Ao terceiro dia, o caos voltou à Volta a Espanha. Depois de um arranque relativamente tranquilo no Mónaco, com destaque para o domínio de Tadej Pogacar (UAE Team Emirates-XRG), que assumiu de imediato a liderança daquela que pode ser a edição que o coloca no lote de oito magníficos que venceram as três Grandes Voltas ou junto a Chris Froome, que foi o único ciclista da história a ganhar a Volta a França e a Vuelta no mesmo ano. Contudo, tudo — ou nada, dependendo da perspetiva — mudou na segunda-feira, durante a terceira etapa. A incursão aos Pirenéus Orientais franceses, que marcava a primeira etapa de montanha desta 81.ª edição, viria a terminar mais cedo e a ser anulada por conta da tempestade de granizo que começou a cair no Mont-Louis, antes da subida final.
Foi nessa fase que o protagonismo saiu da estrada e das bicicletas e ganhou um nome nunca antes visto no mundo do ciclismo: Igesa Village Club Les Sorbiers. Trata-se de um hotel localizado naquela comuna francesa que, sem que nada o fizesse prever, acolheu todo o pelotão da Vuelta, distribuindo toalhas, comida e bebidas quentes por todos os ciclistas. No final, a organização da corrida roja, que está a cargo da Unipublic, que pertence à Amaury Sport Organisation (ASO), tentou recompensar financeiramente o hotel, que recusou receber qualquer contrapartida financeira pelo sucedido. Por outro lado, as críticas na internet dispararam, com ciclistas e adeptos a atribuírem cinco estrelas àquela unidade hoteleira por conta do sucedido.
“De repente começou uma tempestade com raios e trovões e não dava para continuar a corrida. Teria sido muito perigoso, porque a estrada estava coberta de granizo. Primeiro abriguei-me numa rulote e, depois, estávamos quase todos os outros ciclistas num hotel próximo. Agora vou-me aquecer”, explicou Wout van Aert (Visma-Lease a Bike) logo após o término da etapa. Nas redes sociais surgiram inúmeros vídeos do sucedido, com ciclistas como Mikel Landa (Soudal Quick-Step) a conseguirem abrigar-se do granizo debaixo do guarda-chuva dos espectadores.
Sacrée déluge putain #LaVuelta26 #MikelLanda pic.twitter.com/KVRTvcEVtD
— Goatdu31 (@mobutujtm) August 24, 2026
Depois do adiamento, o pelotão da Volta a Espanha teve pela frente mais uma etapa de alta montanha, com quase 2.900 metros de desnível positivo acumulado em 104,8 quilómetros, percorridos integralmente em Andorra, onde, segundo o Pro Cycling Stats, residem 17% deste pelotão, incluindo os dois portugueses da Emirates: João Almeida e Ivo Oliveira. O dia começou desde logo a mais de 1.100 metros de altitude e a subir a primeira de três primeiras categorias consecutivas: Port d’Envalira (23,3 km a 5,1%), Collada de Beixalis (6,5 km a 8,5%) e Coll d’Ordino (9,9 km a 7%). Antes do regresso a Andorra-a-Velha, havia ainda que passar pelo Alto de La Comella (3,9 km a 5,9%), que devia decidir a etapa… ou talvez não, dependendo do fator Pogacar.
A partida real veio com um ritmo de corrida apoteótico, com a Emirates a tentar de imediato controlar a corrida para evitar a formação da fuga. Ainda assim, depois de ter anulado a intenção de um grupo de 30 ciclistas, a equipa do Médio Oriente não conseguiu impedir o ataque de mais de uma dezena de corredores, com destaque para Van Aert, Finn Fisher-Black (Red Bull-Bora-hansgrohe) e Pablo Castrillo (Movistar), já depois de Cian Uijtdebroeks (Movistar) ter sido o primeiro candidato à geral a ceder. Nessa fase, Almeida sofreu um furo, reentrou pouco depois sem o apoio dos companheiros, mas abandonou definitivamente o pelotão a 85 quilómetros da meta, mostrando que não está na Vuelta para lutar por um bom resultado depois do vírus que contraiu na primeira metade da temporada. Por outro lado, a quebra foi extensível a praticamente toda a Emirates, já que Pablo Torres foi o único que se manteve junto de Pogacar no Port d’Envalira.
