Portugal vai ter capacidade para produzir satélites já este ano, em Alverca, com potencial de exportação, e está “a situar-se como um exemplo na Europa” no domínio aeroespacial, afirmou o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

“Está a ser erigida uma capacidade em Alverca que, eventualmente, poderá ser inaugurada ainda, até ao final do mês de outubro, mês de novembro, e que vai, talvez, ser das instalações com mais capacidade de fabricação de satélites, até na Europa. E não são satélites pequenos, estamos a falar de satélites com mais de 600 quilos”, salientou o general João Cartaxo Alves, em entrevista à agência Lusa.

Atualmente na chefia do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), o general Cartaxo Alves esteve à frente da Força Aérea entre 2022 e o início deste ano, tendo sido um dos principais responsáveis pelo recente impulso no ramo no domínio aeroespacial.

A Força Aérea tem inúmeros projetos em andamento na área do espaço, a começar pela Constelação do Atlântico, parceria entre Portugal e Espanha financiada pelo Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) para desenvolver e lançar uma constelação de satélites de observação da Terra.

O objetivo é atingir um número suficiente de satélites para obter imagens de 30 em 30 minutos. Já foram lançados dois satélites do tipo SAR (que permitem obter imagens com alta resolução de dia, de noite e independentemente das condições meteorológicas) e serão lançados “mais dois este ano”, adiantou o general, adquiridos em junho pela Força Aérea à finlandesa ICEYE.

“Estarão previstos também no programa do SAFE [empréstimos europeus para a área da Defesa] mais três a quatro satélites para o próximo ano, na ideia de termos uma constelação que irá crescer e que nos permita, no futuro, ter capacidade de ver claramente, em qualquer ponto de coordenadas da nossa área, o que se está a passar e, com isso, tomar as melhores decisões”, acrescentou.

Os satélites no âmbito do SAFE serão produzidos no Alverca Space Hub, com potencial de exportação, estando prevista a contratação de até 50 novos engenheiros.

São várias as utilizações que os satélites podem ter, além do domínio militar: podem ajudar na monitorização e combate a incêndios; em cenários de tempestades severas (como a recente Kristin) conseguem delinear com precisão onde a água acumulada inundou margens de rios, campos agrícolas ou zonas urbanas, apoiando as equipas de socorro no terreno; são capazes de medir a temperatura dos oceanos bem como mapear áreas para auxiliar atividades como a agricultura.

Mas não é só na produção que Portugal se quer destacar: Cartaxo Alves alertou que a Europa está “a atingir uma fase de estrangulamento para lançamentos” de satélites e estando altamente dependente do Centro Espacial da Guiana, detido pela França, ou dos Estados Unidos, através da Space X.

Neste contexto, Portugal está a trabalhar na criação de uma base espacial em Santa Maria, no arquipélago dos Açores, um investimento de cerca de 15 milhões de euros do PRR. O objetivo é que o país tenha uma base que pode ser utilizada não apenas pelas Forças Armadas mas também por diversos operadores internacionais.

“Acho que Portugal, neste momento, nessa área, está a situar-se como um exemplo na Europa, em que o ecossistema espacial nacional civil está perfeitamente ligado à área militar e ao ecossistema militar. (…) Em termos da União Europeia somos vistos, realmente, como um país que está a dar passos muito sólidos e consolidados em relação ao futuro na área do espaço”, considerou.

Além dos projetos a nível europeu, Portugal está a ponderar ainda aderir à “mega constelação” de satélites da NATO, anunciada em julho, na cimeira da Aliança, na Turquia.

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