Bloody hot. Foi assim, ao bom estilo britânico, que Tom Pidcock descreveu a meteorologia com que os ciclistas do Tour estão a lidar neste início de prova. A etapa desta segunda-feira teve temperaturas a rondar os 40º e a etapa desta terça-feira mantinha as previsões, esperando-se algo como 37º na chegada a Foix, no sul de França, já bem perto de Andorra.

“A história é o quão estupidamente quente esteve ao longo de todo o dia. Acho que nunca tinha completado uma etapa tão difícil com tanto calor, estava ridículo. Parecia uma zona de guerra. Acho que no pelotão passámos por umas 10 mil garrafas de água. Não tinha nada para dar no final. Estava completamente cozinhado, cozido. Foi um dia daqueles”, disse Tom Pidcock, acrescentando que “está sempre calor no Tour”, mas “nunca tanto calor”.

Tadej desafiou o Calvário para chegar a França e voltar a fechar a porta: Pogacar bate Vingegaard na primeira chegada em alto e é líder

Era neste contexto que o Tour chegava esta terça-feira à quarta etapa. Tadej Pogacar aparecia com a camisola amarela depois de ter vencido em Les Angles na segunda-feira, sendo que liderava a classificação geral praticamente com o mesmo tempo que Jonas Vingegaard, aproveitando os 720 milésimos de vantagem alcançados no contrarrelógio coletivo. Depois do triunfo, que o deixou novamente com a camisola amarela e engrossou o objetivo de ganhar o Tour pela quinta vez, Pogacar sublinhou a importância do trabalho de Isaac del Toro, colega de equipa que venceu a segunda etapa e o lançou para o primeiro lugar na terceira.

“Foi graças ao Isaac que consegui uma força extra hoje. Ele entregou-se a mais de 100% na subida final, a meio da etapa decidimos que era possível lutar pela vitória. Estou mesmo feliz por termos corrido assim, foi um final incrível. Vestir a camisola amarela é o sonho de qualquer ciclista. Eu já conheço a sensação, mas cada vez que a consigo colocar de novo nos ombros parece algo mesmo especial. Não sei quanto tempo vai durar, mas vamos tentar desfrutar de cada momento”, explicou o esloveno da UAE Emirates.

Ora, esta terça-feira, o Tour ligava Carcassonne a Foix ao longo de 181,9 quilómetros, numa etapa de média montanha com quatro contagens e cerca de 2.800 metros de desnível positivo acumulado. A última subida levava o pelotão até ao Col de Montségur, seguindo-se 35 quilómetros praticamente a descer até à meta que naturalmente facilitavam uma possível fuga e deixavam antever que a vitória dificilmente cairia para os sprinters ou para os homens dedicados à classificação geral, como Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard.

A primeira fuga apareceu logo nos primeiros quilómetros e contava com alguns velocistas, como Mads Pedersen, Biniam Girmay e Jasper Philipsen, mas também com o português Nélson Oliveira, num grupo que incluía cerca de 40 ciclistas e que aos 20 quilómetros contava com 55 segundos de vantagem, passando para os mais de três minutos de vantagem aos 30 quilómetros.

A cerca de 80 quilómetros da meta, já depois das subidas ao Col de Bedos e ao Col du Paradis e durante a subida ao Col de Coudons, Jan Tratnik e Mathias Vacek fugiram da própria fuga e isolaram-se na frente da corrida, criando um grupo de perseguidores que a dada altura já circulava a 40 segundos dos fugitivos. Biniam Girmay e Jasper Philipsen perderam o contacto e colocaram-se quase isolados entre os perseguidores e o pelotão, que já rodava a seis minutos de Tratnik e Vacek.

O grupo perseguidor acelerou no fim da subida ao Col de Coudons e encurtou a distância para os dois homens da frente, com Alex Kirsch a liderar a resposta para acabar por conseguir juntar-se a Jan Tratnik e Mathias Vacek a cerca de 60 quilómetros da meta. Na derradeira subida ao Col de Montségur, os perseguidores anularam definitivamente a fuga e confirmaram que o vencedor da etapa sairia mesmo dali, aumentando para nove minutos a distância para o pelotão e garantindo que, pelo menos virtualmente naquela altura, Tadej Pogacar iria perder a camisola amarela em Foix.

Torstein Traeen, Ramses Debruyne, Pablo Castrillo, Raúl García Pierna e Marco Frigo separaram-se dos perseguidores nos últimos 200 metros da subida e mantiveram alguns segundos de vantagem no início da íngreme descida até à meta, ainda que Sean Quinn, Mads Pedersen, Quinn Simmons e Kévin Vauquelin tivessem conseguido juntar-se a eles. Mais atrás, Michael Matthews e companhia não conseguiram acompanhar e em cerca de 10 quilómetros de descida já estavam a um minuto dos fugitivos.

No fim, Mads Pedersen confirmou o favoritismo e venceu a terceira etapa da carreira na Volta a França, batendo Quinn Simmons e Raúl García Pierna ao sprint, ficando com a camisola verde da classificação por pontos e deixando Torstein Traeen, que foi oitavo, com a camisola amarela. O norueguês da Uno-X Mobility, que foi nono no Tour no ano passado e que também em 2025 teve a camisola vermelha da Vuelta durante quatro dias, roubou assim a liderança da classificação geral a Tadej Pogacar e ficou com 28 segundos de vantagem para Sean Quinn — e quase oito minutos para Pogacar e Vingegaard.