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Segunda-feira, 12 de outubro de 2015. Falta quase um mês para Carvalhão Gil gozar os dias de folga que pediu nos serviços. Entra num centro comercial na Amadora e dirige-se à Agência Abreu. Lá dentro, sentado a uma das secretárias de madeira escura, explica que precisa de viajar até Trieste, no nordeste de Itália, entre o mar Adriático e a Eslovénia, e quer saber quais são as opções disponíveis. Vai a 6 e regressa a 8 de novembro. É uma viagem rápida, apenas um fim de semana. A solução que lhe é proposta obriga-o a fazer uma escala em Munique. Pode voar com a Lufthansa e levar apenas uma mala de mão. Não pode fazer quaisquer alterações ao bilhete e o cancelamento significa a perda total do valor. A viagem custa €309. O espião paga o valor em dinheiro vivo. Bilhetes comprados. Três dias antes do voo, Carvalhão Gil ativa um novo cartão SIM. É o quarto número que tem naquele momento. Dois são contatos pessoais, um é o número profissional e agora este. Nessa noite, recebe três ficheiros de imagem no novo cartão. O primeiro não é relevante, é do serviço de apoio da MEO. Os outros dois são enviados pelo próprio espião de um dos outros números. Um às 20h50 e outro às 21h03. Minutos depois, reencaminha os dois ficheiros para o e-mail pessoal e finalmente coloca tudo numa pen. A preparação do encontro secreto tem outro dado suspeito. Os outros telemóveis de Carvalhão Gil estão inativos durante o fim de semana. São desligados minutos antes de o espião chegar ao aeroporto, na madrugada de 6 de novembro, ou ainda na noite anterior à viagem. E só voltam a ser novamente detetados já no dia 8 de novembro, domingo, depois de Carvalhão Gil estar de regresso a Lisboa. O objetivo: apagar o rasto digital. Quando chega a Trieste, Carvalhão Gil passa a noite no hotel. No dia seguinte, apanha um autocarro e faz uma viagem de uma hora até Liubliana. Agora, está sentado numa esplanada na capital da Eslovénia. Em frente a Carvalhão Gil, está um homem mais novo. Ao fim de uns minutos, o português estende o braço e entrega-lhe a pen que trouxe de Lisboa. A suspeita das secretas é a de que lá dentro estão fotografias que andou a tirar aos agentes que trabalham na sede do SIS. Júlio Pereira tem um problema em mãos. Há uma toupeira nos serviços. Se o diretor máximo das secretas ainda tivesse dúvidas, o encontro clandestino de Frederico Carvalhão Gil na Eslovénia acabou com todas elas. Toma uma decisão. Aquele assunto não vai ser resolvido de forma discreta, muito pelo contrário. Aquela traição é crime e os crimes são resolvidos em tribunal. A estratégia tem riscos. O maior é de que a imagem dos serviços de informações portugueses saia fragilizada. Mesmo assim, Júlio Pereira decide avançar. Pede uma reunião à Procuradora-Geral da República. Vai ser o primeiro passo de uma investigação ultrassecreta e sem paralelo na Justiça portuguesa. Durante os próximos meses, a Polícia Judiciária vai seguir cada passo de Carvalhão Gil. Ele vai servir de exemplo. O país inteiro vai saber quem é o espião que aceitou vender-se à Rússia de Vladimir Putin. "A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, com banda sonora original de Bruno Pernadas. Episódio dois: Maçonaria, strippers e bares de alterne.

