Depois de figuras como Pedro Delgado, Miguel Indurain, Roberto Heras ou Alberto Contador, para falar só dos corredores com mais triunfos em Grandes Voltas de diferentes gerações, o ciclismo espanhol foi tendo um período do “quase”. Houve alguns triunfos em etapas, houve classificações positivas que valeram pódio, vitórias na classificação geral nem vê-las. A última tinha sido ainda por Contador há mais de uma década, quando venceu o Giro de 2015 – e um ano antes conquistada a Vuelta. Agora, estava tudo preparado para a grande consagração. E a antecâmara desse tão aguardado dia acabou por ser um hino à Espanha.
Tudo começou na subida ao Collado del Alguacil, a última grande montanha desta Vuelta que traria também a derradeira oportunidade de Primoz Roglic ou Felix Gall arriscarem o impossível. Nada aconteceu. Pelo contrário, tudo aconteceu: Mikel Landa vingou-se de todos os azares dos últimos anos naquela que pode ser a sua última Grande Volta da carreira e venceu a etapa, Enric Mas mostrou que está mais forte do que toda a concorrência e até aumentou a margem de vantagem sobre os adversários diretos. Mas não ficou por aqui: no Memorial Marco Pantani, Ion Izagirre, que está somente a duas semanas de terminar a carreira, conseguiu aquele que pode ter sido o derradeiro triunfo, fechando com chave de ouro um “dia espanhol”.
Ion Izagirre wins the Memorial Marco Pantani, just weeks before his retirement ????
What a way to bow out ???? pic.twitter.com/KlBE5oiUz6
— Cycling on TNT Sports (@cyclingontnt) September 12, 2026
“Sonhava com esta vitória. Era a última oportunidade de ganhar uma etapa. Pensei nos meus filhos e que não podia voltar a casa enquanto um desistente. Se algum dia eles virem isto espero que saibam que nunca devem desistir. A equipa confiou em mim e apoiou-me durante toda a Volta a Espanha. Choro pela m**** de ano que tive, ou neste caso os últimos anos. Sofri muito. Agradeço a todos os que me apoiaram durante estes dias. Sinto-me em dívida para com eles. Hoje não ganhei sozinho”, comentou no final da 20.ª etapa Mikel Landa, que corre pela Soudal Quick-Step mas vai mudar-se para a Euskaltel-Euskadi.
“É a primeira vez na minha vida que me sinto assim. Inacreditável! São emoções novas para mim. Não sei o que dizer, obrigado à equipa, à minha família, aos meus amigos e aos adeptos. Com as pernas que tínhamos, vi-me como vencedor da Vuelta desde o início da etapa. Se não houvesse nenhum infortúnio e tudo corresse como planeado, sabia que seria assim e fui acreditando cada vez mais e descontando os quilómetros. Mais uma vez, a equipa esteve impecável. Se analisarmos todos os dias em que ganhei tempo, ou quase todos, foi graças a eles. A equipa fez um grande trabalho e ganhei graças à equipa”, destacou também Enric Mas, numa espécie de discurso de vitória antecipado antes da derradeira etapa em Granada… com polémica.
Os últimos 112 quilómetros da Vuelta teriam passagens por La Zubía, Gójar, Otura, Cúllar Vega e Santa Fe antes da chegada a um circuito final com três passagens a subir por La Alhambra, com pendentes até 10%. O traçado não é o mais habitual para fechar a competição, que por norma tem um dia de consagração na capital Madrid (que recebeu este domingo o Grande Prémio de Fórmula 1 45 anos depois) mas prometia no mínimo mais emoção. Demasiada emoção. E foi aqui que os corredores se chegaram à frente, pedindo para que os tempos fossem neutralizados antes da parte de circuito num troço técnico e com alguns perigos. “Isto não é nenhum circo”, dizia Sander De Pestel, da Decathlon. Também sou fã de espectáculo mas pode ser na mesma uma grande etapa se neutralizassem os tempos como fizeram no Tour”, acrescentou o corredor.
⛰ Mikel Landa nos emocionó y se reencontró con la victoria en #LaVuelta26
❤️ La Roja tiene dueño y, salvo sorpresa, Enric Mas será el ganador de la carrera en Granada
???? Estos son los highlights de la etapa 2️⃣0️⃣???? pic.twitter.com/wSj99LkkFP
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Last Good Morning of #LaVuelta26 ????❤️
Granada awaits for the final battle. A circuit through its streets, the climb up to the Alhambra and one last chance to raise the arms in victory ????????
