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No limite, podia ser apenas o duelo entre o melhor ataque da competição contra a defesa mais segura de toda a prova. Mas não, era mais do que isso. Apenas pela terceira vez na história as meias-finais tinham quatro antigos campeões mundiais. E, pela primeira vez, essas quatro mesmas equipas ocupavam o top 4 do ranking FIFA das seleções. É verdade, recuperando as conferências de imprensa de Roberto Martínez, agora antigo selecionador nacional, tinha razão quando dizia que os ex-vencedores estavam à frente dos outros na corrida pelo título. No entanto, apenas um poderia chegar a esse objetivo e essa cimeira entre Europa e América do Sul começava esta terça-feira em Dallas com um duelo de velhos conhecidos que, na última ocasião que se tinham cruzado, nas meias da Liga das Nações, deram um espetáculo com nove golos como se fosse hóquei em patins em que a Espanha chegou ao 5-1 antes de uma recuperação da França até ao 5-4 final.
Agora, de um plano prático para a teoria, os gauleses chegavam com ligeiro favoritismo – contrariado pelo seu selecionador, Didier Deschamps, mas sem que se percebesse ao certo onde fundamentava essa opinião a não ser pelo título europeu da Roja em 2024. Olhando para alguns números estatísticos, havia quase um empate técnico entre as duas formações, com os mesmos 110 remates ao longo da prova. O que diferia depois? A forma de atacar diferente no seu ADN entre França e Espanha, com os gauleses bem mais afinados entre um Trio Maravilha a que se juntava depois um elemento do PSG para fechar o Quarteto Fantástico e os espanhóis a encontrarem a melhor ligação com Mikel Oyarzabal mas sem “aquele” Lamine Yamal. Mais: os bleus continuavam a revelar-se letais nas fases a eliminar de Mundiais, encontrando apenas dois tipos de kryptonite nos últimos 50 anos para não avançar até às decisões: jogarem com a Alemanha e irem a penáltis.
France's attack ???? Spain's defence ???? #FIFAWorldCup pic.twitter.com/e9OG3L9S7b
— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) July 14, 2026
A par de tudo isso, e na antecâmara de um Inglaterra-Argentina ainda marcado por tensões políticas e sociais em torno da Guerra das Malvinas que adensavam uma rivalidade com mais de 60 anos que foi potenciada no dia em que Diego Armando Maradona teve uma Mão de Deus antes do Golo do Século no Mundial de 1986 em pleno Azteca, também o França-Espanha entrou num campo extra desportivo a partir de um artigo de opinião do antigo primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, no El Debate. De uma forma mais concreta, a partir de uma frase desse artigo: “Têm um plantel de altíssimo nível e sem franceses”. As reações não demoraram a chegar, com apontares de dedo a comentários racistas por parte dos franceses e críticas pela frase despropositada do lado dos espanhóis. Pelas piores razões, uniram-se. Agora, eram adversários.
Já está tudo a pensar na "final antecipada" ????????????????????#FRAESP #FIFAWorldCup pic.twitter.com/43mJ5JHc2Y
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 13, 2026
“Sim, para mim a Espanha é favorita. Com tudo o que fizeram… Se deixarmos de parte o primeiro jogo [0-0 frente a Cabo Verde], confirmou que é a favorita. Não quero estar a colocar pressão no Luis de la Fuente e na sua equipa mas sabem que as pessoas estão à espera de muito da Espanha. Sabem atacar, defendem muito bem, sofreram apenas um golo em sete jogos. Só pensamos em defender bem mas, com a qualidade ofensiva das duas equipas, temos de apontar para um encontro espetacular. Lições para aprender? Há mais de dois anos que me estão a criticar, há mais de 12 até… Aqui não há lições para aprender, há uma verdade no relvado. Sabemos como a Espanha joga, sabemos que gosta de pressionar, sabemos que só sofreu um golo porque é difícil perder a bola quando a têm mas vamos tentar”, apontara o técnico Didier Deschamps.