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O diretor do SIS segura dois fotogramas de um vídeo captado em Liubliana, no dia 7 de novembro de 2015, pelos serviços secretos eslovenos. A pedido das secretas portuguesas, vigiaram todos os movimentos do espião português no país. As duas imagens acabam de chegar através de um canal de comunicação encriptado. Os metadados daquele vídeo indicam que o encontro registrado pelos eslovenos durou pelo menos oito minutos. O primeiro fotograma mostra que a imagem foi captada às 13h20min55s. Frederico Carvalhão Gil aparece à esquerda do enquadramento. Só o rosto é visível por trás de um muro de mármore. Está com os óculos que costuma usar, veste um blusão escuro, que traz aberto, e tem uma peça de roupa clara por baixo. Está sentado a uma mesa e tem em frente um outro homem. O segundo fotograma é das 13h28min2s. Os dois homens continuam frente a frente. Falam a curta distância, debruçados sobre a mesa. Tem menos de um metro a separá-los. Aquelas imagens chegam às mãos de Neiva da Cruz, em Lisboa, poucas horas depois do encontro. De imediato, reconhece o funcionário do departamento de contraterrorismo dos serviços que dirige. Conhecem-se há quase 30 anos. Não sabe quem é o outro homem, mas o relatório do serviço de informações esloveno revela a identidade. Chama-se Sergey Nikolayevich Poznyakov. É um espião, um experiente funcionário do SVR, o braço externo dos serviços de informações da Federação Russa. Neiva da Cruz leva aquela informação a Júlio Pereira. O secretário-geral do SIRP lê o relatório, pousa-o e pega no telefone. Precisa falar com a procuradora-geral da República. É urgente. Marca o encontro para daqui a umas horas. Joana Marques Vidal recebe Júlio Pereira e Neiva da Cruz no gabinete da Procuradoria. O diretor do SIRP chega com uma pasta onde assinalou os principais pontos da investigação interna sobre Carvalhão Gil. Ali dentro também estão os detalhes do encontro encoberto que acaba de ser vigiado a 2 mil km de Lisboa. Júlio Pereira explica a Marques Vidal que há fortes suspeitas de que Carvalhão Gil esteja a cometer os crimes de espionagem e violação de segredo de Estado. Há quase 10 anos que é o homem designado pelo SIS para representar o serviço em reuniões da NATO, onde são partilhadas informações confidenciais da Aliança Atlântica. E há poucas horas, foi filmado a passar uma pen a um espião russo na Eslovénia. Mais, há fortíssimas suspeitas de que este não foi o primeiro encontro entre os dois. Não é possível saber há quanto tempo acontece, mas Carvalhão Gil poderá já ter estado muitas outras vezes com o espião do SVR. Inicialmente, pensa-se que a reunião em Liubliana terá sido o sexto encontro entre os dois. Poderão ter estado juntos em Lisboa, Marrocos, Eslováquia, Itália, Suíça e agora Eslovénia. Mas rapidamente esse número cresce. Na verdade, duplica. Além do trabalho da reconstituição das viagens do espião ao estrangeiro, o SIS faz outra coisa. Cruza essas datas com informações sobre viagens de Sergey Poznyakov aos mesmos locais, nos mesmos dias. É possível que os dois se tenham encontrado entre uma a três vezes por ano, nos últimos cinco anos. Ao todo, pode já ter havido 12 encontros. Júlio Pereira e Neiva da Cruz admitem que a quantidade de informação que Carvalhão Gil pode ter passado aos russos é, neste momento, incalculável. É impossível saber que informações e documentos classificados chegaram ao SVR. A incerteza é enorme e a preocupação também. Joana Marques Vidal ouve o relato com toda atenção e não tem dúvidas. Só há uma equipa capaz de investigar um caso destes. É lá que trabalham alguns dos procuradores mais experientes em processos altamente sensíveis. Aquele caso tem de ficar com Amadeu Guerra, o diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal. A Procuradora-Geral da República chama-o ao gabinete. Tem de vir agora. O diretor do DCIAP recebe o briefing dos responsáveis das secretas. O grupo deixa o gabinete de Joana Marques Vidal e sai pra a rua da Escola Politécnica. A partir do edifício da Procuradoria-Geral da República, são cerca de 350 metros até chegar ao DCIAP. É lá que João Melo e Vítor Magalhães são informados por Amadeu Guerra de que serão os procuradores responsáveis por aquele processo. Pelas mãos deles, já passaram casos de criminalidade violenta, como o dos Hells Angels. Casos de tráfico de droga, como a Operação Aquiles, que visou inspetores da PJ e militares da GNR, e também casos de terrorismo. A seguir, o diretor do DCIAP liga para Luís Neves, nesta altura, diretor da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária.

