ A equipa do filme vencedor: “The Violinist”

EP

A competição de longas-metragens que o Cristal distingue todos os anos, essa, foi bem mais arriscada e radical, juntando o que de melhor se verá no campo da animação no resto do ano. Foi este o concurso que levou a maior parte da atenção dos 19 mil acreditados, oriundos de 120 países, que passaram pela cidade. Annecy, de resto, continua a bater recordes neste campo, com cifras que, há pouco tempo, não eram sequer possíveis de imaginar. Para se ter uma ideia, um gigante como o Festival de Berlim credenciou este ano 19.500 pessoas. Annecy está muito perto disso, prestes a subir ao segundo lugar do pódio. Apenas Cannes supera estes números.

O festival foi ganho por The Violinist, co-produção internacional centrada na Singapura e obra co-realizada pelo singapurense Ervin Han e pelo experiente artista espanhol Raul Garcia. The Violinist arranca no tempo presente, com uma célebre violinista de idade avançada que nos leva em seguida, pelas suas memórias, até à II Guerra Mundial, durante a ocupação nipónica da Singapura em que a protagonista, jovem apaixonada, tenta não perder o rasto do rapaz pouco mais velho, também ele dotado para a música, por quem se deixou encantar na adolescência. Se a guerra separa os corpos, a música continua a unir os espíritos deste elegante fresco romanesco, ciente dos passos que quer dar, e que deixa a audiência a pensar nos grandes épicos românticos como Tempo para Amar e Tempo para Morrer ou Doutor Jivago — experiência essa que, evidentemente, é rara de se encontrar no cinema de animação. Com o Cristal no portefólio, The Violinist começa agora a trilhar o percurso internacional de Flow, em 2024, e de Arco, em 2025, galardoados com o mesmo prémio (e o primeiro com o Óscar da categoria).

E contudo, The Violinist, que é um bom filme, não chega a ombrear com os citados, falta-lhe um grão na asa, um rasgo de maior, como aquele que o autor destas linhas encontrou no filme que deveria ter saído vencedor, pois é sublime: Le corset, novo trabalho do ex-animador da Pixar (e co-realizador de dois Astérix), Louis Clichy. Já recompensado, em Cannes, com o Prémio Especial do Júri do Un Certain Regard, Le corset “perdeu” o Cristal, mas ficou com o Prémio do Júri, o do Público e o da Fundação Gan.

Le corset passa-se nos anos 80 em Beauce, região agrícola do Centro-Vale do Loire, e está ancorado numa veia realista campestre que outrora fez escola na cinematografia francesa. Rodeado de vacas, ovelhas e tractores na quinta em que a família ganha o seu pão, Christophe, miúdo de 11 anos e herói da história, vê-se obrigado, certo dia, a usar um colete ortopédico metálico para corrigir a escoliose que o aflige. Por isso mesmo se chama o filme Iron Boy, no seu título internacional. O colete vai obviamente condicionar Christophe no dia-a-dia e na relação com as outras crianças enquanto, na visita à Igreja, ele vai pensando em milagres, identificando-se com a estátua de Cristo crucificado, com a cabeça inclinada. Uma coisa leva a outra, chamem-lhe milagre ou não: é o órgão da igreja que o desperta para a música. E, em seguida, ele encontra Clara, que lhe acelera o ritmo cardíaco.

Vagamente inspirado em episódios biográficos do seu autor (que também cresceu em Beauce e usou colete semelhante na meninice), Le corset é um dos grandes filmes deste ano, notável a fixar com sensibilidade e humor as ansiedades da entrada na adolescência, aquilo que lhe é mais íntimo. Afinal, quem se sente bem na sua própria pele nessa idade? É um trabalho superlativo, fadado para altíssimos voos e, em França, seguramente, um enorme êxito de bilheteira que se avizinha, acompanhado, na banda-sonora, pela recuperação de Ouragan, o hit que a princesa Stéphanie do Mónaco lançou naqueles anos 80.

A concurso estavam títulos de inegável valor que ganharão igualmente importância nos próximos meses, também eles apresentados previamente em Cannes: In Waves, de Phuong Mai Nguyen (produção francófona, embora falada em inglês e que decorre na Califórnia), Lucy Lost, de Olivier Clert, muito influenciado no traço pelo trabalho inicial de Miyazaki (disputará com Le corset as atenções do cinema animado em França), também o norte-americano Tangles, de Leah Nelson, filme perturbador, tanto a nível cinematográfico como emocional, sobre o regresso de uma mulher à sua cidade conservadora e a realidade cruel de uma mãe que sofre de Alzheimer.

▲ “Le corset”, de Louis Clichy: três prémios em Annecy e um dos melhores filmes do ano; e “Tangles”, de Leah Nelson

“Decorado” arrecada o Prémio Paul Grimault

Ao palco do Centro Bonlieu, na cerimónia de sábado passado, subiu também a equipa de Decorado, do galego Alberto Vázquez, filme que está farto de arrecadar prémios desde a sua estreia no Fantastic Fest do ano passado, incluíndo um Goya. Mesmo sem a premissa da estreia mundial, Annecy não quis deixar de lado a notável produção ibérica que envolveu a produtora portuguesa Sardinha em Lata, de Nuno Beato. É um filme ambicioso e sombrio, fábula existencialista em que a personagem principal começa a suspeitar que o mundo à sua volta não passa de uma ilusão, fachada criada pela mega-corporação de uma sociedade distópica. Agora é esperar pela estreia comercial em sala — e que esta não tarde… Decorado é um dos pontos fortes da animação contemporânea. Arrecadou o Prémio Paul Grimault, que Annecy atribui desde 2023 a uma obra especialmente ousada e criativa.

▲ À esquerda: Nuno Beato (produtor), Alberto Vázquez (realizador) e Chelo Loureiro (produtora) com o prémio atribuído a “Decorado”; à direita, o filme

EP

Portugal teve mais a dizer em Annecy. Virgem Fandango, curta realizada pel norte-americana Marcy Page, com produção de Abi Feijó, é tecnicamente inovadora no que apresenta, animando em milhares de ajulezos pintados uma narrativa feminista que fala em nome de todas as mulheres que souberam levantar a sua voz ao longo da História. Não arrebata emocionalmente, como Ice Merchants, de João Gonzalez, ou Percebes, de Laura Gonçalves e Alexandra Ramires (duas glórias da animação lusa recente), mas, a nível técnico, é um filme simplesmente prodigioso. Acrescente-se que Abi Feijó integrou este ano o júri das Obras Imersivas. Fernando Galrito, director da Monstra, participou no júri de Filmes de TV e de Encomenda.

▲ “Virgem Fandango”, curta realizada pela norte-americana Marcy Page, com produção de Abi Feijó

Marcy PAGE

Também premiada anteriormente em diversos festivais, a curta Porque Hoje é Sábado, de Alice Eça Guimarães, fixa com poesia e realismo a “via sacra” da mãe e dona de casa subjugada aos seus afazeres domésticos (e à beira de um ataque de nervos), como se ela carregasse nos ombros a responsabilidade e o peso do mundo. É um belíssimo filme feminista, também este, lírico e cruel como outras produções da Animais APVL, o estúdio do Porto fundado por Nuno Amorim e José Pedro Cavalheiro. Venceu o Prémio da Cidade de Annecy. Filha da Água, de Sandra Desmazières, co-produção do mesmo estúdio, concorreu na Competição de Curtas-Metragens, conquistada por Paper Trail, de Don Hertzfeldt (EUA).

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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