O terceiro período da receção das Chicago Sky às Indiana Fever, este domingo, aproximava-se do fim quando Natasha Cloud, depois de um cesto convertido, se aproximou da primeira fila da Wintrust Arena. Era aí que estava sentado Enes Kanter Freedom, antigo jogador da NBA, com uma t-shirt preta, em que se podia ler, em letras brancas e cor-de-rosa, uma entrada de dicionário da palavra “mulher”. “Substantivo. Ser humano adulto do sexo feminino”.
Kanter Freedom levantou-se, respondeu à provocação e acabou por ser escoltado pela segurança para fora do pavilhão. “Acabei de ser expulso de um jogo da WNBA por apoiar as MULHERES! Pensem nisto, AMÉRICA!”, escreveu, posteriormente, nas redes sociais.
Former NBA player Enes Kanter Freedom was escorted out of Wintrust Arena on Sunday evening after Chicago Sky guard Natasha Cloud confronted him at his courtside baseline seat.
Late in the third quarter of a game between the Sky and the Indiana Fever, Cloud scored on a driving… pic.twitter.com/2CA4Awv6wO
— The Athletic (@TheAthletic) August 24, 2026
Para perceber o porquê da aparente discussão — e das palavras do ex-Boston Celtics — é preciso recuar ao dia 7 de agosto. Foi nesse dia que o atleta de 34 anos anunciou que se ia declarar como elegível ao “draft” da WNBA, onde são escolhidas as novas atletas da liga profissional de basquetebol feminino da América do Norte e que se irá realizar em abril do próximo ano. “Se basta simplesmente declarar quem sou, então cumpro todos os requisitos necessários para competir na WNBA”, afirmou. Numa publicação posterior descreveu-se como “uma mulher trans”.
A declaração tem como objetivo protestar contra as diretrizes de elegibilidade da liga, que, acusa, não impedem a inclusão na liga de atletas transgénero — ou seja, mulheres cujo género atribuído à nascença foi o género masculino, mas que se identificam com o género feminino. Depois do anúncio de Kanter Freedom, Royce White, outro ex-jogador da NBA, também se declarou elegível para o “draft”.
A WNBA condenou os anúncios dos dois atletas. “Não há problemas de elegibilidade imediatos que afetem a WNBA, e condenamos veementemente as tentativas de má-fé de utilizar estes temas para menosprezar ou marginalizar os outros”, afirmou um porta-voz à Associated Press. Apesar dos protestos, não há, na verdade, qualquer mulher trans a competir na WNBA.
Como a voz de uma base das Indiana Fever incendiou a liga
Sophie Cunningham. É este o nome da atleta que, ainda antes do anúncio dos antigos jogadores da NBA, atirou a discussão sobre a presença de atletas trans no basquetebol profissional para o centro da agenda desportiva norte-americana — uma discussão que, aliás, se tem tornado cada vez mais frequente em várias modalidades desde que Donald Trump regressou à Casa Branca e aprovou uma série de ordens executivas sobre o acesso de pessoas trans ao desporto ou às Forças Armadas.
O tema foi abordado pela base das Indiana Fever numa entrevista à ESPN no final de julho. “Recebi muito ódio negativo por odiar trans. Mas eu nunca disse isso”, argumentou a atleta. “Eu quero proteger raparigas jovens num balneário ou raparigas jovens no desporto que não deviam ter de competir com homens biológicos”, declarou.
Este domingo, Cunningham também terá estado na origem da discussão entre Cloud e Kanter Freedom. “A Sophie Cunningham marcou um triplo e eu levantei as mãos em celebração. Literalmente umas posses de bola depois, a Natasha voltou e começou a gritar e a dizer ‘Ela não vai dormir contigo'”, relatou o ex-atleta esta segunda-feira. Em entrevista à Fox News, Kanter Freedom já tinha retratado Cunningham como “uma heroína americana”. “Onde quer que ela vá, vejo muita gente a defendê-la. Mas claro, se se está a defender algo em que se acredita, vai sempre receber-se ódio”, elaborou.
Esse apoio tem-se traduzido em manifestações à porta dos jogos das Indiana Fever, em apoio a Cunningham. À porta das arenas também se têm reunido protestos a favor dos direitos das pessoas trans. Ao entrar na Wintrust Arena este domingo, Kanter Freedom foi confrontado por este segundo grupo de manifestantes.
We are getting attacked before the @WNBA game in Chicago. pic.twitter.com/sn1oa3L7mJ
— Enes Kanter FREEDOM (@EnesFreedom) August 23, 2026
Estes não são, contudo, os únicos protestos que têm marcado a melhor liga de basquetebol feminino do mundo: este mês, vários jogos da WNBA tiveram de ser interrompidos depois de brinquedos sexuais terem sido atirados para o campo — os incidentes foram reivindicados, contudo, por um grupo que diz estar a protagonizar “ações virais” para promover a sua criptomoeda.
Cloud defende a comunidade trans e Chicago Sky defendem Cloud
No final do jogo, Natasha Cloud recorreu às redes sociais para condenar as posições de Kanter Freedom — com quem já tinha chocado em 2023 devido às visões opostas sobre uma decisão do Supremo Tribunal sobre discriminação racial e de orientação sexual. “A todas as pessoas/crianças trans, vocês fazem parte da MINHA comunidade e tribo. Vocês pertencem. Vocês são amados. Vocês são visíveis. Vocês são perfeitos como são e serão sempre protegidos por mim“, escreveu a base das Sky no Threads.
Na conferência de imprensa depois do jogo, que terminou com uma vitória por 113-90 para as Fever, Caitlin Clark e Lexie Hull, da equipa de Indiana, e a treinadora Stephanie White não se pronunciaram sobre a discussão, desvalorizando-a como uma questão de “redes sociais”. Já Tyler Marsh, treinador da equipa de Chicago, defendeu Cloud. “Eu disse à Tash que todos a apoiamos como alguém que protege a nossa equipa e protege as pessoas que precisam de ser protegidas. E a Tash vai sempre defender isso e nós vamos defender a Tash”, declarou aos jornalistas.
“Se as pessoas vêm a um jogo, deviam aproveitar o basquetebol, isso parece-me muito simples”, afirmou ainda, numa crítica às intenções de Kanter Freedom ao assistir ao jogo com a t-shirt. “Acho que estas jogadoras merecem e conquistaram isso. E sendo um antigo jogador de basquetebol, [ele] também devia compreender e sentir isso“, rematou.
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