Ao longo dos anos, entre as medalhas, as vitórias e até os desafios que teve de ultrapassar, Simone Biles tornou-se consensual. A ginasta norte-americana é uma das principais figuras do desporto mundial na última década, acumulando medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos e recolhendo a simpatia de praticamente todos — o que só torna ainda mais estranho o facto de isso ter mudado de um momento para o outro.

Nas últimas semanas, Simone Biles tornou-se a protagonista de uma troca de palavras pouco simpáticas que está a agitar a comunicação social norte-americana. Tudo começou no início do mês de junho, quando Riley Gaines, antiga nadadora e ativista com ligações próximas ao Partido Republicano, deixou comentários considerados transfóbicos numa publicação da Minnesota State High School League — que celebrava a conquista de um título por parte da equipa feminina, sendo que o plantel inclui um atleta que é biologicamente um rapaz mas que se identifica com o género feminino.

Simone Biles, uma Mona Lisa que só quer recuperar o sorriso para pintar uma obra de arte em Paris

Em resposta, Simone Biles não poupou as palavras. “És realmente doente, este ativismo todo porque perdeste uma prova”, começou por dizer, recordando que Riley Gaines competiu várias vezes contra Lia Thomas, a primeira nadadora transexual a conquistar uma medalha de ouro no desporto universitário dos Estados Unidos. “É mau perder. Devias estar a ajudar a comunidade trans e talvez a tentar encontrar uma maneira de tornar o desporto inclusivo OU criar um novo espaço onde as pessoas trans poderiam sentir-se seguras. Talvez uma categoria transgénero EM TODOS os desportos!!”, acrescentou.

“Ao invés disso… ‘Fazes bullying’. Ninguém no desporto está seguro se tu estiveres por perto!!!!! Goza com alguém do teu próprio tamanho, que ironicamente seria um homem”, sublinhou, num comentário ao corpo da antiga nadadora que não caiu bem junto de praticamente ninguém. Em reação, Riley Gaines mostrou-se “desiludida” com a ginasta, acusando-a de “body shaming” e de defender os homens “às custas dos sonhos de jovens raparigas”.

As palavras da ginasta de 28 anos não demoraram a causar ondas de choque. Danica Patrick, a primeira mulher a ganhar uma corrida do IndyCar, depressa defendeu Riley Gaines, indicando que “defender que homens devem estar no desporto feminino” é “irracional” e “requer terapia”. Já Martina Navratilova, apesar de mais cautelosa nas avaliações e de recordar as diferenças ideológicas que tem com a nadadora, voltou a opor-se à integração de atletas que são biologicamente masculinos nas categorias femininas.

Lia Thomas fez história, foi deixada sozinha num pódio e só quer estar em Paris. Pelo meio, é a nova cara da luta dos atletas transexuais

“Não poderia discordar mais dela na política, mas no que toca a manter o desporto seguro e justo para as mulheres e as raparigas concordo com ela a 100%. Assim como acontece com a maioria das pessoas, republicanos e democratas e tudo o existe no meio”, atirou a antiga tenista, que conquistou Wimbledon em nove ocasiões. Por fim, também MyKayla Skinner, ginasta norte-americana que já tinha tido outros desentendimentos com Simone Biles no passado, garantiu já ter sido “inferiorizada” e ter sofrido bullying por parte da atleta. “Quis manter-me calada pelas outras ginastas. Quis manter o silêncio através disso tudo, porque ela tem uma plataforma gigante”, explicou.

Pelo meio, num ataque que também está a ser criticado pelas mesmas pessoas que a defenderam, Riley Gaines lembrou que Simone Biles foi vítima de abuso sexual por parte de Larry Nassar, antigo médico da seleção de ginástica dos Estados Unidos que foi condenado a 175 anos de prisão — num julgamento em que a ginasta testemunhou. “Testemunhou e condenou todo aquele abuso sexual horrendo causado por um único homem, mas acredita que as mulheres devem ser forçadas a despir-se à frente de um homem para validar os sentimentos desse homem. Sabes quantas medalhas de ouro terias se o teu sonho ‘inclusivo’ fosse verdade? Zero”, escreveu, referindo-se ao facto de a atleta defender a introdução de uma categoria transgénero em todas as modalidades.

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Alguns dias depois dos comentários originais, porém, Simone Biles acabou por pedir desculpa a Riley Gaines. “Sempre acreditei que a equidade competitiva e a inclusão são essenciais no desporto. O sistema atual não inclui o balanço adequado desses dois princípios importantes, o que muitas vezes leva a frustração e a conversas acesas. O facto de ter tornado as coisas pessoais em relação à Riley não ajudou e peço desculpa por isso. São assuntos sensíveis e complicados e não tenho respostas ou soluções, mas acredito que tudo tem de começar com empatia e respeito”, escreveu a ginasta nas redes sociais.

Na mesma publicação, Simone Biles defendeu que Riley Gaines não estava a endorsar “políticas que comprometam a justiça no desporto feminino”, mas sim a “individualizar uma criança para escrutínio público de uma maneira que pareceu pessoal e prejudicial”. “Os atletas individuais, especialmente os mais jovens, nunca devem ser o foco das críticas a um sistema com falhas onde não têm qualquer controlo. Acredito que as organizações desportivas têm a responsabilidade de criar regras que apoiem a inclusão enquanto também mantêm a justiça na competição. Todos queremos um futuro em que o desporto é justo, inclusivo e respeitador”, terminou, sendo que entretanto acabou por apagar a própria conta no X.

Algo que, naturalmente, também mereceu um comentário da antiga nadadora. “É triste ver um fenómeno cair em desgraça desta maneira. Teve um comentário incrivelmente impopular e moralmente indefensável, foi justamente ridicularizada por isso, arrastou-se com um pedido de desculpas público depois de repercussões implacáveis e apagou a conta para fingir que nada aconteceu”, disse.