O doutor Amadeu Guerra teve logo a noção da gravidade do assunto. Felizmente, são casos únicos, ou poucos, que acontecem de tal forma que me chamou antes mesmo de ter decidido o que é que ia fazer a seguir. Portanto, conversamos e a conversa foi muito rápida. Nós já nos conhecíamos, já tínhamos uma boa relação e ficou ali decidido. Isso nem é preciso dizer, que a confidencialidade, o segredo, é muito relevante, é essencial pra esse tipo de investigações.

O caso é muito sensível e Luís Neves tem plena noção do perfil de inspetores de que precisa pra esta investigação.

Pessoas rigorosas, pessoas que trabalham todos os minutos em prol da investigação, pessoas que sabem juridicamente o que estão a fazer, pessoas audazes pra pensar fora da caixa e pessoas que sabem guardar segredo, que não falam com ninguém.

O segredo é essencial. Se houver uma fuga de informação, se o alvo sequer suspeitar de que está a ser investigado, isso pode ser o fim.

O suspeito, sendo abordado sem prova, naturalmente não pode ser acusado e muito menos julgado. Mas fica alerta, portanto, e a partir daí, acabou, as operações dele acabavam. Mas é também, sobretudo, pra defender o prestígio dos serviços, porque está aqui em causa, nenhum serviço gosta de ter casos destes, assim como qualquer serviço de investigação criminal não gosta de ter toupeiras dentro de si. Portanto, havia este duplo cuidado: preservar a investigação criminal e preservar a imagem dos serviços.

Os contactos sucedem-se a um ritmo vertiginoso, mas apenas dentro de um grupo extremamente reduzido. Ainda não passaram 48 horas desde que Frederico Carvalhão Gil e Sergey Pozdnyakov se encontraram na capital eslovena. E a equipa de procuradores e de inspetores já está pronta pra avançar. A investigação é aberta a 10 de novembro de 2015. Numa nota que escreve à mão nas margens do despacho de nomeação dos procuradores, Amadeu Guerra dá algumas indicações à equipa. Primeiro: o nome do suspeito jamais poderá ser referido na plataforma informática onde é feita a gestão dos processos, o CITIUS. Segundo: o processo tem de ficar sempre guardado num armário fechado e com as condições de segurança adequadas. Terceiro: aquele processo só pode ser passado de mão em mão e em envelope fechado, da PJ para o Ministério Público e dali para o juiz de instrução. E terá sempre a indicação de "confidencial", bem visível no exterior do envelope. As preocupações de secretismo estendem-se ao juiz que fica a acompanhar a investigação.

Há processos que também suscitam maior curiosidade ou suscitam maior interesse de várias e várias pessoas e, portanto, às vezes era necessário, nos processos que o Ministério Público entendia que haveria uma maior sensibilidade, criarmos essas especiais cautelas. E foi o que se verificou aqui neste caso, portanto, o que esteve na origem dessa decisão e dessas cautelas que foram adotadas aqui.

Na primeira intervenção que faz, o juiz Ivo Rosa enumera as regras de segurança que decide adotar. No Tribunal Central de Instrução Criminal, apenas dois funcionários estão autorizados a receber o processo, mas o envelope só poderá ser aberto por ele próprio e durante a noite vai ficar sempre dentro de um cofre.

O cofre é um armário fechado que existia no tribunal, onde eram guardados, por questões de cautela, todos os processos que tivessem informações mais sensíveis, fossem escutas telefônicas, fossem documentos relacionados com a vida privada das pessoas, para não ficarem em cima de uma secretária durante um fim de semana ou de um dia para outro. Obviamente que no tribunal circulam várias pessoas, como pessoas de limpeza, pessoas que por alguma razão entram no tribunal, pessoas que fazem a ronda da segurança. Havia-se o cuidado de termos as coisas acauteladas e fechadas.

