Duas frases da Federação que davam o mote para o que aí vinha, “Viemos para vencer” e “Uma nova jornada começa hoje”, dois selos de garantia do próprio também na sua conta oficial do Instagram: “Tenho orgulho em ser português” e “Uma só voz, um só coração: Portugal”. A ligação entre Federação Portuguesa de Futebol e Jorge Jesus já era há muito conhecida, a ponto de se falar já na viagem de regresso dos Estados Unidos da apresentação que deveria acontecer na sexta-feira. Foi mesmo. A comitiva chegou na manhã de quarta-feira, a cúpula diretiva teve alguns encontros antes de fechar o contrato com o antigo treinador do Al Nassr depois do almoço de quinta-feira, o anúncio oficial ficou reservado para sexta-feira. Às 15h, com uma pontualidade britânica, Pedro Proença e o novo selecionador entravam na sala. A tal “nova era” estava a começar.
Numa primeira instância, e sem direito a perguntas para não mudar aquele que deveria ser o foco do dia, Pedro Proença falou de presente e futuro passando ao lado do passado. Ou melhor, ao lado do passado mais recente, tendo em conta que não passou ao lado do dia especial na Cidade do Futebol. “Hoje iniciamos uma nova era na Federação, da dimensão do nosso talento. Apresentamos o novo selecionador no dia em que se cumprem dez anos da conquista do Europeu. A apresentação de Jorge Jesus marca o início de uma nova era e marca o início de uma nova cultura de exigência e de vitória. Chega para preparar o Euro-2028 e o Mundial-2030. Enquanto presidente da Federação assumo que queremos ser uma das melhores seleções do mundo. Jorge Jesus é um dos melhores treinadores da nossa história. Com ele vamos estar sempre mais perto da vitória. Amigo Jorge, hoje regressas a Portugal pela porta grande, numa das melhores seleções do mundo, cumpres um dos teus maiores sonhos. Bem-vindo. Viemos todos para vencer”, apontou o líder.
Daí para a frente, Proença voltou a sentar-se na primeira fila do auditório na Cidade do Futebol. Foi ali que ouviu, numa fase inicial, Jesus quase ser traído pelas emoções quando falou do orgulho em poder treinar a Seleção do seu país. “Quero agradecer ao presidente por me dar a oportunidade de treinar uma das melhores seleções do mundo. Hoje é a minha apresentação é formal e todos querem saber como vamos jogar. Viemos para vencer e, com a qualidade que temos, podemos acreditar. Sou um orgulhoso português e agora vou ser treinador de 12 milhões. Encheram-me de orgulho no Mundial, não desportivamente, mas também não estava aqui. Agora viemos para vencer. Sempre fui um treinador muito para lá do campo. Chego a uma casa que não conheço. Até com Lourenço Pereira Coelho tive sorte, que trabalhou comigo seis anos no Benfica. Os dados estão lançados e queremos começar a vencer em setembro, contra o País de Gales”.
Nessa intervenção inicial, às vezes quase a ficar com a voz embargada, havia um Jorge Jesus. A partir desse momento, chegou o outro. A única coisa que procurou evitar “por uma questão de elegância” foi falar do que se passara no Campeonato do Mundo. No entanto, e também aí, deu respostas nas entrelinhas. E uma longa conferência de quase 50 minutos acabaria por tornar-se numa apresentação dos mandamentos pelos quais se irá guiar na primeira passagem da longa carreira de quase quatro décadas por uma seleção após ser campeão saudita pelo Al Nassr, que se seguiu a Benfica, Sporting, Flamengo, Al Hilal ou Fenerbahçe.
Mandamento 1. O segredo atual do futebol, saúde de ferro e as várias formas de treinar
Jorge Jesus sempre foi um apaixonado pelo trabalho de campo. Alguns jogadores chegavam mesmo a dizer que era “obcecado” pelo treino em busca de uma perfeição que, quando parecia estar próxima, tinha sempre algo mais para trabalhar. Agora, num contexto de Seleção, Jorge Jesus fez questão de dizer que a única coisa que muda é o tempo que tem com os jogadores, garantindo também que não vai facilitar no trabalho.
“Há muita tendência para dizer que um selecionador é diferente de um treinador de uma equipa mas isso não é verdade, só não tem tantos dias de trabalho. O método é uma ciência de cada um, esse não muda. Vou-me adaptando às circunstâncias, preparei-me desportivamente para chegar à nossa Seleção. Nada vai ser muito diferenciado em termos de trabalho. Pressão? Já estou habituado e gosto disso. Tenho condições de trabalho e este lema do ‘Viemos para vencer’ enquadra-se. A minha idade é de 71 mas sinto que tenho 50 porque tenho saúde. Treino todos os dias, uma ou duas horas. Vai ser um desafio difícil, mas acredito que vamos vencer”, começou por referir o novo selecionador nacional, numa fase inicial da conferência.