Último Good Morning de #LaVuelta26 ????❤️
Granada nos espera para vivir la batalla final.… pic.twitter.com/RpZ4jUZ0LZ
— La Vuelta (@lavuelta) September 13, 2026
A primeira resposta a essa reivindicação que partiu de uma larga maioria das equipas foi negativa, com a Unipublic, que organiza a Vuelta, a dizer que não fazia parte dos seus planos alterar regras que já estavam antes definidas. No entanto, equipas e corredores não quiseram ficar por aí, ameaçando outro tipo de ações ou protestos. Na manhã deste domingo, a dúvida permanecia mas a tensão continuava no ar. Não foi à primeira, foi à segunda. “A Vuelta decidiu neutralizar os tempos da classificação geral individual da 21.ª etapa no último troço a 9,8 quilómetros da meta. Não haverá bonificações na meta, os pontos da classificação dos pontos serão na mesma entregues na linha da meta”, anunciou a organização antes do início da etapa. O braço-de-ferro acabou por ficar a meio caminho, tendo em conta que só a última passagem não iria contar.
Rogla ???? Richie. In the mountains rivals, on the flat, friends
Lo ha intentado hasta en las neutralizadas ????#LaVuelta26 pic.twitter.com/xtWjWcdks2
— La Vuelta (@lavuelta) September 13, 2026
❤️???????????? #LaVuelta26 pic.twitter.com/xlWmAtoXYQ
— La Vuelta (@lavuelta) September 13, 2026
Com destaques individuais além do óbvio, como aqueles que foram dados aos cinco corredores que estavam a fazer a última etapa de uma Grande Volta (Jesús Herrada da Burgos, Pello Bilbao da Bahrain, David de la Cruz da Pinarello-Q36.5, Steven Kruijswijk da Visma-Lease a Bike e Magnus Cort da Uno-X), a etapa foi mesmo um palco de consagração para todos os vencedores, com milhares de pessoas nas estradas a aplaudir um pelotão que estava claramente desgastado por três semanas de competição que tiveram etapas anuladas pela queda de granizo, outras encurtadas na parte final pelo calor e a queda de Tadej Pogacar pelo meio. Espectáculo, só mesmo no troço de circuito de Granada, com um ritmo e um ambiente descontraídos.
The tribute these legends deserve! ????
¡El homenaje para estas leyendas en su última Vuelta! ❤️
✨ David de la Cruz
✨ Jesús Herrada
✨ Pello Bilbao
✨ Steven Kruijswijk
✨ Magnus Cort#LaVuelta26 pic.twitter.com/LaLG9ufztd— La Vuelta (@lavuelta) September 13, 2026
Até à chegada a Granada, houve um média inferior a 30 quilómetros/hora que mostrava bem o ambiente que se vivia num pelotão que ainda não estava convencido a 100% da decisão da Vuelta sobre a parte final desta etapa. Só mesmo nessa fase a corrida começou a mexer, com as subidas a causarem mossa e a fazerem cortes que deixavam vários potenciais vencedores para trás. Finn Fisher-Black, Matthew Brennan, Léo Bisiaux, Axel Laurance, Milan Vader, Matez Govekar, Thibau Nys, Bastien Tronchon, Valentin Paret-Peintre e Alessandro Romele conseguiram formar um grupo de fuga, todos os principais candidatos deixaram-se ficar a par de Enric Mas, que era quase “escudado” pela Movistar para garantir que a vitória já estava “selada”.
Com a passagem para os últimos dez quilómetros, a festa estava finalmente pronta a rebentar. A etapa ainda estava em aberto com vários elementos na luta pela vitória (que não Wout van Aert, que acabou também por ceder quando queria acompanhar Matthew Brennan), a Movistar começava a soltar os primeiros foguetes a par do próprio ciclismo espanhol. No entanto, havia uma outra “vingança” prestes a surgir: Tobias Halland Johannessen, que tantas vezes andou à procura de uma vitória no World Tour sempre a ficar em segundo ou em terceiro, resistiu ao ataque de Alessandro Romele nos derradeiros metros e fechou a Vuelta a ganhar.