Ao grupo restrito de intervenientes com acesso ao caso, juntam-se Pedro Prata, inspetor-chefe da Polícia Judiciária, e Manuela Santos, coordenadora de investigação criminal da PJ. Pedro Camarinha, o inspetor mais dedicado ao caso, é instalado numa sala especial. Na sede da Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire, aquela investigação suscita curiosidade entre os inspetores da Unidade Nacional de Contraterrorismo, conta Manuela Santos.

Um espaço mais reservado dentro do espaço da secção, mas um pouco mais reservado, precisamente para poder fechar a porta. Os processos ganham certa dimensão e depois não é viável estar sempre a metê-los nos armários, e a fechar. Portanto, tinha que haver, de facto, esse rigor. E ele ficou num espaço mais reservado para que realmente só ele pudesse aceder. Ele, eu, na altura a chefia, aos autos, mais ninguém.

A PJ recorre a todos os meios para esta investigação. Operações de vigilância, escutas aos muitos telemóveis que o espião usava, análise detalhada às movimentações bancárias das contas em nome de Carvalhão Gil. Mas não só. Também foram analisadas as contas das filhas, do irmão, da mãe e da ex-mulher.

Tínhamos que explorar todas as hipóteses. Uma investigação quando é aberta não pode: "Vamos apostar." Não, nós temos que pôr tudo em aberto e daí, se calhar, temos que ir mesmo ao fundo da questão em matéria de conhecer aquela pessoa, quais são os seus hábitos, com quem é que se relaciona. Todos os aspectos podem ser importantes num caso como este. Portanto, nós tivemos que lançar mão todos os meios especiais de obtenção de prova, as interceções telefónicas, as vigilâncias, a informação bancária, enfim, toda essa panóplia de dados que depois têm que ser trabalhados, têm que ser analisados, cruzados, para se chegar a alguma coisa.

A investigação encontra uma dificuldade acrescida. Como membro do SIS nas reuniões da Unidade de Coordenação Antiterrorismo da PJ, Carvalhão Gil conhece muitos dos inspetores que o estão a investigar.

Por exemplo, o Pedro Prata era um indivíduo que ele conhecia, também de ver, obviamente, conhecíamos. E portanto, era difícil montar uma vigilância a um indivíduo que, para já, também conhece as técnicas. Depois, naturalmente, uma pessoa que anda a fazer isto sabe que também tem que ter cuidado, porque pode também ser investigado. E por isso os cuidados eram imensos. Havia uma preocupação muito grande em termos de preservar toda a informação que íamos recolhendo. Dentro da própria PJ também tínhamos que ter cuidado porque inadvertidamente não se podia falar de coisas que podiam chegar aos ouvidos de alguém e, de uma forma sem malícia, também chegasse aos ouvidos dele. Havia aqui realmente muito cuidado. Foi muito delicada a investigação nesse aspecto.