A confirmação da notícia que não queríamos dar: ???????? João Almeida ainda não está perto da sua forma e descolou cedo. O furo e o ritmo da Decathlon não ajudaram, mas as pernas não estão lá. É esperar que melhore e tentar uma etapa mais à frente na prova.#LaVuelta26 pic.twitter.com/GT1nRfquDh
— falso plano (@falsoplanoblog) August 25, 2026
Na descida em direção à subida com maiores pendentes do dia, a fuga acabou por ser anulada, com Jay Vine a regressar e a aumentar o ritmo logo no início de Collada de Beixalis. A 50,3 quilómetros da meta, Tadej Pogacar aproveitou novo endurecimento da Decathlon CMA CGM para desferir o tão aguardado ataque, levando consigo, durante 300 metros, Felix Gall. O esloveno acabou por passar no alto com mais de minuto e meio de vantagem para o grupo perseguidor, onde Gall já estava junto de Primoz Roglic (Red Bull), Vine, Enric Mas (Movistar), Oscar Onley (Netcompany Ineos), Mattias Skjelmose (Lidl-Trek) e Richard Carapaz (EF Education-EasyPost), que atacou no topo em busca dos pontos na classificação da montanha. Já em Ordino, Gall partiu o segundo grupo com novo ataque, que só encontrou resposta de Onley.
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Tadej Pogacar ataca a 50 kilómetros de meta y se marcha en solitario en la Collada de Beixallis.#LaVuelta26 #LaCasadelCiclismo pic.twitter.com/415hR5fU7M
— Eurosport.es (@Eurosport_ES) August 25, 2026
Os dois acabaram por voltar a ser alcançados por Roglic, Mas e Kuss, que passaram na contagem de primeira categoria a 3.06 minutos de Pogacar, ligeiramente à frente de Gregor Mühlberger (Decathlon), Skjelmose, Carapaz e Jarno Widar (Lotto Intermarché). A distância continuou a aumentar na descida e baixou na última subida, embora o esloveno até tenha tido tempo para cumprimentar o colega Adam Yates. Com esta vitória em Andorra, Pogacar voltou a ganhar nesta Vuelta e ultrapassou o número de vitórias da época passada (21-20), estando a quatro de igualar 2024, a sua melhor época nesse capítulo (25). Esta foi ainda a maior vitória em solitário do esloveno numa Grande Volta, superando os 42,7 quilómetros da etapa do Tourmalet no Tour deste ano.
Tiene tiempo para todo.
???????? El ???????????????????????? de Pogacar con Adam Yates.#LaVuelta26 #LaCasadelCiclismo pic.twitter.com/sUHkP5AqC9
— Eurosport.es (@Eurosport_ES) August 25, 2026
Widar terminou em segundo a 2.39 minutos, com esta vitória a perfilar-se como a terceira maior da carreira do campeão do mundo em termos de distância para o segundo classificado, perdendo apenas para 3.16 da Lombardia-2024 e os 2.44 da Strade Bianche-2024. Gall completou o pódio da etapa com o mesmo registo. Longe do colega de equipa, João Almeida cortou a meta no 115.º lugar, com um atraso de 22.45 minutos, e disse adeus à luta pela classificação geral, em que Tadej Pogacar tem agora 3.21 face a Primoz Roglic e 3.32 em relação a Enric Mas. A partir daí está tudo em aberto, já que o 11.º está a cerca de um minuto do pódio.
De 'Pogachitar' nada.
???????????? ???????????????????? ????????????????????????????.El maillot rojo liquida La Vuelta en Andorra.#LaVuelta26 #LaCasadelCiclismo pic.twitter.com/uWiXs2hK1v
— Eurosport.es (@Eurosport_ES) August 25, 2026