O mais alto nível do futebol de seleções fechou portas em meados do último mês de julho. Entretanto foram as transferências que tomaram conta da atenção mediática do futebol internacional. Uma delas, em Portugal, foi a chegada de Nestory Irankunda ao Sporting, que teve de puxar a fita do tempo atrás para falar esta quarta-feira sobre a seleção australiana e, como em muitos outros casos, na origem dos jogadores que compõem os plantéis de cada país.
Neste caso, do seu. Já tinha acontecido com França, mais do que uma vez. Primeiro com a senadora do Paraguai, Celeste Amarilla, a proferir comentários discriminatórios sobre Kylian Mbappé. Depois, foi Mariano Rajoy, antes da meia-final entre Espanha e França, a dizer que a seleção francesa jogava “sem franceses”.
Agora, um mês depois de as portas do Mundial se fecharem, foi a Austrália envolta em polémica sobre um assunto similar e Irankunda aproveitou para fazer uma confissão coletiva. O novo reforço dos leões veio a público reagir às palavras de Pauline Hanson, também ela senadora, mas da Austrália, que disse que os socceroos representavam “uma Austrália monocultural”. As declarações aborreceram Irankunda “e muitos dos outros rapazes” que integram a seleção australiana, revelou o jogador do Sporting à ABC Radio.
Em causa está um discurso de Pauline Hanson no Senado australiano em junho: “Os socceroos, na verdade, representam a minha visão de uma Austrália monocultural — pessoas de diferentes origens, culturas e nações, todas vestidas de verde e dourado, a representar uma única nação, sob uma única bandeira, e a ter sucesso ao abrigo do mesmo conjunto de regras”, afirmou a líder do partido One Nation (Uma Nação, em português), uma semana depois de ter dito que a Austrália “devia ser monocultural”.
Pauline Hanson says Socceroos represent her vision of ‘monocultural’ Australiahttps://t.co/xZ3aYeQWd4 pic.twitter.com/2bQrEkjesT
— The Sydney Morning Herald (@smh) June 24, 2026
As declarações não foram bem recebidas pelo primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, que disse que “a Austrália moderna não é monocultural nem nunca foi”, citou-o o News24. “Temos uma cultura rica e, quando olhamos para os socceroos, vemos exemplos dessa cultura rica, pessoas que se orgulham da sua etnia. É um argumento sem sentido voltar a algo que na verdade nunca existiu”, acrescentou.
A senadora australiana disse, no entanto, que os socceroos eram um bom exemplo da sua visão: “Representam a minha visão de uma Austrália monocultural – pessoas de diferentes origens, culturas e nações, todas a vestir verde e dourado, a representar uma nação, sob uma bandeira, e tendo sucesso sob o mesmo conjunto de regras”, respondeu. “A monocultura australiana não é exclusiva, é inclusiva. É um termo abrangente que engloba todo o tipo de diferenças. Não é uma palavra pejorativa”, garantiu, explicando depois que só era contra as pessoas que vão para a Austrália “sem nenhuma intenção de se tornarem australianas ou de aceitarem os valores, costumes, tradições e leis australianas”.
Com ou sem emendas, as declarações de Hanson não foram só mal recebidas pelo primeiro-ministro australiano, como pela seleção da Austrália, incluindo Nestory Irankunda, o mais recente jogador do Sporting, que falou sobre o assunto esta quarta-feira. “Deixou muitos de nós [seleção] zangados, não vou mentir. Fiquei com algum ressentimento, mas depois tentei esquecer-me disso”, recorda. “Digo sempre às pessoas que sou australiano, e isso deixou-me mesmo chateado, tal como deixou chateados muitos dos outros rapazes, ver e ouvir coisas dessas, especialmente porque há tantos jovens que nos admiram”, afirmou.
Nestory Irankunda, nascido num campo de refugiados na Tanzânia, foi o atleta mais novo de sempre a marcar pelos socceroos na fase final de um Campeonato do Mundo, quando marcou o primeiro golo da vitória australiana sobre a seleção turca. Não é o único jogador australiano cujas origens estão fora do país. Mohamed Touré, avançado da seleção oceânica, nasceu na Guiné-Conacri. Awer Mabil, atleta de 30 anos, nasceu num campo de refugiados no Quénia. Este último, em julho, disse que as declarações da senadora “eram treta”.
Child refugee and groundbreaking Socceroo Awer Mabil is back home in Adelaide. Media asked him about Pauline's assertion Australia is a monocultural society, rather than a multicultural one. He asked if could swear, before declaring ???????????????????????? pic.twitter.com/FsrX3kCtqA
— Ben Pennings (@BenPennings) July 6, 2026
“Há pessoas como eu, o Awer e o Mohamed Touré que vão para a rua… E tentam fazer o que está certo, e nós fazemos o que está certo“, disse Irankunda. “Não gosto da forma como tentam colocar-nos todos na mesma categoria que as outras pessoas que fazem coisas más”, admitiu.
“Ainda estou chateado com algumas das coisas que ela disse no passado”, afirmou, quando questionado sobre a possibilidade de vir a falar com Pauline Hanson. “Não sou pessoa de me envolver em assuntos controversos ou políticos, mas nunca se sabe – um dia posso estar ao telefone com ela ou sentado num escritório a conversar”, concluiu o agora jogador do Sporting.