“Vou ter de selecionar. Vocês dizem muito que eu só penso em treinar, mas nos últimos dias tenho estado sempre a jogar de dois em dois dias ou de três em três dias. Vocês pensam que aqui os jogadores não treinam, mas eles não vêm para aqui dormir, treinam e há muitas formas de o fazer. É o que vai acontecer. Há treino, o treino ativo, muitas formas porque as novas tecnologias dão outras ferramentas. Tudo isso liga com os meus últimos anos. A grande evolução do futebol e um dos grandes segredos é como se recuperam os jogadores, quem chega lá tem mais vantagem. Os treinadores não ganham sempre, eu não ganhei sempre, mas a única coisa que pode atrapalhar é convocar 20 e tal jogadores e só poderem jogar 11. Mas isso é que é bom, porque há matéria-prima para se escolher”, acrescentou ainda a esse propósito.
Mandamento 2. Ronaldo conta quando quiser como Jesus quiser (e o finish a Neymar)
De forma inevitável, Jorge Jesus falou de Cristiano Ronaldo, avançado que treinou no último ano no Al Nassr – aliás, o técnico assumiu mesmo que um dos motivos para aceitar o convite da formação saudita, depois de duas passagens pelo rival Al Hilal, foi a possibilidade de trabalhar com o capitão da Seleção. De uma penada, o novo selecionador foi a três pontos noutras tantas respostas: o futuro do número 7 depende do próprio mas quem toma decisões técnicas é ele, ao mesmo tempo que recordou a gestão que fez do jogador.
“Ainda não falei com o Cris [Ronaldo]. O Cris nunca será um problema para a Seleção nem para mim. Em relação à polémica que houve, cada um pensa o que quiser. Vou falar com o Cris, mas vou falar com todos individualmente. O Cris é um símbolo do futebol português, da Seleção, um símbolo de Portugal. É muito fácil trabalhar com ele desde que ele perceba até onde pode chegar e até onde posso chegar, na relação treinador-jogador. Agora, ele vai ter de dizer o que é que quer fazer. Jogando no Al Nassr, porque ele sempre me disse que quer acabar no Al Nassr, e tendo condições, vou chamá-lo dentro das condições que achar que são as melhores”, começou por referir Jorge Jesus nessa parte da conferência.
“Portugal tem uma qualidade muito grande em formar novos jogadores. Portugal é o Brasil da Europa, dás um pontapé numa pedra e sai um jogador, embora no Brasil agora não seja assim… A nossa Seleção tem uma média de idade de 28 anos e isso não tem problema, o importante é o valor. Se houver um jovem de 17 ou 18 anos com qualidade para integrar a Seleção, irá entrar. Dos que estão aqui, já trabalhei com 12 e fui eu que lancei alguns… O Rafael Leão, o [Gonçalo] Guedes, o [João] Cancelo, o Bernardo [Silva]… Sim, foi comigo, com 17 anos. Foi na Taça de Portugal contra o Cinfães mas conta…”, prosseguiu o técnico.
“A idade não tem influência, olhem para o Cris. Comigo fazia oito quilómetros por jogo, o que é muito bom para um ponta de lança, com uma velocidade acima de 25 km/h. Comigo jogava quando achava que era preciso, quando jogava. Às vezes nem o levava para o banco. O Al Nassr fez 50 jogos no ano passado, ele fez 31 e em 16 foi substituído, nunca houve problemas… Utilização do Cristiano no Mundial? Não me fica bem, não seria elegante. Lá vai uma frase minha, o jogo é que dita, se deve jogar ou não. Treinei dois dos três melhores jogadores do mundo, já não vou ao terceiro, que é o Messi. Ao Neymar disse-lhe ‘finish'”, recordou.
???????? Jorge Jesús, nuevo seleccionador de Portugal, preguntado por Cristiano Ronaldo
⭐️ "Yo ya he entrenado a dos de los mejores jugadores del mundo, me falta el tercero, que es Messi y ya no lo voy a entrenar"
???? "Yo un día a Neymar le dije: 'tú, finish'. Haré lo que es mejor para… pic.twitter.com/HCXUZTLd04— Mundo Deportivo (@mundodeportivo) July 10, 2026
Mandamento 3. “Boa” idade, egos e os que acham que são grandes jogadores (e não são)
Mais ou menos nessa fase, Jorge Jesus voltou a reforçar a qualidade da equipa, um prazo de validade que não inspira preocupações e uma premissa que tem em relação a… egos. “Tenho uma grande vantagem aqui porque, dos convocados para o Mundial, 12 já trabalharam comigo, quase metade. Se perguntasse aqui qual seria a melhor Seleção, haveria dez respostas diferentes. Há muita qualidade, Portugal tem muita qualidade também na formação e agora irei acompanhar, estar mais inserido. Mas o que interessa é o presente e se me perguntarem se é preciso uma remodelação, não. Só há seis jogadores acima dos 30 e dois são guarda-redes. A média de idades é 28. É uma equipa jovem e não é por aí que haverá problemas”, comentou.