À l’échauffement ! On est tous avec vous les gars ????????#FRAESP | #FIFAWorldCup pic.twitter.com/AkMbhLYdpy
— Equipe de France ⭐⭐ (@equipedefrance) July 14, 2026
“Ser favorito? Isso não vale de nada, não significa nada, não é decisivo. Faz-me lembrar sempre o que dizia o [Joaquín] Caparrós: quando alguém te faz tantos elogios, ficas sempre a pensar se essa pessoa vai aparecer… Vamos ter um jogo diferente do 5-4 de Estugarda, a França soube tirar conclusões do que se passou e estão melhores do que nessa altura. Da nossa parte, vamos tentar impor outra vez o nosso estilo. Digo-lhes sempre que podemos melhorar porque nunca é suficiente para ganhar a competição seguinte. Julio César dizia que não há grandes feitos sem sofrimento e subscrevo essa ideia. Se sou um romântico do futebol? Sou muito romântico, gosto de Julio Iglesias… Mas peço sempre para que desfrutem do que têm hoje porque todos nós somos uns privilegiados”, respondera o homólogo espanhol Luis de la Fuente a essas ideias.
Locked in. Focused. Ready. ????????????
The boys have arrived.????️ #VamosEspaña | #FIFAWorldCup pic.twitter.com/GszDgq12sL— Spanish Football (@SpainIsFootball) July 14, 2026
Os dados estavam lançados para um confronto em dia de aniversário da Tomada da Bastilha onde estavam em confronto duas escolas diferentes mas igualmente dominantes da Europa que, no passado, já tiveram vários duelos nos mais variados planos. Era como uma guerra de 90 minutos escrita por múltiplas pequenas batalhas individuais que colocariam o plano para um dos lados. Uma guerra que foi decidida, em conjunto, por várias vitórias: Luis de la Fuente “atropelou” taticamente Didier Deschamps, Rodri “apagou” Olise, o meio-campo espanhol fez o que quis no jogo e a França ficou remetida à inspiração de soldados que são de facto muito mais do que isso mas que caíram como os mais comuns mundanos contra uma super Roja.
Two changes for France, with Aurélien Tchouaméni and Bradley Barcola coming in for Manu Koné and Désiré Doué.
Spain are unchanged from their quarter-final win over Portugal. Matchwinner Mikel Merino has to settle for a place on the bench again. pic.twitter.com/8AYjcu63d7
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
Espanha bate o recorde de invencibilidade da história das seleções. ????????????
Com o triunfo frente à França, a Espanha chegou aos 38 jogos consecutivos sem perder, em competições oficiais, superando o registo de Itália entre 2018 e 2021.
Maiores séries de invencibilidade:
???? 37 –… pic.twitter.com/KSblhd9qFh— Playmaker (@playmaker_PT) July 14, 2026
A partida começou dentro das premissas apontadas na antevisão, tendo uma Espanha com mais posse em ataque organizado a chamar a França a pressões mais altas que abrissem depois os espaços para entradas de rutura dos médios mais avançados e um conjunto gaulês à procura das transições rápidas onde conseguisse ir buscar a profundidade para encontrar depois elementos em zona de finalização. Foi por isso que, dentro de um “encaixe” quase perfeito, os 20 minutos iniciais foram esgotados sem qualquer remate, um amarelo a Rabiot por um pisão em Dani Olmo (9′) e um livre direto de Álex Baena que ficou na barreira (11′). Afinal, não seria sequer preciso criar uma oportunidade para fazer nascer um golo: Lucas Digne teve uma entrada despropositada depois de ter deixado bater a bola na área, atingiu de forma clara Lamine Yamal com um pontapé na perna quando tentava aliviar e Oyarzabal não perdoou de penálti para fazer o 1-0 (22′).
????????Kylian Mbappé é o jogador francês com mais jogos Mundiais ????
Os números do avançado gaulês em Campeonatos do Mundo:
????️ 21 jogos
⚽ 20 golos pic.twitter.com/wj3FwnBI7g— Playmaker (@playmaker_PT) July 14, 2026
Esta falta de Lucas Digne que deu origem ao penálti para a Espanha ????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Espanha #França pic.twitter.com/8tRV0XA7u3
— sport tv (@sporttvportugal) July 14, 2026
Oyarzabal faz o primeiro da Espanha de grande penalidade ????????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Espanha #betano pic.twitter.com/MoYy0dzckn
— sport tv (@sporttvportugal) July 14, 2026
First blood Spain.
