O Campeonato do Mundo de 2006 começou a ser jogado muito antes de a bola começar a rolar na Alemanha. Anos antes, o Brasil era considerado o favorito a receber a fase final, mas acabou por abdicar a três dias da decisão da FIFA, por considerar que tinha hipóteses diminutas. Ao segundo dia e ao cabo de três votações, a Alemanha acabou por bater a África do Sul por um voto, depois de a Nova Zelândia se ter abstido. Charlie Dempsey era o representante do país da Oceânia e, depois de ter apoiado Inglaterra, tinha recebido indicações para votar na África do Sul, optando por se abster por “pressões insuportáveis” na véspera da votação final. Caso tivesse votado nos sul-africanos, a votação ficava empatada e a decisão era tomada pelo presidente da FIFA, Joseph Blatter, que apoiava a candidatura da África do Sul.

Meses antes da decisão, políticos alemães e grandes empresas do país demonstraram um interesse repentino pelos quatro países asiáticos com papel decisivo na votação. O chanceler Gerhard Schröder suspendeu o embargo de armas contra a Arábia Saudita e enviou lançadores de granadas para o país a uma semana da votação, a DaimlerChrysler investiu centenas de milhões de euros na Hyundai, empresa cujo fundador tinha um dos filhos no comité executivo da FIFA, ao passo que Volkswagen e Bayer investiram na Tailândia e na Coreia do Sul. Em 2015, a revista alemã Der Spiegel divulgou que um fundo secreto financiado pelo então CEO da Adidas, Robert Louis-Dreyfus, foi usado para influenciar o voto dos asiáticos. A FIFA terá chegado a receber mais de seis milhões de euros para suportar os custos da cerimónia de encerramento, que nunca aconteceu. Segundo Theo Zwanziger, ex-presidente da federação alemã, o dinheiro teve como destino Mohamed Bin Hammam, que apoiou a candidatura de Blatter pela presidência da FIFA.

Com ou sem compra de votos, a Alemanha organizou o torneio pela segunda vez, embora esta fosse a primeira edição como país unificado e com a cidade de Leipzig presente nas cidades-sede. A décima edição na Europa contou ainda com a única participação de Sérvia e Montenegro unidos, depois de terem participado enquanto Jugoslávia. Os países até concordaram em separar-se a poucas semanas do início do Mundial, mas as restrições de tempo da FIFA obrigaram-nos a competir juntos. Desde o Europeu de 1992 que duas nações soberanas não competiam juntas num grande torneio internacional. Este Mundial foi o primeiro com fan fests, algo que acabou por reunir milhões de adeptos, prolongando-se até à atualidade. Para além disso, esta edição foi das mais assistidas da história da televisão, tendo sido vista mais de 26,2 mil milhões de vezes e atraído uma audiência média de 715 milhões de espectadores na final.

Dentro de campo, o Brasil era considerado o favorito, dado que chegava à Alemanha com Adriano, Kaká, Ronaldinho e Ronaldo, e tinha vencido a última edição, mas foi Itália que levou a melhor, afastando os resultados falhados das edições anteriores. Poucas semanas antes do início do Campeonato do Mundo, rebentou em Itália o escândalo Calciopoli, um dos maiores de sempre do futebol transalpino em termos de manipulação e corrupção. Os italianos venceram França na final, nas grandes penalidades, conquistando o seu quarto título mundial. Portugal tentou repetir a prestação de 1966, mas acabou por cair frente a França nas meias-finais e diante da Alemanha no jogo pelo pódio.

Uma história. Zidane deslumbrou na última dança antes de um final negro

Aos 34 anos, Zinédine Zidane decidiu terminar a carreira depois do Campeonato do Mundo e a sua missão passava por despedir-se do futebol na mó de cima, de preferência com o título mundial no bolso. E assim foi, parcialmente. Na Alemanha, o médio foi o grande protagonista de França e a figura mais emblemática da competição, eternizando o seu nome no Mundial da Alemanha, ainda que não o tenha feito totalmente da melhor forma. Depois de ter marcado frente a Espanha, Portugal e Itália, na final, foi expulso por ter dado uma cabeçada a Marco Materazzi, num dos momentos mais marcantes da história dos Mundiais. No final, despediu-se com a prata.

Um herói. Fabio Cannavaro, o líder da muralha que entrou para a história

Falar do Mundial de 2006 é falar de Fabio Cannavaro. O experiente central foi uma das figuras de Itália na caminhada rumo ao título, a par de nomes como Gigi Buffon, Andrea Pirlo ou Fabio Grosso. Cannavaro era o capitão da azzurra e realizou um dos melhores torneios de um jogador da sua posição, liderando uma equipa que só sofreu dois golos – um autogolo e um penálti. Para além disso, o central foi decisivo na forma como organizou a linha defensiva da sua seleção. As exibições foram de tal forma altas que Cannavaro tornou-se, alguns meses depois, no último defesa a conquistar a Bola de Ouro.