“Egos? O ego há em todas as equipas e seleções. Posso dizer que é muito mais difícil trabalhar com jogadores que julgam que são grandes jogadores do que com aqueles que são mesmo grandes jogadores. A nossa Seleção só tem grandes jogadores, que jogam em algumas das melhores equipas da Europa. Aqui, o que é importante é conquistar títulos [coletivos]”, acrescentou numa outra resposta.
Jesus abordou também de forma direta a questão da liderança e de Bernardo Silva, com quem teve algumas quezílias no passado quando o jogador estava a subir da formação do Benfica. “Capitães pelo que sei são cinco: o Cris, o Bernardo, o Bruno [Fernandes], o Rúben [Dias] e o Diogo [Costa]. Não sei qual foi a ordem. mas tenho de dizer que, para mim, ter mais anos de Seleção não influencia a escolha porque o capitão é mais do que isso. Quanto ao Bernardo, em 2013 era um menino que estava a começar os passos dele. Confiava muito nele, queria ser jogador. Foi mais o que se falou do que aquilo que realmente aconteceu num treino. Falou-se que queria pô-lo a lateral esquerdo. Foi num jogo treino, o Djuricic lesionou-se e ia metê-lo naquela posição. O Pep [Guardiola] também meteu lá mais tarde. Mas não há problema nenhum”, apontou.
Mandamento 4. Uma ideia de jogo que “não tem nada a ver com o que era a ideia, zero”
Em paralelo, Jorge Jesus optou por não abordar de forma direta aquilo que foi a presença de Portugal no Mundial por uma questão de respeito em relação a Roberto Martínez mas, na projeção daquilo que pretende no futuro, acabou por tocar no passado recente. “Claro que vi jogar a Seleção, como vi jogar todas as seleções neste Mundial. Não quero falar disso aqui, não é elegante. Não estou a fugir, só acho que não devo… Mas se calhar o que faria de diferente tem a ver com a importância em ser o primeiro do grupo, era importantíssimo, porque jogar com a Espanha não é a mesma coisa do que com a Suíça. Ficamos por aqui…”, atirou Jesus.
“É óbvio que se treinarmos mais horas, o processo começa a ficar mais identificado. Mas o processo, às vezes, parece uma coisa e depois não é nada… Se me dissessem que a 24 de setembro, os jogadores vão treinar três dias e vão jogar… É o que é. Vamos jogar quatro jogos logo em dez dias. Para mim é bom porque vamos estar juntos vários dias, não é uma situação que dê valor. Se tem de jogar o dobro? Tem de jogar, se não jogar fica tudo igual. Acredito muito na capacidade dos jogadores. A outra parte da estrutura também é importante. As ideias do que é uma seleção e um clube não são diferentes, porque se não houver ideias partilhadas… Quero que todos os jogadores percebam que se querem ganhar, têm de pagar o preço. A minha ideia de jogo não tem nada que ver com o que era a ideia da Seleção, zero”, complementou de seguida o técnico.
Mandamento 5. A questão dos passes, os médios com mais andamento e o tipo de avançados
No meio da conferência, Jorge Jesus assegurou que não falou com Pepe mas que gostava de ter uma pessoa mais ligada neste caso à Seleção como teve nos anteriores clubes. “A minha equipa técnica vai ser minha, não há a minha equipa técnica e a equipa técnica da Federação. Em relação ao Pepe, nunca falei pessoalmente com ele sobre isso mas se é um nome que me poderia agradar… é. Porquê? Porque quando cheguei a outros clubes, trouxe sempre um elemento do clube. Na segunda passagem pelo Benfica, fui buscar o Luisão. Na Arábia Saudita, fui buscar ex-jogadores para a minha equipa. Mas o Pepe lá sabe se ainda quer abraçar outros projetos. Virão outros nomes ou não, porque há outros elementos que estavam cá”, explicou.
Por fim, e mesmo na última resposta, Jesus começou a abrir o livro em termos práticos de alguns aspetos que quer mudar, dando o exemplo do meio-campo sem estar tanto a olhar a nomes mas mais a características. “Quando falamos em mudar, podemos falar em muita coisa. A ideia de jogo, o sistema de jogo… O futebol cada vez é um desporto coletivo que tem evoluído muito porque para as equipas e para os treinadores, a questão dos passes e a redução dos passes é importante. Eu não gosto de jogar com três médios num 4x3x3, gosto de médios com mais andamento e mais dinâmica. Todos dizem que tínhamos o melhor meio-campo do mundo. Mas onde? No PSG? No United? Na Seleção tudo é diferente, a Seleção não tem um ataque com três avançados como o PSG, por exemplo. A minha ideia é implementar ideias que funcionem com a equipa. Muitas das vezes o treinador o que tem de fazer é ajudar o jogador”, concluiu o selecionador.