Mikel Oyarzabal takes his tally for this World Cup to five goals after Lucas Digne fouled Lamine Yamal just inside the box. pic.twitter.com/Wek61sN8L1
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
A França acusava o golo, numa ansiedade que aumentou com a saída por lesão de Saliba (entrou Lacroix). A Espanha estava melhor pela vantagem que ganhava no “jogo dos pares” e na capacidade de desmultiplicar as unidades mais ofensivas sem bola, criando vantagem numérica no meio-campo entre a “perseguição” que Rodri ia fazendo a Olise para secar o elemento que fazia a combustão para o ataque gaulês arrancar. Assim, e apesar de uma tentativa de Barcola após diagonal da esquerda para o meio que saiu por cima (36′), o jogo era pautado por aquilo que a Espanha queria fazer, tendo uma grande jogada após recuperação de bola em zona alta que só não criou mais perigo porque o desvio de Fabián Ruiz ao primeiro poste foi cortado por Lacroix para canto (39′). Entre tantos soldados feitos capitães e tenentes, o general De la Fuente ia ganhando.
42 minutes gone, let's check in on France's shot output… pic.twitter.com/FZmtYobFXi
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
????????: ???????????????????????? ????-???? ????????????????????
Only two sides have ever progressed from a World Cup semi-final after trailing at half-time:
Argentina v Italy, 1990
Croatia v England, 2018 pic.twitter.com/IiOceBcWqn— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
Only twice on record (since 1966) have France generated less xG in the first half of a World Cup game:
0.03 vs Senegal, 2026 group (won 3-1)
0.00 vs Argentina, 2022 final (drew 3-3 AET) pic.twitter.com/01SnwEBone— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
Deschamps mexeu ao intervalo, com a entrada de Koné para o lugar de Rabiot, mas a França em nada esteve melhor. Pelo contrário. Houve uma bola que funcionou como reflexo de tudo, quando Barcola em esforço foi à defesa tirar uma bola a Lamine Yamal mas o atraso de Upamecano para Maignan quase dava canto (53′). O que não mudara? Por um lado, a Espanha estava a dominar por completo o meio-campo; por outro, o estado anímico dos gauleses continuava lá em baixo, no fundo, sem uma luz de esperança que pudesse resgatar da lâmpada um dos génios da frente. Mais uma vez, a Espanha mostrou que sabe ler o jogo como ninguém, aproveitando essas debilidades para fazer brilhar o melhor que tem: a força do coletivo. Foi assim que, numa jogada com tanto de simples como de bonita e eficaz, Pedro Porro deu no apoio central de Dani Olmo, o médio fez a assistência a isolar o lateral na área e o remate não deu hipóteses a Maignan para o 2-0 (58′).
O QUE JOGA ESTA ESPANHA ????
Está feito o segundo dos nuestros hermanos!#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Espanha #betano pic.twitter.com/NR5Ie01aE0
— sport tv (@sporttvportugal) July 14, 2026
Estava dada uma espécie de K.O. a um vice-campeão mundial prestes a perder essa aura de não falhar nos jogos a eliminar do Mundial, que só não se tornou um quebra-cabeças maior porque uma grande arrancada de Lamine Yamal na sequência de um passe de Porro, com diagonal da direita para o meio antes do remate ao ângulo, terminou com o lance invalidado por fora de jogo (61′). A França estava arrasada, a ponto de não querer que o encontro se partisse mais por receio que visse a derrota aumentar a sua expressão. Mbappé ainda teve uma tentativa que bateu num adversário e passou perto do poste (68′) mas pouco ou nada havia a fazer, até tendo em conta a falta de um sinal para procurar a redenção. Ao invés, e por mais do que uma vez, ainda foi a Espanha que andou em busca do terceiro, com Ferran Torres a ficar perto de cabeça (79′).
Lamine Yamal viu este golaço anulado por fora de jogo ❌#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Espanha #França pic.twitter.com/9vbfgBN5kV
— sport tv (@sporttvportugal) July 14, 2026
72m [ ???????? França 0 – 2 Espanha ???????? ]
A França ainda não conseguiu criar qualquer ocasião flagrante frente à Espanha, que já soma 3
Olé!#FIFAWorldCup #FRAESP pic.twitter.com/QudZIWMTBL— GoalPoint (@_Goalpoint) July 14, 2026
???????? France 0-2 Spain ????????
