Em 2075, uma menina de 10 anos chamada Iris observa a chegada de um misterioso rapaz da sua idade caído do céu num feixe luminoso, com as cores do arco-íris. Ele chama-se Arco, sabe falar com os pássaros, vem de um futuro longínquo — do ano 2932 — em que a humanidade existe harmoniosamente com a vida que a rodeia. As duas crianças estão prestes a tornar-se nos melhores amigos desta maravilha do cinema animado. Antes disso, ficamos a saber que o desobediente miúdo não resistiu à curiosidade de vestir pela primeira vez a capa de arco-íris que lhe permite viajar no tempo, apesar de ainda não ter idade (nem autorização dos pais).
Depois, fica sem norte. Esbardalha-se sem controlo em 2075, perdendo também a pedra preciosa que permitiria teletransportá-lo de regresso a casa. Estacionamos, portanto, no tempo de Iris, assolado por catástrofes climáticas e assaz desumanizado, a um ponto tal que os pais falam com os filhos à distância, por hologramas, enquanto robôs humanóides tratam da lida da casa e cuidam do bem-estar das crianças. Um tempo que, para o herói do filme, é passado e, para o espectador, um futuro próximo e convincente, infelizmente para nós, reconhecível.
Arco é uma animação francesa de aventuras “feita à unha” com “tudo desenhado à mão, dos incêndios às lágrimas” (palavras do seu autor), manifestamente inspirado pelo anime nipónico, em cruzamento feliz com a ficção-científica. As carências afectivas entre pais e filhos estão no coração do filme, com particular importância no seu desfecho. Trata-se da primeira longa-metragem de Ugo Bienvenu, 38 anos, ilustrador, argumentista, autor de bandas-desenhadas, produtor e cineasta instalado em Paris.
Filho de um diplomata e de uma designer gráfica, Ugo passou a infância na Guatemala, no Chade, depois no México. Dotado desde sempre para o desenho, inscreveu-se aos 15 anos na École Estienne, que lhe apurou a arte, meio caminho andado para formar-se, anos depois, na mítica Gobelins, estabelecimento de ensino superior direccionado a todas as disciplinas que do desenho dependem, da ilustração e do cinema animado aos videojogos. Há 40 anos que a Gobelins [onde Ugo, após ter sido aluno, também foi docente] está umbilicalmente ligada ao Festival de Annecy, que o cineasta conhece como a palma das mãos. Ali se habituou ele a estrear, vai para mais de uma década, as suas curtas mais significativas.
Arco foi exibido em estreia mundial na azáfama de Cannes 2025, na secção secundária Sessões Especiais, fora de concurso e longe dos holofotes mais luminosos da Croisette, pese embora a preciosa ajuda à promoção de Sophie Mas e, especialmente, da actriz Natalie Portman, estrela internacional que se mudou para Paris em 2022. Ambas entraram na produção do projecto, já o animatic do filme (desenhado por Bienvenu e pelo seu compincha Félix de Givry) estava em fase adiantada. Um mês depois de Cannes, em Junho do ano passado, foi em Annecy que conversámos com o cineasta, na Meca do cinema animado em que Arco encontrou, de facto, a sua verdadeira plateia, com a sala grande do Centro Cultural Bonlieu em completo delírio, a rebentar — como sempre está — pelas costuras. Foi o mais sólido dos filmes a concurso da edição do ano passado, justamente recompensado com o Cristal de Melhor Longa-Metragem.
▲ Arco e Iris, heróis da longa-metragem de estreia do francês Ugo Bienvenu
“Quando acabou a pandemia” — contou o realizador uma vez questionado sobre a origem do projecto — “dei-me conta de que os dias seguintes não se tornariam necessariamente mais risonhos após tamanha depressão. Considero-me um autor de ficção-científica e a pandemia deixara-me a sensação amarga de ter saído de uma ficção-científica bastante aborrecida. Por outro lado, queria muito fazer um filme para crianças e tinha tido esta ideia de um rapaz que surgia no céu, com um fato de arco-íris. Achei que era excelente ideia para um clip [muitos animadores recorrem com frequência a este trabalho, de tal modo o cinema de animação é difícil de financiar] e mostrei-a ao Félix, o meu sócio [na produtora Remembers], que me respondeu: ‘Olha que isto não é para um clip, o que aqui temos é o início de uma longa-metragem’.”
A história de Ugo e Félix foi então escrita contra a depressão, com vontade de deixar alguma coisa com valor emocional que ficasse na memória das gerações futuras. “Não queria mentir aos meus espectadores mais novos, haverá sempre fogos e tempestades neste mundo cada vez mais tecnológico que eles vão encontrar”, continuou o realizador.
“Durante os protestos dos coletes amarelos, e depois com o confinamento, ouvia-se muita gente em França gritar: ‘queremos mudança’. A Iris, no meu filme, também quer que as coisas mudem. Acontece que o Ocidente esqueceu-se de que a mudança tem sempre um preço. E é muito caro. Não sei se estamos dispostos a pagá-lo. Mas se nos reconectarmos com as nossas emoções e com uma experiência física do mundo, se voltarmos a partilhar as nossas aventuras humanas e a confiar uns nos outros, poderemos ser capazes de nos salvar da escuridão da nossa época. Por isso joga este filme com dois tempos, que são um duplo futuro: o amanhã não parece nada bom, mas talvez o depois de amanhã seja melhor. Se observarmos o mundo com atenção, algo de belo pode aparecer, como um arco-íris, que sempre associamos a um sinal de esperança que nos ultrapassa.”
