O Presidente da Argentina, Javier Milei, exortou esta quarta-feira o Reino Unido a “retomar as negociações com vista a encontrar uma solução pacífica para o litígio de soberania” das ilhas Malvinas, entre duras críticas à ONU.
No seu discurso perante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Milei focou o seu discurso na questão das Malvinas, advertindo para consequências para as empresas que explorem os recursos naturais nessa zona do Atlântico Sul disputada há décadas por Argentina e Reino Unido, sem a autorização do seu Governo, e não poupou críticas à ONU, por ter “olhado para o lado” relativamente a esta questão.
De acordo com o chefe de Estado argentino, a ONU “converteu-se numa organização inútil que só serve para alimentar uma casta de parasitas arrogantes disfarçados de burocratas bem-intencionados”.
Afirmando que a organização, criada para “garantir a segurança coletiva e os direitos humanos”, fracassou na sua missão, “permitindo o caos e o terrorismo internacional”, Milei criticou a ONU por, entre outras coisas, votar “sistematicamente contra Israel” e por não defender a “soberania territorial dos seus membros, ao ter decidido olhar para o lado relativamente à situação das ilhas Malvinas, Geórgia do Sul, Sandwich do Sul e espaços marítimos circundantes”.
“As Malvinas são para nós uma causa nacional. Repito: as Malvinas são para nós uma causa nacional. E são também uma prova da distância que pode haver entre as palavras das instituições internacionais e a realidade sobre a qual pretendem atuar”, disse.
Milei assegurou que “a posição da Argentina está definida” e “vai tomar medidas a este respeito”, pois rejeita “ficar à espera que a ONU e a comunidade internacional estejam à altura do seu próprio mandato”.
O Presidente argentino insistiu nas críticas à ONU, que acusou de ter perdido autoridade, já que “não faltam palavras nem resoluções, o que faltam são consequências”, pois, argumentou, “quem segue as regras não tem qualquer recompensa por fazê-lo, enquanto quem as viola não sofre a menor represália”.
Milei referia-se ao que classifica como “exploração não autorizada” dos seus recursos na área disputada, num contexto de renovada tensão entre a Argentina e o Reino Unido devido à soberania das Ilhas Malvinas, administradas pelo Reino Unido desde 1833 e reivindicadas por Buenos Aires.
“Não ficaremos indiferentes perante aqueles que exploram recursos sob ocupação ilegítima e ilegal”, disse esta quarta-feira perante a Assembleia Geral da ONU.
O Governo argentino endureceu, nas últimas semanas, as medidas contra empresas que operam no arquipélago sem autorização argentina e enviou ao Congresso um projeto de lei de Defesa da Soberania Nacional.
O projeto reforça as sanções pela exploração não autorizada de recursos naturais nas Malvinas e agrava as penas por atividades relacionadas com a exploração e extração de hidrocarbonetos.
Na terça-feira, Buenos Aires protestou junto do Reino Unido contra o anúncio das autoridades britânicas das ilhas Malvinas que iriam prorrogar por cinco anos as licenças às petrolíferas para produção de petróleo offshore (ao largo da costa) próximo do arquipélago.
No mesmo dia, intervindo igualmente durante a Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, afirmou que Londres vai manter-se “firme perante qualquer ameaça ou desafio” ao Estado de direito, nomeadamente no que diz respeito às ilhas Malvinas.
“Manter-nos-emos firmes perante qualquer ameaça e desafio ao Estado de direito, não só da Rússia, mas também de outros, incluindo quando ameaçam os direitos dos territórios britânicos de continuarem a ser britânicos, como as Ilhas Malvinas”, afirmou Andy Burnham.
Milei passou de admitir a sua admiração pela ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, logo após ter assumido a presidência da Argentina, em dezembro de 2023, a despertar um forte sentimento nacionalista e a tornar-se um grande defensor da soberania do país, com ações judiciais e legislativas como a que foi esta quarta-feira anunciada.
Em 1982, o Reino Unido governado por Thatcher e a Argentina envolveram-se num conflito armado de 74 dias, desencadeado pela invasão, a 2 de abril, das ilhas Malvinas pela ditadura militar argentina, liderada por Leopoldo Galtieri, para tentar recuperar esse território aos britânicos (que lhe chamam Falklands) e desviar as atenções da crise económica interna.
Thatcher destacou um grande contingente aéreo e naval para manter o arquipélago, o que conseguiu, a 14 de junho, com a rendição das tropas argentinas, após um balanço de vítimas mortais de 649 soldados argentinos, 255 soldados britânicos e três civis locais.
A derrota causou a queda da junta militar na Argentina e ajudou a restaurar a democracia, ao mesmo tempo que fortalecia o Governo de Margaret Thatcher no Reino Unido.
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