Há um receio real de que a investigação possa ser descoberta. Um dia, o sinal de telemóvel do espião é detetado junto à sede da PJ, em Lisboa. Manuela Santos ouve um alerta. "Ele está aqui." A coordenadora da PJ aproxima-se de uma janela com vista para a Rua Gomes Freire. O Dacia preto de Carvalhão Gil está mesmo ali à frente, em cima do passante. A primeira hipótese que lhe ocorre é a de que o espião se veio entregar. Mas como é que ele poderia saber da investigação? O que é que falhou? Os minutos arrastam-se. A incerteza cresce. Pode estar tudo perdido. Até que um outro inspetor assegura. Afinal, o espião só veio almoçar com um funcionário da PJ. A investigação a Frederico Carvalhão Gil vai revelar uma vida paralela do espião, mas que não é totalmente desconhecida pelo SIS. No final da década de 1990, quando já era um dos mais destacados funcionários seniors dos serviços e tinha um cargo de direção intermédia, foi despromovido justamente por causa dessa vida paralela. Na altura, Carvalhão Gil viajou para Israel com um grupo de novos espiões que iam fazer um estágio de um mês com agentes da Mossad. Primeiro problema: com ele, nessa viagem de trabalho, seguiu também uma namorada. Segundo problema: em vez de acompanhar os futuros espiões nas atividades diárias, Carvalhão Gil aproveitou para fazer turismo e passou grande parte do tempo a passear com a namorada. O caso foi tão flagrante que assim que o grupo de formandos voltou a Lisboa, as queixas começaram a acumular-se em cima da mesa do diretor do SIS. Até as secretas israelitas reportaram a situação a Rui Pereira. Convidado a demitir-se com dignidade do cargo que ocupava, Carvalhão Gil foi despromovido e a carreira dele estagnou. Nunca mais foi considerado para um lugar de direção. A confiança no espião foi quebrada. Foi depois de se divorciar da primeira mulher, justamente no fim dos anos 90, que Carvalhão Gil conheceu uma mulher georgiana com quem acabaria também por casar. Chamava-se Elza, era tradutora e vivia em Lisboa. Foi ela quem o ensinou a falar russo. Apesar de ainda estarem juntos, a mulher passa agora a maior parte do ano na Geórgia a cuidar dos pais. A investigação da PJ percebe, ao longo dos seis meses em que o mantém sob vigilância, que Carvalhão Gil dorme quase todas as noites na casa que tem em Lisboa e que divide com a mãe. Numa outra casa, que tem nos subúrbios da capital, só fica quando a mulher vem visitá-lo. E isso quase nunca acontece. Mas essa segunda casa não está fechada. Uma cidadã russa está lá a morar. Chama-se Tatiana e conhece Carvalhão Gil desde 2007. Explica aos inspetores da PJ que vive em casa dele sem pagar nada por isso, mas garante: são apenas amigos. Almoçam juntos e conversam muito. Durante essas conversas, Carvalhão Gil chega a confessar: "Um dia, talvez venha a tentar algo mais com a Natalia". Natalia é a outra mulher na vida do espião, a terceira. Também ela é russa. Carvalhão Gil costuma vê-la no bar VIP, em Lisboa. É ali, num bar de alterne no centro da cidade, que a mulher trabalha. Conhecem-se há anos, muito antes de o espião começar a ser investigado. Encontram-se quase todos os dias. Carvalhão Gil é cliente regular do bar onde Natalia trabalha. Mas não é só no bar VIP que o espião é visto entrar quase a um ritmo diário. Durante as ações de vigilância, vai somando visitas a bares de alterne e de striptease por toda a cidade e arredores. A lista é extensa. Há visitas ao A Play, ao Bar L, ao Ludmilla Bar e também ao Check In. Elza, Tatiana e Natalia são todas investigadas pelo SIS, que procura alguma ligação aos serviços secretos russos. Na vida dupla que a investigação foi descobrindo, há ainda as deslocações regulares ao Bairro Alto. Frederico Carvalhão Gil é maçom há muitos anos. Pertence à loja Delta do Grande Oriente Lusitano e é raro faltar ao encontro com os irmãos na sociedade secreta. Outro dado chama a atenção dos inspetores. Na análise às contas do espião, há um antes e um depois de 2011. Onde antes havia um orçamento apertado, curto para as despesas e para o estilo de vida que leva, agora há alguma margem. E ainda há mais um detalhe que não passa despercebido à PJ quando analisa as contas bancárias. É que a partir desse ano de 2011, a atividade financeira de Carvalhão Gil parece ter hibernado. As movimentações ficam praticamente paradas e há pouco dinheiro a entrar e pouco dinheiro a sair, pelo menos nos registos oficiais.

