Portugal continua a marcar passo na redução da mortalidade nas estradas. Ao contrário da maioria dos países europeus — que registam uma diminuição da mortalidade rodoviária —, o número de pessoas mortas nas estradas portuguesas praticamente estagnou nos últimos dez anos: em 2015, morreram 593 pessoas e, em 2025, foram 589. Uma evolução praticamente nula. Perante um aumento das mortes nas estradas no primeiro semestre de 2026, o ministro da Administração Interna anunciou medidas de combate à sinistralidade rodoviária esta quarta-feira e referiu-se ao problema como uma “guerra civil”.
Segundo o mais recente relatório da “Road Safety Performance Index (PIN)” do Conselho Europeu de Segurança nos Transportes, entre 2015 e 2025, Portugal reduziu o número de mortos em apenas 0,7%, muito abaixo da média europeia.
Nos últimos dez anos, a mortalidade nas estradas europeias caiu 20%. Entre os países que registaram uma redução mais acentuada, estão a Polónia (menos 43,5%), Lituânia (43%) e Bélgica (41,6%). Com reduções das mortes superiores a 30% no período analisado estão países como Letónia, Estónia ou Bulgária.
Portugal teve o quinto pior desempenho entre 30 países na redução da mortalidade rodoviária. Pior só mesmo Espanha (mais 5,2% de mortes), Irlanda (mais 13%), Países Baixos (mais 22,4%) e Malta (90,9%).
Portugal ainda regista 55 mortes por milhão de habitantes, na cauda da Europa
Contudo, estes quatro países têm um número de mortos por milhão de habitantes inferior à realidade portuguesa. Portugal registou, em 2025, 55 mortes nas estradas por milhão de habitantes, ligeiramente menos do que em 2015 (quando registava 57 mortes por milhão). No ano passado, Espanha registou 36 mortes por milhão de habitantes, a Irlanda 34 mortes, os Países Baixos 42 mortes e Malta 37 mortes. A média europeia é de 43 mortes por milhão de habitantes.
Aliás, neste indicador Portugal é o sexto pior país da Europa. À frente de Portugal nas mortes na estrada, em proporção da população residente, surgem Letónia (63), Croácia (67), Roménia (68), Bulgária (71) e Sérvia (74). No topo aparecem a Noruega e a Suécia, com apenas 19 mortes por milhão em 2025.
Portugal iniciou uma trajetória de redução da mortalidade no início do século, quando morriam nas estradas cerca de 1.500 pessoas todos os anos. Esse número foi reduzido para cerca de um terço até 2015, quando a evolução positiva estagnou. “Isto é a estagnação completa”, lamenta o presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), em declarações ao jornal Público. Alain Areal diz que seria possível continuar a reduzir a mortalidade rodoviária mas alerta que tal não pode ser alcançado com “campanhas avulsas”. “É com responsabilidade partilhada e abordagem holística que se conseguem resultados”, diz o presidente da PRP.
Primeiro semestre de 2026 com tendência de aumento das mortes nas estradas
Já esta quarta-feira, o ministro da Administração Interna reuniu-se com o presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, Pedro Clemente, e com dois altos responsáveis da PSP e da GNR, para definir medidas para combater a sinistralidade rodoviária. Nos primeiros seis meses de 2026, morreram 225 pessoas nas estradas portuguesas, mais 11% do que no mesmo período do ano passado.
“Estamos particularmente preocupados com estes números e muito motivados no combate a esta falta de cumprimento da lei, a esta guerra civil”, disse Luís Neves. “Nos primeiros seis meses [de 2026], tivemos 17.941 acidentes e tivemos 225 mortes, com 20.700 feridos leves e 1.371 feridos graves [mais 6,9% do que no primeiro semestre de 2025]. São números que nos devem impressionar“, referiu o governante, anunciando operações-surpresa nas estradas no próximo fim de semana, quando milhares de portugueses regressam das férias e outros tantos começam as férias. “No fim de semana de transição, irão ocorrer muitas operações com base na imprevisibilidade”, disse o ministro, avisando que “as pessoas têm de se habituar a que as regras são para cumprir”.
Em comunicado, o Ministério da Administração Interna diz que a “intensificação desta fiscalização traduzir-se-á num maior controlo de infrações críticas — como o excesso de velocidade, o consumo de álcool e o uso do telemóvel ao volante —, e no reforço das operações conjuntas entre a GNR e a PSP, a par de intervenções diretas nos pontos negros e troços de maior concentração de acidentes”.
Quanto aos atropelamentos, que também estão em crescendo, a tutela adianta que será implementado um “plano extraordinário de fiscalização em zonas urbanas”. “Estas medidas serão essenciais para cumprir com os objetivos estabelecidos a nível nacional e europeu e fazer frente à tragédia que a sinistralidade rodoviária traz a tantas pessoas e famílias”, conclui o ministério.