The European champions are looking very much like suitable world champions. pic.twitter.com/mm0vpZ8662
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
A estrela
- O mais normal seria ver neste espaço Oyarzabal, por ter marcado o primeiro golo do jogo e por não se poupar a esforços para criar equilíbrios sem bola na primeira linha de pressão, Pedro Porro, que fez o outro golo, Dani Olmo, que teve uma assistência perfeita, ou Lamine Yamal, que apesar de ainda não ter chegado à exibição que todos esperam, ganhou um penálti e esteve bem mais ativo. No entanto, e por tudo o que se passou, o destaque deve ser outro: Rodri. Foi a partir do capitão espanhol que começou todo o sucesso da estratégia espanhola, secando os movimentos de Olise, evitando diagonais de Dembélé e ajudando Cubarsí e Laporte quando havia mais gente no corredor central. O médio do Manchester City acaba por corporizar a maior goleada de todos na meia-final – a de Luis de la Fuente a Deschamps.
[ ???????? França 0 – 2 Espanha ???????? ]
Chocolate espanhol transforma gauleses em "petits chats" ????⬛???? A campeã europeia anulou completamente a (até agora) poderosa França e carimba o regresso a uma final do Mundial, 16 anos depois!
???? Aposta e vê todos os jogos do Mundial na Betano… pic.twitter.com/m79YK11aUl
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 14, 2026
O joker
- Não começou como titular neste Mundial, vendo Marcos Llorente assumir a lateral direita no nulo com Cabo Verde, foi depois opção com a Arábia Saudita, agarrou de vez a posição com o passar das partidas sem que se pudesse prever esse desfecho. Hoje, Pedro Porro é indiscutível na seleção espanhola e até se arrisca a ganhar uma vaga no Melhor Onze do Mundial no lado direito da defesa, tendo em conta as equipas que chegaram ao top 8 da competição (rivaliza com Koundé, no máximo). Contra a França, o antigo lateral do Sporting marcou o 2-0, esteve irrepreensível a defender e foi uma das chaves para o desequilíbrio a par de Cucurella que, goste-se ou não do estilo, continua a não dar hipóteses.
Porro ➡️ Olmo ➡️ Porro ➡️ GOAL
A brilliant one-two and Spain are two to the good in this World Cup semi-final. pic.twitter.com/BbnHRpfiGm
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026
A sentença
- Com este triunfo, há uma garantia: a final do Mundial de 2026, seja Espanha-Argentina ou Espanha-Inglaterra, será sempre uma decisão inédita na história da competição. Os espanhóis chegam ao último jogo apenas pela segunda vez na história, depois do triunfo diante dos Países Baixos na África do Sul em 2010, e mantêm a série de 38 encontros consecutivos sem derrotas (só com Portugal acabou por não vencer, empatando no tempo regulamentar e no prolongamento antes de cair nos penáltis).
The Semi-finals are set ????#FIFAWorldCup
— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) July 12, 2026
A mentira
- Falou-se muito sobre uma “falsa questão” antes da partida que tinha a ver com os quilómetros feitos em viagens pelas duas equipas, com a França a ter quatro vezes menos do que a Espanha, que já somava acima dos 12.000 quilómetros. Era “falso” em tudo: não era por isso que uma equipa estava melhor ou pior e, em paralelo, foi pela escolha do local de estágio da Roja que isso aconteceu, tendo em conta que ambos os conjuntos seguiram apenas o trajeto delineado para quem terminava no primeiro lugar do grupo. Depois, o outro lado da moeda: o estilo de jogo do conjunto de Luis de la Fuente permite ter a completa noção dos limites físicos dos jogadores. Mais: Deschamps, na hora do adeus, nunca percebeu que enquanto não tivesse um terceiro médio nunca entraria no encontro. E a Espanha aproveitou…
A humbling match for France's architect with very little opportunity to impact the match the way he impacted the tournament through six matches. pic.twitter.com/tMxDSb6MuW
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 14, 2026