Em toda a nossa quotidianidade, deixamos sempre uma pegada digital, sejam portagens via verde, seja a localização do telemóvel, sejam pagamentos, seja tudo e mais alguma coisa. E portanto, fomos a todas essas, digamos, referências que nós temos na nossa vida relativamente a um alvo e procurar tudo para trás, desde os movimentos financeiros, os meios de comunicação, as viaturas, os contratos, para tentar perceber o que é que esta pessoa tinha feito e onde é que ela poderia ter, digamos, prevaricado, onde é que poderiam haver falhas relativamente a um quotidiano que é normal para qualquer pessoa.

Não são só os registos bancários que levantam suspeitas. Nos contactos do dia a dia Carvalhão Gil recorre a aplicações do telemóvel que permitem enviar e receber mensagens encriptadas. Usa sobretudo o Viber e o WhatsApp. É como se estivesse sempre a tentar esconder alguma coisa. Ivo Rosa não tem dúvidas de que há indícios sérios de crime, mas quer estar a par de tudo que se passa. E a cada 15 dias, os inspetores atualizam o magistrado sobre o conteúdo das escutas e os resultados das vigilâncias. A equipe da PJ e a direção do SIS também se encontram com regularidade e mantêm uma comunicação quase permanente. A 13 de janeiro, o inspetor Pedro Camarinha faz um pedido de informações ao diretor do SIS. Quer saber que e-mails de Frederico Carvalhão Gil são do conhecimento do serviço. Mas quer, sobretudo, saber por onde o espião andou. Que viagens fez? Quando? Para onde? Em que reuniões participou em nome das secretas? A que informação pode ter tido acesso? Tem férias marcadas para aquele ano de 2016? As duas folhas A4 têm a indicação de "secreto" escrita em letras vermelhas. Na resposta do SIS à PJ, Carvalhão Gil surge com outro nome que lhe foi dado pra manter a confidencialidade da investigação. O espião agora é Boris. No dossiê sobre ele, há neste momento o registro de seis viagens suspeitas. Três aconteceram em 2014, em março, abril e maio. O SIS não faz ideia de onde o espião andou. Na indicação do destino de cada uma delas, surge apenas a referência: desconhecido. As outras três viagens aconteceram já em 2015. Em janeiro, esteve na Suíça. Em abril, esteve fora do país nos dias 18 e 19, mas a PJ não conseguiu apurar pra onde foi. E depois, em maio, fez uma viagem conjunta à Alemanha e à Áustria. Seguiu-se a viagem já conhecida à Eslovênia, em novembro, onde passou uma pen ao contacto russo. O próximo encontro pode acontecer a qualquer momento. Há vários meses que a PJ segue cada passo do espião. Pôs todos os telemóveis dele sob escuta e conhece cada uma das rotinas e hábitos que mantém. Há uma convicção inabalável na equipe: vai haver um novo encontro com o espião russo. Carvalhão Gil vai cometer um erro. É só uma questão de tempo. Mas os resultados tardam em aparecer. A investigação começa a pedir informações a entidades norte-americanas. A PJ emite cartas rogatórias à Google e à Yahoo. Quer ter acesso a todo o conteúdo dos e-mails que o espião do SIS enviou e recebeu ao longo dos anos. Os pedidos são entregues em mão, na Embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa, a uma pessoa de confiança dos inspetores da PJ. Mas a referência ao nome de Carvalhão Gil chega aos serviços secretos americanos. E algum tempo mais tarde, Lisboa recebe uma proposta de encontro vinda da CIA. As secretas dos Estados Unidos querem receber na sede, em Langley, a equipe que está a investigar o espião português. Há nove meses, uma agente da CIA foi à sede do SIS alertar para os encontros de Carvalhão Gil com espiões russos. Os americanos fartaram-se de esperar que Portugal fizesse alguma coisa. Querem entrar na investigação e acelerar o ritmo do processo. Uma toupeira à solta é um risco demasiado elevado. Sobretudo, uma toupeira que continua a ter acesso a documentos NATO. Semanas depois, os dois procuradores do Ministério Público, a coordenadora de investigação criminal da PJ e um elemento do SIS são recebidos na sede da CIA. Na reunião, estão também membros do FBI. O plano dos americanos é finalmente revelado. A CIA quer avançar com uma ação encoberta. Quer criar um perfil falso de um suposto cidadão russo, abordar Carvalhão Gil online, fazer uma aproximação calculada ao espião português e ver se cai na armadilha. Quer usar aquilo que na linguagem jurídica se chama um agente provocador. Só que há um problema: a legislação portuguesa proíbe que isso seja feito. Ninguém pode ser levado pelas autoridades a cometer um crime. A resposta é taxativa. A proposta das secretas norte-americanas está fora de questão e os portugueses insistem. Carvalhão Gil vai voltar a encontrar-se com o controlador russo. E nesse momento, a PJ vai estar lá para o apanhar. Sexta-feira, 13 de maio. É quase hora de almoço. O telemóvel toca. Frederico Carvalhão Gil atende. Do outro lado, ouve-se a voz de uma mulher. Tem uma proposta para lhe fazer. No penúltimo fim de semana daquele mês, um dos maiores stands automóveis do país vai ter mais de 300 Mercedes à venda. Carros novos, usados e de serviço. Há de tudo. E os preços, garante, são imperdíveis. É de 19 a 22 de maio. A mulher pergunta-lhe se não está interessado em fazer um test drive. "Não posso", responde Carvalhão Gil. "Não vou estar cá nesses dias". Só umas horas mais tarde é que o inspetor Pedro Camarinha ouve a gravação da escuta. Aquela conversa, aparentemente banal, vai revelar-se decisiva.

Se nós não tivéssemos total informação sobre o perfil do suspeito, sobre gostos e outras coisas mais, essa conversa a nós tinha-nos passado absolutamente inócuo. Portanto, há aqui um descuido, que não é descuido, porque ao fim ao cabo, ele era para ir testar, se a memória não me falha, uma viatura da marca Mercedes, que era a marca preferida dele. Ele é convocado para poder ir testar e ele diz que não pode, educadamente, porque estaria fora, e aí é o nosso sinal. Portanto, nós ficamos com as antenas no ar.

Depois de ouvir aquela escuta, Camarinha liga de imediato para o forte à Meia Esfera. Sabiam que o espião não ia estar em Lisboa naquele fim de semana? Têm informação sobre alguma viagem ao estrangeiro? Não têm. É verdade que Carvalhão Gil marcou férias para aqueles dias. Pediu o 19 e o 20 de maio, quinta e sexta-feira, e estará fora todo o fim de semana. Mas não deu qualquer informação sobre uma viagem, muito menos ao estrangeiro. Se já estava a ser seguido, agora não pode haver um único movimento de Carvalhão Gil que não seja controlado pelas equipas de vigilância da PJ. Ao mesmo tempo, as comunicações do espião em cada um dos quatro telemóveis que usa são ouvidas com o máximo cuidado. Até as pesquisas que faz na internet são controladas. A investigação pode estar a entrar numa fase decisiva. É preciso olhar para tudo, ouvir tudo e não deixar escapar absolutamente nada. Passaram dois dias desde aquela chamada. Ainda ninguém sabe ao certo o que vai acontecer, mas alguma coisa vai acontecer. Os sinais estão todos lá. O espião vai viajar. Mas para onde? Por quê? A resposta está por horas. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No entanto, se for assinante Standard ou Premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.

Entrou num hotel, sem marcação, sem nada, e fez um check-in a frio.

Tem uma unidade altamente especializada, está habituada a tratar de seguimentos, de vigilâncias, de operações complicadas, sobretudo no âmbito da máfia e no âmbito dos jihadistas. Portanto, as operações mais complexas passavam por eles.

Ele, ao que me vem, de um voo de Moscovo, passa na fronteira e ficou registado. E a polícia italiana estava atenta e diz: "O vosso alvo chegou".

"A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, e tem banda sonora original de Bruno Pernadas. O guião e as entrevistas são de Pedro Rainho. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz o Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.