Uma curiosidade. O Mundial da batalha que entrou para a história pelos piores motivos

A Alemanha recebeu, em 2006, o Mundial com mais cartões amarelos e vermelhos da história da competição, com um total de 373 cartões: 345 amarelos e 28 vermelhos. O maior exemplo da indisciplina tem Portugal como protagonista, com o jogo dos oitavos de final, frente aos Países Baixos a entrar para a história. A célebre “Batalha de Nuremberga” contou com 16 cartões amarelos e quatro vermelhos exibidos pelo árbitro russo Valentin Ivanov, prevalecendo como o recordista no capítulo dos cartões. Na Seleção Nacional, Costinha e Deco foram expulsos, ao passo que Ricardo, Nuno Valente, Maniche, Luís Figo e Petit viram o amarelo. O jogo terminou com o triunfo português, com golo de Maniche.

Como foram os resultados no Mundial de 2006

  • 9 de junho (fase de grupos): Alemanha-Costa Rica, 4-2 e Polónia-Equador, 0-2
  • 10 de junho (fase de grupos): Inglaterra-Paraguai, 1-0, Trindade e Tobago-Suécia, 0-0 e Argentina-Costa do Marfim, 2-1
  • 11 de junho (fase de grupos): Sérvia e Montenegro-Países Baixos, 0-1, México-Irão, 3-1 e Angola-Portugal, 0-1
  • 12 de junho (fase de grupos): Austrália-Japão, 3-1, EUA-Rep. Checa, 0-3 e Itália-Gana, 2-0
  • 13 de junho (fase de grupos): Coreia do Sul-Togo, 2-1, França-Suíça, 0-0 e Brasil-Croácia, 1-0
  • 14 de junho (fase de grupos): Espanha-Ucrânia, 4-0, Tunísia-Arábia Saudita, 2-2 e Alemanha-Polónia, 1-0
  • 15 de junho (fase de grupos): Equador-Costa Rica, 3-0, Inglaterra-Trindade e Tobago, 2-0 e Suécia-Paraguai, 1-0
  • 16 de junho (fase de grupos): Argentina-Sérvia e Montenegro, 6-0, Países Baixos-Costa do Marfim, 2-1 e México-Angola, 0-0
  • 17 de junho (fase de grupos): Portugal-Irão, 2-0, Rep. Checa-Gana, 0-2 e Itália-EUA, 1-1
  • 18 de junho (fase de grupos): Japão-Croácia, 0-0, Brasil-Austrália, 2-0 e França-Coreia do Sul, 1-1
  • 19 de junho (fase de grupos): Togo-Suíça, 0-2, Arábia Saudita-Ucrânia, 0-4 e Espanha-Tunísia, 3-1
  • 20 de junho (fase de grupos): Costa Rica-Polónia, 1-2, Equador-Alemanha, 0-3, Paraguai-Trindade e Tobago, 2-0 e Suécia-Inglaterra, 2-2
  • 21 de junho (fase de grupos): Irão-Angola, 1-1, Portugal-México, 2-1, Costa do Marfim-Sérvia e Montenegro, 3-2 e Países Baixos-Argentina, 0-0
  • 22 de junho (fase de grupos): Gana-EUA, 2-1, Rep. Checa-Itália, 0-2, Croácia-Austrália, 2-2 e Japão-Brasil, 1-4
  • 23 de junho (fase de grupos): Ucrânia-Tunísia, 1-0, Arábia Saudita-Espanha, 0-1, Suíça-Coreia do Sul, 2-0 e Togo-França, 0-2
  • 24 de junho (oitavos de final): Alemanha-Suécia, 2-0 e Argentina-México, 2-1 a.p.
  • 25 de junho (oitavos de final): Inglaterra-Equador, 1-0 e Portugal-Países Baixos, 1-0
  • 26 de junho (oitavos de final): Itália-Austrália, 1-0 e Suíça-Ucrânia, 0-0 (0-3 g.p.)
  • 27 de junho (oitavos de final): Brasil-Gana, 3-0 e Espanha-França, 1-3
  • 30 de junho (quartos de final): Alemanha-Argentina, 1-1 (4-2 g.p.) e Itália-Ucrânia, 3-0
  • 1 de julho (quartos de final): Inglaterra-Portugal, 0-0 (1-3 g.p.) e Brasil-França, 0-1
  • 4 de julho (meias-finais): Alemanha-Itália, 0-2 a.p.
  • 5 de julho (meias-finais): Portugal-França, 0-1
  • 8 de julho (jogo de atribuição do terceiro lugar): Alemanha-Portugal, 3-1
  • 9 de julho (final): Itália-França, 1-1 (5-3 g.p.)