Ugo Bienvenu também nos falou de influências: “Tudo isto, para mim, vem dos meus 7 anos e de Dragon Ball Z, a série que, imediatamente, me deu ganas de desenhar. Só depois descobri a riqueza da banda desenhada franco-belga. Em seguida, veio a descoberta do cinema de Hayao Miyazaki. Este filme deve muito a Miyazaki e à sua gentileza. Com ele aprendi a enfrentar a violência do mundo. Uma violência que existe, sempre subjacente a nível físico ou psicológico, sugerida, mas nunca mostrada.”
▲ Sophie Mas (produtora), Ugo Bienvenu (realizador) e Félix de Givry (co-argumentista) no ano passado, durante o Festival de Annecy
ANNECY FESTIVAL/S. Clément
Quanto à produção, no início do projecto, Ugo e Félix estavam sozinhos. À medida que escreviam a história, desenhavam o storyboard. Passaram a quatro pessoas quando começaram a animar os desenhos. Na fase do layout em que a estrutura visual do filme foi concebida, já eram duas dezenas. A equipa foi crescendo para cinquenta pessoas na fase do desenho dos décors e chegou a um pico de cento e poucos pares de mãos quando todos os animadores foram chamados. Orçamento final: 9,5 milhões de euros.
“Parece muita gente, mas este filme foi inteiramente desenvolvido em Paris, de uma forma artesanal, no nosso estúdio, com uma mão de obra seleccionada e escolhida a dedo por pessoas que nos são próximas. Foi uma equipa bem modesta para o trabalho que está em causa, nada que ver com Hollywood, nem sequer com os Estúdios Ghibli em Tóquio, que podem ter 300 ou 400 pessoas a trabalhar durante 4 anos. Arco custou 15 vezes menos do que qualquer concorrente norte-americano produzido na Califórnia e foi 15 milhões de euros mais barato que a mais barata longa-metragem de animação japonesa.”
Aviso à navegação, pois é informação de capital importância: infelizmente, Arco estreia-se entre nós esta quinta-feira, por enquanto, apenas em versão dobrada em português (sem comentários desta parte à dita, pois não tivemos a oportunidade de escutá-la), afiançando a distribuidora Cinemundo que colocará nas salas a versão original francesa, legendada em português, caso o filme seja nomeado para os Óscares (próximo dia 22). É elevadíssima a probabilidade que tal aconteça. Sem desdém pelo trabalho de dobragem, diga-se que o filme tem imenso a ganhar com a “V.O.” pela emoção que os petizes Oscar Tresanini (Arco) e Margot Ringard Oldra (Iris) colocaram nas suas vozes; já na pele dos “três estarolas” secundários, Dougie, Stewie e Frankie, charlatões de bom coração à cata de bizarros fenómenos celestes, falam os bem mais conhecidos Vincent Macaigne, Louis Garrel e William Lebghil.
▲ Ugo Bienvenu: “Queria muito fazer um filme para crianças e tinha tido esta ideia de um rapaz que surgia no céu, com um fato de arco-íris”
Estes ilustres convidados chegaram à esfera de Arco, em grande parte, pela experiência de actores que Ugo Bienvenu e Félix de Givry tiveram no filme Eden (2014), de Mia Hansen-Løve. “Vincent Macaigne entrou nesse filme, encontro-o frequentemente na rua porque vivemos no mesmo bairro, assim como Golshifteh Farahani, que também estava em Eden e que, por sua vez, me apresentou ao Louis Garrel. O resto do elenco é formado em grande parte por amigos e pessoas que conheço”, disse o realizador.
Por falar em Óscares: fosse o mundo justo (e o filme de Bienvenu também nos fala disso), estaria agora Arco encarrilado para seguir o mesmíssimo caminho de Flow, do letão Gints Zilbalodis, Cristal de Melhor Filme em Annecy 2024 e vencedor do Óscar da categoria em 2025. Acontece que, desta vez, a Coreia do Sul e a Sony, aliadas à Netflix, inventaram o fenómeno das Guerreiras do K-Pop, cinema de animação juvenil em jeito de girl band, cruzado com estrutura de reality show de talentos musicais. Fancaria de encher o olho à parte, foi tiro e queda à escala global — coisinha apenas vista 325 milhões de vezes — e que, entre outras facetas, também pôs a nu o gosto (e a idade mental) dos seus fãs mais crescidos. Ao que tudo indica, desta temporada de prémios, está dito e escrito que, para a produção coreana, serão favas contadas (o Globo de Ouro já canta em Seul). Não há muito mais a fazer. Arco merecia melhor sorte e, já agora, concorrência à sua escala.
O assunto, contudo, não acaba aqui no que à animação francesa diz respeito: esperem pela chegada de Amélie et la métaphysique des tubes / A Pequena Amélie, de Liane-Cho Han Jin Kuang e Maïlys Vallade. Outra estreia mundial de Cannes 2025. Outro concorrente em Annecy 2025. Apontem na agenda, que vale bem a pena: estreia portuguesa nas salas a 19 de março.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico