A escola de aviação Lusofly Academy, que abriu em Bragança em 2022, ainda não conseguiu formar nenhum piloto, num curso que deve ser feito em 24 meses, e os alunos queixam-se de sofrer intimidação pelo diretor executivo.
Estão nesta situação 36 jovens. A Lusa falou com alguns desses alunos, que preferiram não revelar a identidade, com medo de represálias.
Os problemas começaram a surgir em 2024, e um dos primeiros alunos da escola contou que durante vários meses ficou sem aulas e sem qualquer esclarecimento.
Nesse ano, voltou a ter aulas de voo, mas os problemas continuaram devido à falta de aeronaves ou problemas técnicos, constrangimentos meteorológicos ou indisponibilidade de aeródromos, justificações que foram apresentadas aos alunos, segundo os mesmos.
“Demorei um ano para fazer 80 horas [de voo], o que em condições normais, nas escolas que existem e têm dois aviões na frota, os alunos conseguem despachar rapidamente, ou seja, num mês ou dois”, explicou.
Ainda lhe faltam duas fases de um curso que devia ter sido concluído em 2024. Esta situação já obrigou este e outros alunos a pedir uma prorrogação do prazo para a sua conclusão.
O problema, aponta, é que pode perder tudo, uma vez que a Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) exige que o curso deve ser concluído em 36 meses após as provas teóricas.
Quando fizeram a inscrição na Lusofly Academy, os alunos dizem ter pago a totalidade do curso, que custa 70 mil euros.
A academia, para além de ter contestações de alunos, tem também reclamações de entidades a quem tem dívidas pendentes.
Antigos instrutores, o município de Bragança, prestadores de serviços e fornecedores reclamam dívidas de milhares de euros à escola de aviação, que tem um processo de execução em curso para a penhora da licença do regulador.
A Lusa falou com quatro antigos instrutores que trabalharam na Lusofly, anteriormente designada por Pull Up Academy, entre 2022 e 2025, em diferentes períodos, os quais denunciaram dívidas de dezenas de milhares de euros de ordenados em atraso.
“Todos os instrutores de voo já deixaram de prestar serviços à Lusofly, e todos pela mesma razão: todos ficaram com ordenados e serviços por pagar. Valores que ascendem em certos casos a várias dezenas de milhares de euros”, contou um dos instrutores, acrescentando estarem em causa vários meses de salários e subsídios sem pagar por parte da empresa.
Um destes instrutores revelou que a dívida que reclama ascende a 45 mil euros, reconhecida pelo tribunal, acrescentando que há cerca de um mês deu entrada com um processo de execução de penhora do certificado emitido pela Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), pois “não há nada mais para penhorar”.
A Lusofly também deve dinheiro à Câmara de Bragança, que se escusou a revelar o valor. “Confirmo que existem valores em dívida associados à empresa [Lusofly], quer ao Brigantia EcoPark, pela utilização de espaços de trabalho, quer ao município de Bragança no âmbito do aeródromo municipal, nomeadamente por rendas de dois lugares de ‘hangaragem’ para aeronaves, taxas aeroportuárias e respetivos juros de mora, com incumprimentos que vêm desde 2025”, refere o município de Bragança.
A Lusofly alugou também aviões para a instrução a uma empresa espanhola que, nas últimas semanas, se deslocou a Bragança para levar duas aeronaves “devido a uma dívida de algumas centenas de milhares de euros”, indicou outra fonte ligada ao processo.
Esta empresa foi acumulando dívidas a prestadores de serviços e a fornecedores de Bragança, nomeadamente a empresas da hotelaria, de fornecimento de combustíveis e ao Aeroclube de Bragança.
Jovens dizem ter sofrido “intimidação”, “jogos psicológicos” e “acusações gravíssimas”
Muitos dos alunos fizeram empréstimos ao banco para realizar o sonho e agora parte desse dinheiro é dado como perdido, visto que tiveram de mudar de escola para conseguir concluir o curso, obrigados a pagar milhares de euros pela transferência.
Outro dos jovens, que também já devia ser piloto e que fez um empréstimo para seguir o seu sonho profissional, confessou à Lusa que todos os atrasos e faltas de respostas afetaram a sua saúde mental, deixando “marcas para a vida”.
“Não tem sido nada fácil, posso dizer que tem causado não diria divergências familiares, mas alguma instabilidade familiar, não é fácil lidar com a situação”, contou.
Além de verem a sua vida profissional suspensa, os jovens dizem ter sofrido “intimidação”, “jogos psicológicos” e “acusações gravíssimas” por parte do diretor executivo da escola, João Roque.
“Ninguém se quer identificar porque tem medo das consequências, porque tem medo do que pode vir a acontecer”, frisou um dos alunos, que disse já ter sido “acusado de denegrir a própria imagem da escola, sem terem provas”.
Mais alunos dizem ter passado pelo mesmo. “A culpa nunca era dele [João Roque]. Fomos acusados, enquanto alunos, de que a culpa era nossa do que estava a acontecer na escola”, apontou.
Um deles relatou mesmo algumas das ameaças proferidas: “Qualquer coisa que saia daqui é considerada fofoca [boato] e quando eu souber quem foi vou-vos queimar na indústria da aviação”, contou.
Contactada pela Lusa sobre a situação da escola e a falta de explicações apontadas pelos alunos, a ANAC disse esta sexta-feira que acompanha a Lusofly desde junho de 2022 e admitiu que numa inspeção, “realizada em fevereiro de 2024, foram identificadas dificuldades relacionadas com a garantia de acesso aos meios necessários ao normal funcionamento da escola”, que acabaram por ser “sanadas”.
“Posteriormente, em junho de 2025, foi constatada a inexistência de alguns meios necessários à realização de determinados cursos, designadamente aeronave multimotor e instrutores em número suficiente, situação que deu origem à imposição de medidas, por parte da Autoridade, concretamente no que respeita à impossibilidade de abertura de novos cursos pela ATO [escola], como forma de permitir a conclusão dos cursos que se encontravam a decorrer”, sublinhou.
Escola abriu novas turmas no último trimestre desse mesmo ano
No entanto, a escola abriu novas turmas no último trimestre desse mesmo ano e, atualmente, no site da Lusofly Academy existe um anúncio da abertura de uma nova turma em setembro.
Confrontada com este anúncio, a ANAC disse ter exigido à escola que retirasse a informação em causa.
A autoridade de aviação confirmou ainda ter permitido “extensões de curso” e disse ter esclarecido os alunos e a escola “quanto às questões inerentes a este processo em tempo útil, conferindo toda a prioridade”.
No entanto, os alunos desmentem, mostrando vários e-mails enviados à ANAC, desde 2024, sem resposta.
“Muitas vezes tentávamos fazer queixa junto das autoridades competentes, nomeadamente a Autoridade Nacional de Aviação Civil, queixas em anónimo, queixas presenciais, e no dia a seguir parecia que ele [João Roque] já sabia de tudo”, disse um aluno, acrescentando que a ANAC “nunca deu resposta”.
Mas, após várias questões colocadas pela Lusa na quinta-feira, a ANAC contactou os estudantes, no final do mesmo dia, dando conta de que estaria a acompanhar toda a situação.
À Lusa, a autoridade disse ainda que “promoveu igualmente diligências destinadas a facilitar eventuais transferências de alunos para outras entidades formadoras”, contactando outras escolas nacionais.
Apesar das várias queixas apresentadas à ANAC, os alunos admitiram nunca ter feito queixa às autoridades policiais, com medo de perder todo o investimento face às ameaças que dizem ter sofrido.
Contudo, um dos alunos garantiu que irá recorrer à justiça, para reaver algum do dinheiro, já que teve de mudar de escola para concluir o curso. “A única coisa que eu quero neste momento é cumprir o meu sonho”, afirmou.
A Lusa contactou João Roque, diretor executivo da Lusofly Academy, que não se mostrou disponível para prestar qualquer esclarecimento e disse que iria falar com a sua advogada.